A SpaceX registrou um marco significativo ao realizar o 14º voo de teste da Starship nesta segunda-feira (28). O imponente foguete decolou pontualmente às 9h48, horário de Brasília, e concluiu com êxito sua primeira missão orbital.
Este evento constituiu o terceiro voo de 2026 e também o terceiro da versão 3 do veículo. Ele deu sequência ao sucesso do 13º teste, ocorrido em julho, que foi notável pelo pouso mais suave de um estágio superior da nave até então. Naquele teste anterior, o veículo aterrissou no mar e permaneceu flutuando por várias semanas até ser recolhido pela companhia para inspeções técnicas.
Inicialmente, a previsão era que o voo 14 durasse aproximadamente 9 horas e 50 minutos. Contudo, durante a transmissão ao vivo, a SpaceX comunicou uma alteração no planejamento, diminuindo a duração prevista para três horas. A empresa justificou essa mudança em um comunicado, explicando que os testes precedentes haviam mantido trajetórias suborbitais visando assegurar a segurança pública enquanto a equipe absorvia os dados sobre o desempenho do foguete.
Com cerca de 124 metros de altura, a Starship enfrentou seu maior desafio neste voo: atingir a órbita terrestre. Este feito é considerado vital, visto que a NASA depende desta espaçonave para transportar astronautas do programa Artemis até a superfície lunar.
Aos 2 minutos e 34 segundos de voo, a Starship executou com sucesso a separação entre os estágios Super Heavy e Ship 41. Posteriormente, o propulsor completou a queima de pouso acima do ponto designado no Golfo do México, enquanto a Starship prosseguia com sua queima para alcançar o espaço. Neste teste específico, a SpaceX não tinha a intenção de capturar as estruturas utilizando os braços da torre.
O propulsor Super Heavy, que recebeu melhorias nos motores para prevenir falhas anteriores, pousou suavemente no Golfo do México cerca de sete minutos após a decolagem, permitindo que o estágio superior seguisse em direção à órbita. A espaçonave experimentou o desligamento prematuro de um dos motores Raptor 3, mas conseguiu compensar essa perda e concluir a queima conforme o planejado.
Às 10h11, foi confirmada a continuidade da espaçonave para a órbita. A queima de inserção orbital da Ship 41 foi finalizada com sucesso após 25 minutos e 17 segundos de voo, uma decisão tomada pela SpaceX após análise da ascensão. O acionamento de um único Raptor 3 ajustou a trajetória da nave para uma órbita circular a uma altitude de 275 km.
Em 35 minutos de voo, a SpaceX começou a liberar 26 satélites Starlink V3 que estavam a bordo da Starship. Este lote representa o primeiro conjunto operacional desta nova versão, contrastando com a missão anterior, que utilizou apenas protótipos em trajetória suborbital. O objetivo final da SpaceX é posicionar cem mil dessas unidades em órbita para expandir a rede de internet sem fio.
A liberação de todos os satélites da Ship 41 demorou aproximadamente 30 minutos. Após serem liberados, os satélites abriram seus painéis solares para navegar autonomamente até a altitude operacional. Três desses satélites foram equipados com câmeras especializadas para inspecionar e avaliar as placas do escudo térmico da Starship imediatamente após a separação do veículo principal.
De acordo com a empresa, cada novo satélite acrescenta 1 Tbps de capacidade à rede, totalizando 26 Tbps adicionais apenas nesta missão. Esse volume é cerca de dez vezes maior que a capacidade fornecida por um lançamento de minissatélites Starlink V2 realizado por um foguete Falcon 9, ampliando consideravelmente a velocidade e a abrangência das conexões oferecidas pelo sistema orbital da companhia.
Ao analisar o significado deste marco técnico, Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (Bramon) e colunista do Olhar Digital, enfatizou durante a transmissão ao vivo que a elevada capacidade da Starship torna a implementação comercial mais factível do que projetos distantes, como centros de dados espaciais.
Zurita esclareceu: «O principal é o estabelecimento da Starship como uma nave funcional para colocar satélites em órbita, que seria o primeiro passo de um uso comercial da Starship – por enquanto, é só gastar dinheiro». Ele acrescentou: «Então, o primeiro uso comercial é esse que eles fizeram hoje. Embora seja para um cliente interno, a própria Starlink, mas já é um uso comercial dessa espaçonave.»
O especialista salientou que a versão destinada à Lua requer cuidados extras com suporte à vida para atender ao programa Artemis da NASA, enquanto as viagens tripuladas a Marte encontram obstáculos relacionados à limitação de gravidade artificial, adiando esses planos para após 2040. Adicionalmente, a real redução de custos depende dos futuros testes de recuperação completa dos estágios.
Zurita afirmou: «A partir de agora, eles estariam teoricamente aptos a atender outros clientes, mas seguem os testes, porque o custo de lançamento só vai ser reduzido na hora que eles conseguirem fazer tudo o que eles fizeram hoje e recuperar, reutilizar tanto a Starship quanto o Super Heavy». Ele projetou: «Então, isso deve começar a acontecer já nos próximos voos de teste e a partir daí a gente teria uma nave comercialmente pronta para operar, para poder fazer lançamentos regulares com um menor custo.»
O astrônomo concluiu que «A grande revolução da Starship é essa. O conjunto todo, com o Super Heavy e a Starship formando esse foguete gigantesco de 124 metros de altura, vai ter o sistema de lançamento mais em conta já existente. Com essa redução de custos, eles devem conseguir uma boa clientela no mercado. A partir daí, vêm as adaptações para a Starship lunar e o abastecimento no espaço, que é outro teste fundamental para as missões rumo ao espaço profundo, tanto para a Lua quanto para Marte, se esse for realmente o objetivo dos próximos anos.»
Ao término da missão, a espaçonave retornou à atmosfera ao meio-dia, culminando em um *splashdown* no Oceano Pacífico, pouco antes das 13h.
