Pesquisas mostram que Alzheimer deixa de ser vista apenas como doença incurável devido a avanços em medicamentos e diagnóstico precoce
Leia mais
Olhar Digital
olhardigital.com.br

Pesquisas mostram que Alzheimer deixa de ser vista apenas como doença incurável devido a avanços em medicamentos e diagnóstico precoce

A investigação sobre demência está passando por um ponto de inflexão, conforme aponta o World Alzheimer Report 2026, divulgado pela Alzheimer’s Disease International (ADI). Este relatório detalha uma nova fase nos estudos clínicos referentes à doença de Alzheimer e outras formas de demência.

De acordo com o documento, a doença de Alzheimer não deve mais ser considerada universalmente intratável. Nos últimos cinco anos, novos fármacos demonstraram capacidade de retardar ligeiramente a progressão da enfermidade em fases iniciais. Além disso, evidências crescentes sugerem que certos quadros de demência podem ser adiados ou até mesmo evitados através da diminuição de fatores de risco.

O panorama científico também é caracterizado pelo aumento da atividade. Atualmente, centenas de ensaios clínicos globais estão em andamento, buscando novos medicamentos, métodos diagnósticos e intervenções ligadas ao estilo de vida, visando identificar, tratar ou frear o declínio cognitivo.

Comparação com a Oncologia

A ADI estabelece um paralelo entre o estado atual da pesquisa em demência e o que ocorreu na oncologia durante a década de 1990. Naquela época, embora os primeiros tratamentos contra o câncer fossem incompletos, eles pavimentaram o caminho para a medicina de precisão, combinações de medicamentos e intervenções mais antecipadas.

Contudo, o relatório enfatiza que ainda não há uma descoberta para o Alzheimer que seja comparável à penicilina ou às estatinas. A transformação está ocorrendo de forma mais gradual, migrando do foco na cura imediata para estratégias de prevenção, manejo e mitigação de riscos.

O número de substâncias candidatas em investigação para demência cresceu aproximadamente 40% na última década. Atualmente, pesquisadores estão avaliando 158 terapias potenciais em 192 ensaios clínicos espalhados pelo mundo. Estão previstos resultados de oito ensaios de fase 3 somente em 2026, fase que testa tratamentos em grande volume de participantes e os compara com os cuidados padrão.

É relevante notar que mais de um terço dos medicamentos contra a demência em desenvolvimento foram inicialmente criados para tratar outras patologias. O progresso científico não se limita aos medicamentos; o relatório salienta que a redução de fatores de risco desempenha um papel crucial na prevenção ou no adiamento dos casos de demência.

Com base nas evidências apresentadas, estima-se que até 45% dos casos poderiam ser prevenidos ou postergados ao adotar uma abordagem que modifique 14 fatores de risco ao longo da vida. Entre esses fatores estão hipertensão, depressão, sedentarismo, tabagismo, diabetes, consumo exagerado de álcool e níveis elevados de colesterol.

O potencial impacto dessa estratégia adquire grande relevância frente ao envelhecimento da população mundial. Estimativas citadas pelo ScienceAlert projetam que 139 milhões de pessoas viverão com demência em 2050. Mesmo pequenos atrasos no início do declínio cognitivo poderiam resultar em milhões de casos a menos.

Desafios no Acesso e Diagnóstico

Apesar dos avanços notáveis, o acesso aos novos tratamentos permanece um obstáculo significativo. Um dos principais desafios destacados pelo relatório é a dificuldade em identificar os pacientes em estágios iniciais da doença, momento em que certas terapias emergentes podem ser aplicadas.

A neurorradiologista Emer MacSweeney observa que muitas pessoas que provavelmente já estão nas fases iniciais do Alzheimer acabam sem serem detectadas. Ela alerta: «O maior erro que está acontecendo no momento é que pessoas que claramente, obviamente, provavelmente estão nos estágios iniciais do Alzheimer estão sendo ignoradas e completamente deixadas de lado… porque essa janela de oportunidade para o tratamento é realmente pequena.»

Segundo MacSweeney, os pacientes frequentemente não recebem informações adequadas sobre ensaios clínicos ou sobre como obter acesso aos novos medicamentos. Ela defende: «Precisamos de uma mudança de mentalidade na profissão médica para garantir que mais pessoas sejam informadas sobre os ensaios clínicos e recebam apoio para participar deles. Precisamos de ação, não de retórica.»

O diagnóstico constitui outro grande entrave. No Reino Unido, por exemplo, apenas cerca de 2% dos indivíduos diagnosticados com Alzheimer têm acesso ao teste diagnóstico considerado padrão-ouro, conforme um estudo conduzido por Jonathan Schott, diretor médico da Alzheimer’s Research UK.

Testes sanguíneos capazes de detectar biomarcadores ligados à demência surgem como uma solução promissora. Embora essas ferramentas tenham mostrado resultados positivos em estudos preliminares, elas ainda necessitam de avaliação em escala populacional para confirmar sua capacidade de identificar com exatidão pessoas com sinais iniciais de declínio cognitivo.

O relatório conclui que «o futuro do tratamento da demência pode depender tanto dos médicos de família em Havana, Lima ou Bangalore quanto de laboratórios bilionários na Califórnia». O World Alzheimer Report 2026, intitulado «A New Era in Dementia Clinical Trials», analisa este novo momento da pesquisa, abrangendo desde o recrutamento e a retenção de voluntários até questões éticas, de segurança, regulamentação, representatividade global e inclusão nos estudos.

Historicamente, entre 2000 e 2020, mais de 99% dos medicamentos experimentais para demência falharam nos ensaios clínicos. O cenário atual, contudo, sinaliza uma alteração importante nesse histórico. Embora a cura permaneça distante, o relatório considera que ela parece mais plausível do que em qualquer outro período. O desafio para a próxima década será transformar a participação em pesquisas sobre demência de um ato dependente de sorte ou persistência em uma possibilidade real para qualquer interessado.

Popular