Elenco do novo filme de Street Fighter sofre lesões, mas os bastidores são menos caóticos que a versão de 1994
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Elenco do novo filme de Street Fighter sofre lesões, mas os bastidores são menos caóticos que a versão de 1994

Os atores envolvidos na nova versão cinematográfica de 'Street Fighter' enfrentaram dificuldades físicas, incluindo ferimentos e acidentes durante as gravações. No entanto, essas adversidades parecem insignificantes quando comparadas ao turbilhão ocorrido durante a adaptação original de 1994, que contava com Jean-Claude Van Damme e Raul Julia.

Com lançamento previsto para o dia 15 no Brasil, a recém-adaptada série de jogos de luta optou por incorporar a estética vibrante e o ritmo caricato característicos dos fliperamas. Para concretizar essa visão, o diretor Kitao Sakurai, conhecido por 'Bad Trip', exigiu que o elenco estivesse em excelente forma física e realizasse os combates com o menor número possível de dublês.

Neste novo filme, Andrew Koji, ator britânico de 38 anos e especialista em artes marciais, interpretou Ryu, vestindo sua faixa e quimono. Embora tenha dispensado dublês na maioria das sequências, ele sofreu um grave incidente durante o confronto final contra o antagonista Akuma (interpretado por Roman Reigns). Koji relatou em entrevista ao g1 que não foi apenas uma torção no tornozelo, mas sim uma ruptura da panturrilha enquanto filmava a luta contra Akuma. Ele acrescentou que ainda havia cenas de luta com Blanka e Ken que foram parcialmente concluídas enquanto ele estava lesionado.

A intensidade física também foi notável para David Dastmalchian, que assumiu o papel de M. Bison. Em uma cena de fúria, Dastmalchian bateu repetidamente em uma pilha de blocos de cimento. Ao remover as luvas, ele notou que suas mãos estavam cobertas de sangue, o que o deixou animado com a performance.

Já Callina Liang, que faz Chun-Li, dedicou três meses de treinamento intensivo focado exclusivamente em membros inferiores, praticando muay thai, taekwondo e wushu, buscando replicar as coxas musculosas e os chutes rápidos da policial chinesa. Ela mencionou que ganhou quase 10 quilos em um mês e meio, alimentando-se a cada duas horas, apesar de questionar se suas pernas ficariam tão grandes quanto no jogo.

O teste mais rigoroso para Liang foi uma sequência de duas semanas de lutas ininterruptas no escritório de Bison. Ela descreveu a experiência como um caos, mas o mais divertido de sua vida.

Contudo, o diretor Sakurai reconhece que a loucura da produção atual não se compara ao que ocorreu há trinta anos. Ele brincou sobre a sorte de o processo de filmagem não ter sido tão extremo quanto o do 'Street Fighter' original, afirmando que o filme atual não pertence ao mesmo universo que o de 1994, mas o referencia de maneira afetuosa, dado o histórico das diversas mídias de 'Street Fighter'.

O pesadelo de 1994: cocaína, fome e improviso

Se os ferimentos ocorridos em 2026 foram resultado de esforço atlético, os bastidores de 'Street Fighter: A Última Batalha' (1994) foram marcados por crises e tragédias. Sob a direção do inexperiente roteirista Stephen E. de Souza, este projeto de três décadas atrás enfrentou uma série de desastres na Tailândia, local onde parte do filme foi gravada.

Jean-Claude Van Damme, o astro belga, estava sob forte influência do vício em cocaína, o que resultava em faltas frequentes às filmagens matinais e invenção de desculpas médicas. Isso forçava o diretor a criar cenas improvisadas com atores coadjuvantes para não perder os dias de filmagem. Adicionalmente, ele envolveu-se em um caso extraconjugal com a cantora Kylie Minogue, que foi escalada de última hora como Cammy após Souza descobrir o relacionamento em uma revista de avião.

Raul Julia, escolhido para interpretar Bison, um ator porto-riquenho renomado, acabara de passar por uma cirurgia de câncer de estômago. Ele chegou a Bangkok em estado debilitado, magro e irreconhecível. A produção teve que reorganizar todo o cronograma para permitir que Julia descansasse e recuperasse peso antes de gravar os diálogos em planos fechados. Apesar de completar sua participação, o ator faleceu antes da estreia.

As condições do set em Bangkok eram precárias: as instalações apresentavam buracos no teto que permitiam a entrada de luz natural, impossibilitando filmagens noturnas. A água do rio local provocava irritações severas na pele da equipe, e membros do elenco sofreram desnutrição devido à alimentação local. Produtores também enfrentaram infartos e acidentes graves no trânsito.

Houve também conflitos internos: o coordenador de dublês, Charlie Picerni, entrou em atrito com o diretor porque as lutas não tinham tempo de ensaio adequado. Para agravar a situação, a Capcom solicitou cortes drásticos de sangue na edição para evitar censura adulta nos Estados Unidos, o que levou ao apagamento de golpes especiais clássicos, como os efeitos visuais do Hadouken de Ryu, que nem sequer haviam sido finalizados a tempo.

Koji comentou, ao comparar as duas épocas, que Jean-Claude Van Damme gostava de aprontar, quase não conseguindo terminar o filme. Ele contrastou isso com o set atual, dizendo que era o oposto: «Não tinha nenhuma diva, nenhum babaca, só gente apaixonada pela franquia.»

O peso da capa de Raul Julia

Substituir Julia, cuja atuação grandiosa e operística ajudou a manter o filme de 1994 longe do esquecimento total, representou o maior desafio psicológico para o novo Bison. Dastmalchian admitiu que a sombra de Julia era intimidadora.

O ator afirmou que Julia sempre entregava 1000% de si, seja em dramas, comédias ou adaptações de videogames. Ele poderia ter feito apenas 60% se tivesse pensado que era apenas um jogo, mas ele deu tudo de si.

Para conferir seu próprio tempero ao vilão psicótico sem simplesmente imitá-lo, Dastmalchian buscou inspiração em fontes mais sombrias. Ele mesclou a insanidade de Marlon Brando em 'Apocalypse Now' (1979) com a tirania de líderes reais, como Idi Amin, retratado por Forest Whitaker em 'O Último Rei da Escócia' (2006), e até personagens de Shakespeare. Ele refletiu sobre Mussolini, David Koresh e a astúcia maligna de Iago em 'Otelo', concluindo que Bison é alguém que genuinamente crê ser a entidade mais poderosa do planeta e sofre quando seu corpo físico falha em acompanhar essa ambição.

Sem medo da galhofa

Enquanto a adaptação dos anos 90 tentou mascarar a mitologia fantástica em uma narrativa genérica de soldados no estilo 'Comandos em Ação' para agradar fabricantes de brinquedos, o filme atual escolheu o caminho oposto: abraçar o absurdo. Sakurai declarou que, por muito tempo, as adaptações tentaram tornar os jogos mais sérios e sóbrios, como em 'O Cavaleiro das Trevas', mas que 'Street Fighter' é colorido, irreverente e absurdo, decidindo mergulhar profundamente nessa insanidade.

Se a reputação dos jogos no cinema dependia de sangue, suor e hematomas para ser superada, o grupo de 2026 já cumpriu esse pagamento. E, desta vez, sem precisar colocar ninguém refém do caos vivenciado na Tailândia.

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