Calid “Moita” Reis, treinador da LOS Academy, esclarece ao Olhar Digital que a proficiência mecânica é apenas uma fração da formação necessária para um jogador profissional em League of Legends, destacando o papel dos treinadores, a relevância do Tier 3 na Liga GG e os obstáculos enfrentados no desenvolvimento de novos talentos no Brasil.
Embora alcançar os patamares mais elevados na fila ranqueada de League of Legends seja um feito que demanda profundo conhecimento do jogo, inúmeras horas de treino e a capacidade de aplicar tudo isso durante a partida, isso não assegura automaticamente a prontidão para o cenário profissional.
Segundo Calid “Moita” Reis, um bom desempenho na Solo Queue demonstra apenas que o jogador possui boa mecânica, ou seja, sabe operar seu personagem, executar ações e usar as ferramentas do jogo individualmente. Contudo, o ambiente competitivo exige muito mais.
A transição da habilidade individual para o desempenho coletivo depende de fatores como comunicação eficaz, capacidade de tomar decisões sob pressão, compreensão tática, disciplina e aptidão para aprender. É neste intervalo entre jogar bem e estar apto para competir que entram os torneios de base e o suporte técnico oferecido por profissionais, muitos dos quais atuam fora das transmissões públicas, como os coaches.
A própria jornada de Moita no League of Legends começou com a prática. Ele tentou ingressar no competitivo por aproximadamente seis meses, mas descobriu um interesse maior em estudar o jogo. Uma oportunidade de mudar de função surgiu quando um conhecido, que residia nos Estados Unidos na época, o convidou para ser coach de uma equipe formada por amigos.
Enquanto cursava a faculdade, Moita conciliou os estudos com uma rotina exaustiva dedicada ao League of Legends. As sessões de treinamento entre equipes (scrims) ocorriam à noite, e ele frequentemente ficava acordado até as quatro ou cinco da manhã estudando para auxiliar seus jogadores. Graças a esse esforço, a equipe progrediu da divisão de acesso até a primeira divisão da competição.
Essa rotina intensa resultou em um quadro de burnout para Moita durante o segundo split. O início de sua carreira como treinador coincidiu com a pandemia de Covid-19, um evento que alterou profundamente a dinâmica das interações online. Moita confirmou que a migração forçada de atividades para o ambiente remoto influenciou o interesse pelo competitivo, pois, com a redução drástica de interações presenciais, jogos e atividades virtuais passaram a ser um espaço central de socialização para ele, que acabara de iniciar a faculdade e tinha poucos contatos offline.
Os campeonatos de e-sports conseguiram manter-se ativos remotamente, aproveitando uma característica inerente aos esportes eletrônicos: uma partida de League of Legends não necessita que todos os dez participantes estejam fisicamente no mesmo local para ocorrer.
Embora o ranking individual seja um indicador de boa mecânica, ele não reflete todas as demandas de uma equipe competitiva. Na Solo Queue, cinco jogadores competem isoladamente, mas no nível profissional, esses cinco devem operar como uma unidade coesa. Isso implica não apenas saber executar uma jogada, mas entender o momento certo para tal, como essa ação afeta o plano geral da equipe, quais dados os colegas possuem e como coordenar as decisões de cinco pessoas.
Moita também ajudou a moderar a crença de que basta alocar um talento sob a tutela de um bom treinador para torná-lo profissional. Ele enfatizou que a idade do atleta é um fator relevante nesse processo. Trabalhar com jovens exige gerenciar não só o conhecimento de League of Legends, mas também aspectos de maturidade, comportamento e comunicação. Apesar disso, Moita atribui a maior responsabilidade pela evolução ao próprio jogador, estimando uma proporção de 75% para o jogador e 25% para o coach.
O treinador tem o papel de indicar falhas, ensinar conceitos, analisar decisões e estruturar treinos, mas há um limite ao ensino se o jogador não converter a orientação em prática. Moita fez uma distinção crucial: nem todo bom treinador possui as mesmas habilidades. Existem profissionais focados em análise tática e estratégica, dedicados a estudar adversários e planejar partidas. No entanto, há uma competência igualmente vital: a habilidade interpessoal. O head coach deve equilibrar essas duas áreas, e Moita aponta que a falta de experiência no cenário reside justamente nessa segunda dimensão, pois gerenciar seres humanos é muito mais imprevisível do que o próprio jogo, especialmente em categorias de base com adolescentes.
O conceito de Tier 3 ganha importância nesse contexto, representando a camada de entrada do competitivo organizado, abaixo das grandes competições. É onde os jogadores experimentam a estrutura de equipe, diferentemente da Solo Queue, onde apenas a mecânica é testada. No Tier 3, inicia-se a vivência da competição real: treinos estruturados, preparação contra adversários, comunicação, análise de jogos, lidar com derrotas e a pressão por resultados.
Além de formar jogadores, o Tier 3 também molda treinadores. A trajetória de Moita, passando por equipes menores antes de chegar à LOS, ilustra como o reconhecimento vem após anos de estudo e dedicação no cenário. Criar esse caminho, contudo, enfrenta barreiras estruturais. Segundo Moita, o Brasil ainda apresenta deficiências no fomento do cenário local, agravadas pela vasta dimensão territorial do país, que dispersa jogadores e concentra oportunidades em locais específicos.
Fomentar a base, portanto, transcende a realização de um campeonato; é preciso estabelecer vias para que jogadores talentosos encontrem equipes, equipes encontrem competições, treinadores possam desenvolver esses atletas e que os destaques sejam notados pelos níveis superiores. A própria história de Moita demonstra a importância dessas conexões, pois ele precisou buscar ativamente profissionais experientes, recebendo orientações que integraram sua formação.
Isso levanta a questão da circulação de conhecimento. Moita confirmou a existência de profissionais que retêm seu saber em vez de compartilhá-lo. Ele também relatou ter encontrado profissionais dispostos a ensinar. Essa troca é fundamental, pois desenvolver uma região competitiva significa acumular conhecimento, e não apenas reunir cinco jogadores mecanicamente dotados. Moita citou um exemplo de um jogador brasileiro que descobriu uma mecânica em treinos internacionais, mas que membros de uma equipe coreana informaram já conhecer há oito anos.
Para quem está começando a acompanhar o League of Legends, Moita sugere focar menos em abates ou danos e mais na observação do minimapa e da movimentação do jogador. É preciso analisar quando ele sai de sua rota, para onde vai sem combate aparente, como se posiciona em relação aos colegas e como reage às movimentações no mapa. Observar essas decisões revela aspectos que as estatísticas isoladas não mostram, resumindo a mensagem principal: enquanto a mecânica chama a atenção, formar um profissional exige a capacidade de enxergar tudo o que ocorre entre as jogadas.
