Google exibiu anúncios falsos de programas governamentais, apesar do selo de verificação
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Google exibiu anúncios falsos de programas governamentais, apesar do selo de verificação

Anúncios fraudulentos, que simulavam programas do governo brasileiro, foram exibidos por meio da plataforma Google, mesmo após passarem pelo processo de verificação da empresa. Um exemplo dessas peças incluía a mensagem: «Parabéns! Seu CPF foi aprovado para o Desenrola 2026», acompanhada de uma imagem de uma mulher sorridente e do símbolo «gov.br», remetendo à identidade visual da administração federal, embora não fossem emitidos por ela.

Esses golpes foram detectados por pesquisadores do NetLab, laboratório ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), durante o período de 12 a 25 de agosto. Os fraudadores exploravam políticas públicas conhecidas, como Desenrola Brasil, Sistema Valores a Receber (SVR) e CNH Brasil, com o objetivo de desviar cidadãos para websites falsos.

Análise e Violações

Os achados foram detalhados em uma nota técnica do NetLab. Os pesquisadores esclareceram que não encontraram infrações às leis eleitorais relativas à propaganda político-partidária. Contudo, eles apontaram que os anúncios violam as diretrizes internas do Google, e o fato de os anunciantes terem obtido a verificação da plataforma configura um problema de governança na infraestrutura publicitária.

Para o NetLab, a situação demonstra que o Google utiliza sua infraestrutura de publicidade para beneficiar anunciantes que tentam se passar pelo Estado brasileiro com o intuito de ludibriar os usuários. Os pesquisadores localizaram essas peças ao examinar a Central de Transparência de Anúncios do Google.

Entre os elementos encontrados, nenhum dos 35 endereços apresentados terminava em «gov.br». No entanto, seis deles imitavam o design de canais oficiais do governo, um método conhecido em cibersegurança como phishing. As campanhas também replicavam símbolos e marcas federais, como Gov.br, Canal Gov, Caixa Econômica Federal e o Brasão de Armas do país.

As mensagens utilizadas eram apelativas, visando atrair indivíduos interessados em programas públicos ou em solucionar questões financeiras. Exemplos incluem: «Seu nome está na lista para desenrolar. Você foi selecionado para desenrolar!», «Valor Disponível em Seu Nome? Veja Agora» e «Inscrição habilitação grátis – Programa CNH gratuita».

Os pesquisadores observaram que a seleção dos programas alvo reflete o acompanhamento feito pelos golpistas sobre as notícias oficiais. O Desenrola Brasil, por exemplo, foi o foco mais frequente; o programa, lançado em maio para ajudar pessoas endividadas a quitar débitos, permaneceu nas propagandas falsas até agosto, data em que foi encerrado pelo governo federal.

Funcionamento da Verificação e Transparência

Um ponto crucial destacado pelo NetLab é que todos os anunciantes identificados possuíam verificação concedida pelo Google. Essa certificação é apresentada pela empresa como prova da identidade e legitimidade do anunciante. Após a verificação de identidade e a confirmação da transação comercial, o nome e a localização do pagador são registrados na Central de Transparência.

Esta Central agrega anúncios veiculados em serviços como Pesquisa Google, YouTube, Gmail e na Rede de Display, que engloba sites e aplicativos de terceiros que usam a infraestrutura programática da companhia. Na prática, um anúncio falso pode surgir em uma busca e reaparecer minutos depois em um jogo móvel ou em um portal de receitas.

Na própria Pesquisa Google, um usuário que digita termos como «desenrola» ou «dívida esquecida» pode ser exposto a um conteúdo fraudulento. Os pesquisadores também ressaltaram que a colocação desses anúncios e a dificuldade de alguns usuários em diferenciar publicidade de resultados orgânicos aumentam o risco de impacto das campanhas.

Implicações Financeiras e Falta de Transparência

Para o NetLab, os dados sugerem que o Google obtém lucro com anúncios fraudulentos ligados a políticas públicas voltadas a grupos populacionais vulneráveis. O Desenrola, por exemplo, é destinado a pessoas com pendências financeiras. A publicidade segmentada constitui um pilar do modelo de negócios do Google; segundo o material, a empresa gerou R$ 1,51 trilhão apenas com publicidade em 2025, o que corresponde a mais de 73% de toda a receita arrecadada nesse período. Os critérios usados para segmentar o público dos anúncios, contudo, não estão acessíveis.

Salles comentou que, ao analisar como o Google promove seus serviços de publicidade, a promessa é alcançar o público ideal, que frequentemente é vulnerável. Ele explicou que parte da lógica da publicidade microssegmentada consiste em encontrar o usuário com maior probabilidade de clicar, comprar ou consumir o conteúdo.

Outro problema apontado pelos pesquisadores é a carência de transparência no próprio sistema de consulta de anúncios. A Central de Transparência não permite buscas por palavras-chave, o que significa que campanhas fraudulentas só podem ser descobertas se o pesquisador já souber o nome do anunciante ou do site promovido. Além disso, a ferramenta não fornece dados como o montante investido, o número de pessoas afetadas ou a opção de download dos dados.

O estudo também constatou que 25 dos 50 anúncios falsos relacionados ao Desenrola sumiram durante o período de coleta de dados. Não há registro se esses anúncios foram moderados pelo Google, removidos por outros motivos ou simplesmente expiraram. Para o NetLab, essa ausência de registros fortalece a hipótese de que o problema é mais extenso do que o apurado na pesquisa.

Sem um histórico dos anúncios ativos, excluídos ou desaparecidos, torna-se impossível identificar falsificações que possam ter enganado usuários enquanto estavam em exibição. Embora os pesquisadores não descartem que parte dos anúncios possa ter desaparecido devido a ações do próprio Google contra fraudes, o cenário permanece incerto.

Contexto Regulatório

Em 2024, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) implementou novas exigências de transparência para a publicidade político-eleitoral na internet. Em resposta, o Google decidiu proibir esse tipo de anúncio em sua plataforma, dispensando-o de cumprir normas como a criação de um repositório específico com detalhes sobre investimento, impressões, segmentação e período de veiculação.

Mesmo assim, o NetLab identificou anúncios de candidatos veiculados pelo Google após essa proibição no ano de 2024. Em 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) alterou a interpretação mais flexível do artigo 19 do Marco Civil da Internet, estabelecendo uma presunção relativa de culpa dos provedores em casos de conteúdo ilícito veiculado via anúncios ou impulsionamento.

Em sua posição, o Google declarou possuir políticas definidas para regular a publicidade no Google Ads, utilizando uma combinação de inteligência artificial e revisores humanos para monitorar os anúncios. A empresa afirmou: «Temos políticas claras que definem as regras para anunciar no Google Ads e utilizamos uma combinação de inteligência artificial, atuando de forma preventiva, e revisores humanos para monitoramento. Quando identificamos uma violação, agimos imediatamente.»

Adicionalmente, o Google informou, com base no Relatório de Segurança de Anúncios, que bloqueou ou removeu 374 milhões de anúncios no Brasil ao longo de 2025 e suspendeu 1,3 milhão de contas no mesmo período. A companhia também ofereceu uma funcionalidade para que os usuários possam reportar possíveis violações, conforme declarado: «Oferecemos uma ferramenta para que os usuários possam contribuir e também denunciem possíveis violações».

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