Um estudo recente divulgado na revista Philosophical Transactions of the Royal Society A indica que o Sol tem potencial para gerar superexplosões, eventos de altíssima energia que excederiam as maiores erupções solares já registradas no astro.
Os pesquisadores basearam essa conclusão na investigação da maior mancha solar observada desde o notório Evento Carrington, ocorrido em 1859. Esta estrutura surgiu em abril de 1947, apresentando dimensões excepcionais, cobrindo cerca de 0,6% da superfície solar e atingindo aproximadamente 40 vezes o diâmetro da Terra.
Explicação sobre explosões solares
Em conversa com o Olhar Digital, a física Adriana Valio, professora titular da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisadora do Centro de Rádio Astronomia e Astrofísica Mackenzie (CRAAM), esclareceu que uma explosão solar, ou flare, consiste na súbita liberação de vasta energia armazenada nos campos magnéticos solares. Ela detalhou que essa energia é liberada primariamente através do processo de reconexão magnética, que acontece quando as linhas do campo magnético se reconfiguram, transformando energia magnética em radiação, aquecimento do plasma e aceleração de partículas.
Essas explosões ocorrem majoritariamente em áreas ativas, ligadas às manchas solares, onde os campos magnéticos são complexos e intensos. A energia liberada pode gerar radiação em praticamente todo o espectro eletromagnético, abrangendo desde ondas de rádio até raios X e raios gama.
Embora a força exata do Evento Carrington, a maior tempestade solar documentada, seja indeterminável devido à ausência de equipamentos modernos na época, estimativas apontam para uma intensidade equivalente a X45. Para fins de comparação, a erupção mais forte vista no Ciclo 25, o ciclo solar atual, foi de nível X9 em 3 de outubro de 2024.
Definição e magnitude de uma superexplosão
Uma superexplosão é definida como um fenômeno com energia consideravelmente superior às explosões habituais da estrela. Adriana Valio ressaltou que, em geral, considera-se superexplosão qualquer evento cuja energia total emitida ultrapasse cerca de $10^{34}$ ergs. Este valor representa uma energia de dezenas de vezes maior do que as explosões solares mais potentes registradas até hoje.
Este patamar energético equivale a dez a cem vezes a força de uma explosão potente comum, superando em mais de 200 vezes a energia associada ao impacto do asteroide Chicxulub, responsável pela extinção dos dinossauros.
A possibilidade de o Sol gerar um evento dessa magnitude já era tema de debate científico. Em 2024, um modelo simplificado sugeriu que a estrela necessitaria de aproximadamente oito anos para concentrar energia suficiente para uma superexplosão em uma área restrita. Pesquisas subsequentes também indicaram que estrelas similares ao Sol podem sofrer tais eventos em intervalos de cerca de um século.
A nova análise, conduzida pela equipe do Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar, na Alemanha, calculou a energia que poderia ter sido acumulada na grande mancha solar de 1947. Os resultados mostraram que uma erupção típica nessa região liberaria cerca de $2,32 imes 10^{33}$ ergs (o que equivale a mais de um bilhão de anos de consumo de eletricidade da cidade de São Paulo). Em cenários mais extremos, a energia armazenada poderia exceder $1,25 imes 10^{34}$ ergs, atingindo o limite teórico de uma superexplosão.
Contudo, Adriana Valio alertou que o tamanho de uma mancha solar não garante um evento colossal. É crucial avaliar a complexidade e a configuração dos campos magnéticos, além da quantidade de energia magnética armazenada, para determinar como e quando essa energia será liberada.
A especialista destacou que o progresso tecnológico moderno permitiu um monitoramento contínuo da estrela por meio de satélites e telescópios terrestres, possibilitando a identificação de regiões ativas que acumulam grandes quantidades de energia.
Apesar disso, a previsão precisa continua sendo um grande desafio científico. Os instrumentos atuais permitem identificar potenciais para eventos extremos e acompanhar sua evolução, mas ainda não é possível prever com exatidão quando ocorrerá uma explosão dessa escala e qual será sua energia.
O trabalho do Instituto Max Planck não implica que a mancha de 1947 tenha gerado uma superexplosão; os registros indicam que nenhuma grande erupção foi direcionada à Terra naquela região. O estudo apenas demonstra que o Sol possui as condições físicas para criar eventos de magnitude extrema.
Consequências potenciais para a Terra
Caso uma superexplosão solar desse porte ocorra e seja dirigida à Terra, as repercussões seriam profundas, especialmente se vier acompanhada de uma grande ejeção de massa coronal. Adriana Valio fez uma distinção importante entre a radiação eletromagnética emitida durante a explosão e a ejeção de massa coronal, que envolve a expulsão de plasma e campos magnéticos para o espaço, alertando que esses fenômenos não precisam ocorrer simultaneamente.
A radiação eletromagnética viajará à velocidade da luz e chegará à Terra em cerca de oito minutos. Essa radiação mais energética, particularmente nas faixas de raios X e ultravioleta extremo, causaria alterações significativas na ionosfera terrestre, afetando imediatamente as comunicações de rádio e sistemas de navegação por satélite, como o GPS, além de expor operações espaciais e astronautas a riscos radiológicos adicionais.
Os efeitos de uma eventual ejeção de massa coronal levariam mais tempo para chegar, mas poderiam ser ainda mais graves. A interação do plasma e do campo magnético com a magnetosfera terrestre desencadearia uma tempestade geomagnética de alta intensidade. Dependendo da natureza da tempestade, haveria sérias perturbações nas redes elétricas, podendo causar apagões, danos a satélites em órbita, falhas em telecomunicações globais e intensificação das auroras polares.
O Evento Carrington serve como exemplo histórico: a tempestade geomagnética da época resultou em colapsos nos sistemas telegráficos e causou auroras em latitudes tropicais. Devido à dependência moderna de tecnologias espaciais e redes elétricas interligadas, a vulnerabilidade humana a um evento extremo é muito superior à do século XIX.
Apesar dos riscos, a especialista aconselha contra o pânico, pois não se pode afirmar que uma superexplosão levará inevitavelmente a uma catástrofe global. A gravidade dos impactos dependeria da ejeção de massa coronal, sua velocidade, direção exata e, sobretudo, da orientação do campo magnético transportado.
Adriana Valio também esclareceu que a vasta quantidade de energia citada refere-se à energia total que o fenômeno poderia liberar, e não à energia que atingiria diretamente o planeta, visto que a Terra interceptaria apenas uma pequena parcela da radiação solar.
A atmosfera e o campo magnético terrestre funcionam como escudos naturais eficientes contra a maior parte da radiação e partículas solares. Assim, os perigos primários não seriam a exposição direta humana à radiação, mas sim os danos secundários causados à infraestrutura tecnológica e aos serviços essenciais.
Esta descoberta auxilia os cientistas a delimitar a atividade solar e os riscos que ela impõe ao planeta, levantando a questão sobre a frequência dessas superexplosões e se alguma já atingiu a Terra sem registro tecnológico.
