O Rio Ganges, que atravessa a Índia e o Bangladesh, é frequentemente percebido por observadores ocidentais como um dos rios mais contaminados do planeta. De fato, diariamente são despejados no rio quase cinco bilhões de litros de esgoto, grande parte sem tratamento, juntamente com efluentes industriais e resíduos provenientes de cremações de corpos.
Contudo, para a religião hindu, o Ganges transcende a definição de mero curso d'água. Segundo o hinduísmo, uma das mais antigas crenças mundiais, o Ganges é personificado como a divindade Ma Ganga, a «Mãe Ganges». Ela teria descido à Terra utilizando os cabelos do deus Shiva com o propósito de purificar as almas ancestrais de Bhagiratha, um sábio e rei hindu. Dessa forma, Ma Ganga formou o Rio Ganges, que detém características singulares de cura e purificação.
Tomar banho nas águas do Ganges simboliza o abandono de energias negativas e impurezas. Igualmente auspicioso é falecer neste rio, pois isso representa o alcance da moksha, ou seja, a libertação espiritual. Por essa razão, os seguidores do hinduísmo realizam tais rituais há séculos, atraindo devotos de todo o mundo para terem contato com a água, que inclusive é consumida por alguns indivíduos.
Embora toda a extensão do Rio Ganges seja considerada sagrada, existe um local de particular destaque: a cidade de Varanasi, situada na Índia, na margem esquerda do rio, sendo reconhecida como a mais sagrada dentro do hinduísmo. Conhecida também como Benares ou Kashi, esta cidade possui uma rica trajetória religiosa, baseada na crença hinduísta de que foi criada pelo deus Shiva. Varanasi é uma das cidades mais antigas do mundo ainda habitadas e serviu como centro comercial e capital em algum momento de sua história.
Moradores e peregrinos utilizam o rio para uma vasta gama de atividades, incluindo higiene pessoal, lavagem de roupas, práticas religiosas e fins econômicos, contando com embarcações para passeios. No entanto, essas atividades são organizadas e segregadas através de dezenas de ghats, que são degraus que proporcionam acesso ao rio, e cada um desses locais possui uma função específica.
O ghat de Manikarnika é notório por ser o local destinado às cremações. Este local realiza a queima de corpos continuamente, 24 horas por dia, sete dias por semana, há várias décadas, processando mais de cem corpos diariamente somente naquele ponto. O desafio surge com o crescimento populacional na Índia, fazendo com que as práticas realizadas no Ganges excedam a capacidade física do rio. Além dos mais de um milhão de residentes de Varanasi, milhões de visitantes chegam ao local anualmente; em 2025, foram registrados mais de 72 milhões de turistas. Consequentemente, cerca de 32 mil corpos são depositados no rio anualmente, seja sob a forma de cinzas ou de corpos envoltos.
Devido à sua extrema importância, o segmento do Ganges em Varanasi figura entre os mais poluídos, apresentando uma concentração bacteriana 150 vezes superior àquela considerada segura para banho. A problemática ambiental gera um debate constante entre os fiéis e parte da população indiana. Enquanto alguns defendem projetos de saneamento para o Rio Ganges, cumprindo promessas políticas de longa data, outros indivíduos optaram por suspender suas práticas religiosas no rio devido aos riscos sanitários da água. Em contrapartida, certos hindus resistem à ideia de limpeza, mantendo a convicção no poder curativo inerente à água.
