Psicólogo alerta que o uso da Inteligência Artificial impõe um custo cognitivo futuro
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Psicólogo alerta que o uso da Inteligência Artificial impõe um custo cognitivo futuro

A inteligência artificial (IA) sofreu transformações significativas desde o lançamento do ChatGPT no final de 2022, tornando-se uma ferramenta que otimiza diversas atividades, tanto na esfera pessoal quanto profissional. Embora o uso dessa tecnologia possa parecer inofensivo, Cristiano Nabuco, psicólogo e reitor da Artmed School of Psychology (APSY), alertou que existe um «pedágio» futuro a ser pago.

Este aviso do especialista não se refere a questões financeiras, mas sim a aspectos cognitivos, ou seja, à forma como os indivíduos processam pensamentos ao realizar tarefas. Nabuco detalhou que houve uma mudança na relação com a tecnologia: antes de 2022, as plataformas visavam manter o usuário engajado através de estímulos como curtidas e flashes, apresentando conteúdo cada vez mais personalizado.

Com a IA, essa dinâmica avançou, pois ela interage com o usuário de maneira que simula uma pessoa, um fenômeno chamado antropomorfização. Os usuários passaram a reagir à máquina como se fosse um indivíduo ou um profissional. Por exemplo, o Google começou a ser substituído porque os usuários passaram a desejar informações mais elaboradas e dialogadas.

Inicialmente, a IA funcionou como um mero buscador, mas evoluiu para um tutor, permitindo que os usuários não apenas buscassem dados, mas também fizessem perguntas como «Como eu faço?» ou «Por onde eu sigo?». Essa tutoria levou as pessoas a abordarem temas pessoais, como dificuldades com chefes ou necessidade de conversar com alguém. Assim, a IA deixou de ser apenas um buscador ou tutor, transformando-se em um coach e, posteriormente, em um psicólogo.

Essa evolução culminou em um estágio ainda mais profundo, onde a IA passou a introduzir nuances de um relacionamento afetivo, quase amoroso. Existem relatos de pessoas que se envolvem afetivamente dependendo da IA para tomar decisões. O que antes era uma preocupação menor tornou-se hoje algo muito mais impactante.

Nabuco questionou se a IA está tornando as pessoas preguiçosas ou menos inteligentes, levantando a hipótese de perda da fricção cognitiva e intelectual. Ele explicou que o cérebro responde às demandas apresentadas. Comparando com o passado, quando não havia calculadoras, o aprendizado matemático exigia esforço manual. Atualmente, embora a máquina exista, o nível de complexidade que a IA oferece transcende o que foi visto anteriormente.

A IA pode funcionar como um portal pessoal que realiza cálculos complexos, como o fluxo de água em projetos de engenharia hidráulica, ou discute o mérito de viagens. Isso permite ao usuário ter uma visão panorâmica, como se estivesse observando uma obra de arte de longe. Contudo, ele ressaltou que muitos não realizam mais tarefas como escrever ou fazer apresentações, delegando o processo.

Ele propôs que a sociedade atual possui uma geração com um pé na vida analógica e outro na digital. Essas novas gerações podem não desenvolver habilidades cruciais, pois terceirizam o aprendizado para a IA. Embora seja possível usar a IA para analisar textos científicos, o risco reside em quem pula a etapa de aprender a fazer as contas ou a realizar o trabalho manualmente.

Embora não haja comprovação científica definitiva, pesquisas indicam que habilidades importantes estão sendo perdidas por falta de prática, o que representa um custo futuro. Ter todas as facilidades prontas pode gerar problemas, especialmente quando o indivíduo nunca aprendeu a habilidade e simplesmente a delega à IA, formando adultos sem capacitação em diversos âmbitos.

O uso saudável da IA deve ser como um suporte. Por exemplo, ao escrever um texto, o usuário monta suas ideias e só depois usa a IA para corrigir erros ou refinar conceitos, pois a escrita excessiva pode aprisionar a interpretação do autor. A IA pode apontar correções que um revisor faria em segundos, diminuindo distâncias.

Sobre se a IA é intrinsecamente má, Nabuco afirmou que isso depende do modo de utilização, comparando-a ao consumo de chocolate: prazeroso, mas prejudicial em excesso. Ele defendeu que a população precisa ser educada em literacia digital, entendendo como e quando usar a ferramenta e quais seus potenciais malefícios.

As empresas estão reagindo tardiamente, pois ninguém previu que a IA ocuparia um espaço emocional tão relevante. Como a IA não gera fricção — ou seja, não discorda ou traz opiniões distintas —, ela cria uma barreira que dificulta ao usuário perceber a realidade como ela é. Apesar disso, ele considera a IA uma ferramenta de auxílio incomparável e essencial.

No entanto, o uso pode ser perigoso para pessoas com problemas psicológicos ou doenças mentais, pois pode atrofiar o desenvolvimento humano. É vital entender a vida como um exercício constante de improviso. Em vez de pedir à IA uma resposta pronta, o indivíduo deve forçar-se a pensar e extrair vivências próprias. As circunstâncias desafiadoras são o que nos aprimora. Portanto, a IA deve ser usada com ressalvas. Nabuco concluiu que sua geração está servindo como um teste para grandes corporações, o que é injusto, dado o estado de vulnerabilidade da sociedade atual.

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