A equipe de projeto apresentou um conceito para um edifício de uso misto que engloba escritórios, depósito e estacionamento, desenvolvido pela KF arquitectes. Este projeto foi concebido para ser inserido em um território densamente povoado e sob forte pressão urbana, respondendo ao desafio de como construir uma estrutura de grande porte sem que ela domine a paisagem local.
A localização específica do empreendimento é em Les Bons, Encamp, Andorra. O edifício está situado em um vale estreito de alta montanha, caracterizado por uma topografia irregular e pela notável presença de vegetação estabelecida, particularmente álamos centenários. O ciclo sazonal dessas árvores influencia significativamente a percepção do local ao longo do ano e serve como uma referência central para a proposta arquitetônica.
Com dez pavimentos, a edificação acomoda a sede corporativa de uma empresa e implementa um programa multifuncional. Este programa combina um espaço de armazenamento de mercadorias, dois níveis dedicados ao estacionamento e quatro andares destinados a escritórios. A necessidade de conciliar atividades com demandas tão diversas — desde operações logísticas que envolvem caminhões pesados até ambientes de trabalho que requerem conforto — impôs a necessidade de uma organização extremamente precisa para prevenir conflitos e garantir a autonomia de cada função.
A solução estrutural foi definida por uma hierarquia bem delineada de acessos e fluxos, complementada por uma organização vertical que unifica todos os programas dentro de um sistema arquitetônico coeso. Dessa maneira, a complexidade funcional é resolvida intrinsecamente pela própria arquitetura, impedindo a fragmentação do edifício apesar da convivência de múltiplos usos.
No que tange à integração no terreno, a implantação visa mitigar o impacto visual e territorial da construção. O volume do prédio segue o contorno da topografia existente e prioriza a preservação da vegetação sempre que for viável. Além disso, a volumetria foi intencionalmente fragmentada para diminuir a escala percebida e estabelecer uma conexão mais íntima com o cenário circundante.
Em vez de tentar competir com o ambiente natural, o edifício foi projetado para funcionar como um pano de fundo discreto, harmonizando-se entre a montanha e a flora. Os materiais escolhidos, as texturas e a composição das fachadas fazem alusão aos tons e ritmos do bosque de álamos, sendo que as variações sazonais modificam a interação visual entre a arquitetura e a paisagem. O projeto não é visto como um elemento estático, mas sim como uma presença cuja percepção se desenvolve em sincronia com seu entorno.
A sustentabilidade foi incorporada como um aspecto fundamental nas decisões arquitetônicas. A concentração do programa, a otimização dos percursos de circulação, o aproveitamento da luz natural nos espaços de trabalho e a manutenção do ecossistema existente contribuem para diminuir a pegada ambiental do edifício e elevar seu desempenho geral. A proposta busca uma arquitetura que seja tanto eficiente quanto duradoura, estando intimamente ligada às características singulares do seu local.
Em um contexto de alta sensibilidade ambiental, o projeto advoga por uma arquitetura pautada na contenção, em detrimento da monumentalidade. Trata-se de uma abordagem que reconhece sua própria dimensão e complexidade operacional, buscando a integração com o território através da adaptação topográfica, da divisão volumétrica e de uma relação de proximidade com a vegetação já presente. O resultado final é um edifício concebido não como um objeto isolado, mas como uma parte integrante de uma paisagem em contínua transformação, onde a arquitetura, a vida humana e a natureza podem coexistir sem que qualquer um desses elementos precise se sobrepor aos outros.
