Estudo indica que camas em abrigos não são uma solução de longo prazo para o problema do sem-abrigo
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Estudo indica que camas em abrigos não são uma solução de longo prazo para o problema do sem-abrigo

Malixole Sikhungo, um pesquisador independente de Cidade do Cabo, cuja obra se baseia tanto na experiência pessoal de viver nas ruas quanto na atividade profissional nos setores de direito não governamental e corporativo, conduz um estudo que combina análise constitucional aprofundada com a dinâmica da sobrevivência nas ruas. Seu objetivo é defender reformas sistêmicas na área de habitação.

Em antecipação às próximas eleições locais, o debate público não aborda uma questão crucial: por que os modelos de financiamento existentes sustentam inevitavelmente o ciclo do sem-abrigo? Surge a questão lógica de se os próprios prestadores de serviços estão presos na mesma armadilha do sistema que as pessoas desabrigadas.

O autor compartilha experiências relacionadas à estadia em abrigos de Cidade do Cabo, utilizando o abuso de substâncias psicoativas como mecanismo de superação das dificuldades. Graças à ausência de reabilitação formal, ele conseguiu superar esses hábitos, retornar aos estudos e obter um diploma de LL.B. com notas altas. Essa experiência, reforçada pelo trabalho em áreas jurídicas, permite-lhe analisar a crise sob uma perspectiva única.

A armadilha do sistema de financiamento

Embora os trabalhadores no local prestem ajuda vital, o sistema financeiro em que operam possui falhas fundamentais. Quando os departamentos governamentais vinculam o financiamento diretamente ao número de noites passadas em camas, o trauma humano é inadvertidamente transformado em mercadoria. A dependência excessiva desse tipo de financiamento força as organizações não governamentais a priorizar indicadores baseados em métricas, em vez do real empoderamento das pessoas.

Se um prestador de serviços elimina completamente o sem-abrigo em sua área de responsabilidade, seus indicadores operacionais caem para zero, levando à interrupção do financiamento institucional. Consequentemente, o morador sem-abrigo torna-se matéria-prima necessária para justificar o orçamento do próximo ano. Isso gera um incentivo econômico distorcido, onde a sobrevivência da instituição depende da manutenção do próprio problema. Como resultado, os prestadores de serviços tornam-se tão dependentes do sistema quanto os próprios moradores de rua.

Estrutura de poder distorcida

Muitas vezes observa-se que os prestadores de serviços ocupam uma posição intermediária entre doadores e residentes. Formalmente, eles são responsáveis perante ambos os lados, mas na prática, essa situação priva os moradores de rua da capacidade de negociar. O poder segue a ajuda: os doadores têm influência absoluta sobre as organizações não governamentais, e estas, por sua vez, têm domínio ilimitado sobre os desabrigados. O autor compara este esquema com a escala de pH científica: os prestadores de serviços estão em uma posição neutra (7), enquanto os doadores e os residentes estão nos polos opostos. O doador e o residente nunca sentam à mesma mesa.

A comunidade sem-abrigada não possui poder de negociação. A responsabilização é direcionada exclusivamente para cima, para os livros contábeis do conselho de administração, enquanto as pessoas nas ruas permanecem como receptores passivos de ajuda.

Direitos versus mercadorias

Essa abordagem, que vê a habitação como uma mercadoria, viola a base socioeconômica da África do Sul. A Constituição garante o direito a uma habitação adequada de acordo com a Seção 26(1), e a Seção 26(2) obriga o Estado a tomar medidas razoáveis para sua implementação gradual. O Tribunal Constitucional deixou claro que essa obrigação não pode ser cumprida por meio de gestão terceirizada de curto prazo. No caso Government of the Republic of South Africa v Grootboom, o tribunal decidiu que o programa habitacional deve atender aos necessitados em situação desesperadora.

Além disso, como estabelecido no caso City of Johannesburg v Blue Moonlight Properties, o Estado não pode invocar restrições orçamentárias ou a terceirização de obrigações constitucionais primárias para evitar seu dever. A transferência de moradia de emergência para um mercado gerenciado por métricas efetivamente isenta o Estado dessas obrigações. Essa abordagem trata as camas temporárias como substitutas para a moradia permanente, transformando um direito constitucional em um item de custo competitivo.

O prefeito de Cidade do Cabo, Geordin Hill-Lewis, recentemente fez mais uma promessa bombástica durante a campanha, prometendo aumentar a emissão de terras urbanas para habitação social em caso de reeleição. Isso é louvável. No entanto, permanece sem solução a questão crítica: quando as autoridades perceberão que os atuais modelos de subsídios, que sustentam 'espaços seguros' multimilionários, juntamente com os sistemas de financiamento de abrigos inicialmente errôneos, sustentam inadvertidamente um ciclo vicioso de sem-abrigo?

Responsabilidade no passeio

Para romper esse círculo vicioso, a responsabilidade deve ser direcionada para baixo, até a calçada. À medida que se aproxima o Dia Mundial de Combate ao Sem-Abrigo, em 10 de outubro, a África do Sul deve ir além da conscientização simbólica e realizar uma reorganização completa do sistema. Em nome das comunidades sem-abrigo, o autor apela ao Presidente Cyril Ramaphosa e à liderança municipal exigindo a implementação imediata de três mudanças estruturais:

  1. Financiamento baseado em resultados: É necessário abolir o sistema de 'por cama, por noite'. Os fundos devem ser redistribuídos para incentivar a saída de longo prazo do estado de sem-abrigo, monitorando a colocação em moradia permanente e a sustentabilidade da renda independente por vários anos.
  2. Representação democrática obrigatória: Deve ser exigido dos prestadores de serviços apoiados que reservem pelo menos 20% dos assentos no conselho de administração para residentes que atualmente ou anteriormente foram sem-abrigo, com direito a voto. Nenhuma estratégia deve ser desenvolvida sem levar em conta a opinião deles.
  3. Estratégia nacional conjunta contra o sem-abrigo: É necessário introduzir uma estratégia interdepartamental imediata e obrigatória entre os Departamentos de Desenvolvimento Social e Assentamentos. Esta estrutura deve unificar orçamentos, deslocando as prioridades fiscais da gestão de abrigos temporários para os caminhos para a obtenção de moradia permanente, promovendo, em particular, modelos comunitários escaláveis e controlados, como trusts de terra comunitária (CLT) e subsídios de microaluguel.

A verdadeira segurança começa com a chave da porta de entrada, e não com um colchão terceirizado. A verdadeira responsabilidade deve ser medida não pelo número de camas ocupadas hoje, mas pelo número de pessoas que conseguiram deixar permanentemente a calçada. Somente essa mudança estrutural pode dissolver o beco sem saída do sem-abrigo. É hora de agir com determinação e desmercantilizar o sem-abrigo para sempre.

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