Doença de Creutzfeldt-Jakob: Entenda a condição neurológica rara, de rápida evolução e potencial fatal
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Doença de Creutzfeldt-Jakob: Entenda a condição neurológica rara, de rápida evolução e potencial fatal

A Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma condição neurológica incomum e de rápida progressão, capaz de causar perda de memória, alterações comportamentais, dificuldades de coordenação e comprometimento motor, podendo levar ao óbito em poucos meses.

As estimativas globais indicam que ocorrem entre um e dois casos por milhão de habitantes anualmente. Contudo, neurologistas no Brasil sugerem que o número registrado nacionalmente pode ser inferior à realidade, o que contribui para a discrepância observada em comparação com outros países.

Um grande desafio no manejo da DCJ é o reconhecimento precoce, visto que seus sintomas iniciais podem mimetizar outras patologias neurológicas, como encefalites ou outras formas de demência de rápida progressão. Devido à sua natureza acelerada, é crucial realizar investigações precoces para excluir outras doenças tratáveis.

O processo diagnóstico envolve uma combinação de avaliação clínica com exames como ressonância magnética, eletroencefalograma e análise do líquor, o fluido que circunda o cérebro e a medula espinhal. Um fator importante, porém, é o acesso ao teste RT-QuIC, considerado um dos mais específicos para identificar a doença, embora este exame ainda não esteja amplamente disponível no Brasil.

Por que a Doença de Creutzfeldt-Jakob é tão rara?

A DCJ figura entre as condições neurológicas mais raras mundialmente. Órgãos como o NHS, sistema público de saúde do Reino Unido, estimam a incidência em 1 a 2 casos por milhão de habitantes anualmente, o que demonstra sua baixa frequência mesmo em locais com sistemas de vigilância robustos.

No contexto brasileiro, especialistas avaliam que o número conhecido pode ser subestimado. Jerusa Smid, neurologista do Hospital das Clínicas da USP, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e do Hospital Israelita Albert Einstein, afirma que a doença não é tão rara quanto os dados disponíveis no país sugerem.

Entre 2005 e 2021, o Ministério da Saúde recebeu 1.576 notificações de suspeita de DCJ, sendo 547 confirmadas, 457 descartadas e 572 (ou 36,3%) sem classificação final definida.

Para compreender a raridade, é necessário analisar a base biológica da doença: ela é causada por príons, proteínas que adquirem uma configuração anormal. Essas proteínas podem, por sua vez, forçar proteínas saudáveis do cérebro a mudarem de formato. Jerusa explica que, ao entrar em contato com outra proteína normal, a forma transformada induz essa última a se tornar um príon.

Este ciclo se repete, levando ao acúmulo dessas proteínas anormais e causando um dano progressivo às células cerebrais. Na sua manifestação mais comum, a forma esporádica, os cientistas ainda desconhecem o gatilho inicial dessa transformação, não havendo uma causa identificada que explique por que afeta certos indivíduos e não outros. É importante notar que a DCJ não é a única doença causada por príons; existem outras condições mais raras nesse grupo, como a síndrome de Gerstmann-Sträussler-Scheinker e a insônia fatal.

Por que a doença evolui tão rápido?

A aceleração da progressão da DCJ está diretamente relacionada à maneira como os príons atuam no cérebro. Ao assumirem uma conformação anômala, essas proteínas conseguem induzir a mudança de formato em proteínas saudáveis, disseminando o processo pelo tecido cerebral através de transformações sucessivas.

À medida que mais proteínas adotam a forma anormal, elas se acumulam, resultando em deterioração contínua das células cerebrais e comprometimento de diversas funções neurológicas. Por essa razão, os sintomas podem se agravar em um período muito menor do que em outras doenças neurodegenerativas.

Alterações significativas na memória, comportamento, coordenação e movimentos podem surgir e intensificar-se em questão de poucos meses. Essa rapidez é um indicador que auxilia os médicos a levantar a suspeita da enfermidade, embora não seja suficiente para confirmar o diagnóstico, pois outras causas de demência progressiva rápida devem ser investigadas e excluídas.

Por que o diagnóstico pode ser tão difícil?

Um obstáculo primordial reside na ausência de um sintoma inicial exclusivo da DCJ. O quadro clínico pode se apresentar de maneiras variadas, gerando confusão com outras doenças neurológicas.

Os sinais que podem manifestar-se incluem perda de memória, modificações comportamentais, dificuldade de locomoção, desequilíbrio, falta de coordenação e movimentos involuntários. Todos esses sinais são comuns em patologias muito mais prevalentes.

Marcio Luiz Figueredo Balthazar, professor do Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, esclarece que, em termos gerais, a doença de Alzheimer tende a evoluir ao longo de anos ou décadas, enquanto a Creutzfeldt se estabelece de modo mais veloz e possui uma sobrevida significativamente menor. Ele adiciona que a DCJ entra no diagnóstico diferencial de o que é chamado de demência rapidamente progressiva, que abrange múltiplas etiologias.

Entre as possibilidades que requerem investigação estão encefalites, doenças autoimunes, outros quadros neurodegenerativos e alterações metabólicas. Este processo é vital, pois algumas dessas condições possuem tratamento, exigindo que a investigação descarte outras causas de deterioração rápida da memória, do raciocínio e dos movimentos antes de se chegar ao diagnóstico definitivo de DCJ.

Embora a progressão rápida sirva como pista, Balthazar enfatiza que a velocidade, isoladamente, não confirma o diagnóstico, visto que outras causas de demência progressiva rápida também precisam ser consideradas.

Quais exames são usados na investigação?

Não existe um exame padrão único que resolva a investigação em todos os pacientes. Geralmente, o neurologista integra o histórico clínico e o exame físico com diversos testes complementares.

Entre os procedimentos mais relevantes estão a ressonância magnética cerebral, que pode revelar padrões característicos do quadro; a punção lombar, utilizada para analisar o líquor; o RT-QuIC, um exame que procura evidências da proteína priônica anormal no líquor; o eletroencefalograma (EEG), que monitora a atividade elétrica cerebral; e outros testes sanguíneos e de líquor para descartar infecções, doenças autoimunes e alterações metabólicas.

A ressonância magnética é particularmente relevante, pois certos padrões cerebrais podem reforçar consideravelmente a suspeita diagnóstica. O RT-QuIC, ou Conversão Induzida por Tremor em Tempo Real, representa um avanço recente, pois detecta indiretamente a atividade característica dos príons. Jerusa aponta que, apesar de ser útil na maioria dos casos, sua disponibilidade no Brasil ainda é limitada.

Quando realizado, o RT-QuIC utiliza uma amostra de líquor, expondo-a a proteínas normais. Se houver príons presentes, eles induzem essas proteínas a sofrerem alteração de forma, permitindo a detecção da reação. O teste foi incorporado à prática clínica em meados da década passada e ganhou importância na investigação da DCJ devido à sua alta precisão, apresentando especificidade próxima de 100% em estudos com grupos de pacientes. No entanto, a sensibilidade, que mede a capacidade do exame de identificar corretamente os doentes, pode variar, o que implica que alguns casos podem não ser detectados.

Por que pode haver subnotificação no Brasil?

A própria raridade da doença impõe uma barreira inicial: é necessário que a doença seja lembrada para que a investigação seja iniciada. Um neurologista pode atender inúmeros pacientes com queixas de memória, mas encontrar poucos casos de DCJ ao longo de sua carreira.

Adicionalmente, os exames necessários frequentemente demandam centros de maior infraestrutura. Balthazar ressalta que a doença é inerentemente rara e, muitas vezes, difícil de ser suspeitada.

Jerusa também destaca a disparidade entre a ocorrência estimada internacionalmente e o volume de diagnósticos registrados no país, indicando que há prováveis casos não identificados. Os próprios registros oficiais brasileiros demonstram falhas; no levantamento de 2005 a 2021, mais de um terço das notificações carecia de classificação final. Ademais, o boletim do Ministério da Saúde registrou ausência de informações sobre a evolução clínica em mais da metade das notificações analisadas, limitando a conclusão sobre quantos casos são perdidos no diagnóstico no Brasil, mas evidenciando as restrições na vigilância da doença.

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