A expressão popular 'todos os caminhos levam a Roma', que remete às extensas estradas construídas pelos romanos para conectar as províncias à capital do Império Romano entre 27 a.C. e 476 d.C., tem sua veracidade questionada por um novo estudo.
Pesquisadores publicaram descobertas na revista científica Nature, analisando a rede viária do Império Romano. Eles concluíram que o ditado é, na verdade, um mito, pois tecnicamente, ele se aplicaria a diversas outras cidades romanas.
Cidades como Antioquia, Ancora e Bizâncio, localizadas na região da atual Turquia, assim como Corinto, na Grécia, eram consideradas mais vantajosas para quem viajava por terra do que Roma. De acordo com o artigo, as principais rotas terrestres do império nem sempre passavam pela Cidade Eterna.
Corinto, por exemplo, possuía maior integração à rede viária devido às suas estradas que ligavam a Península do Peloponeso ao resto da Grécia. Ancora também era uma alternativa superior por ser um ponto crucial de transporte na Anatólia, que servia de ligação entre a Ásia e a Europa.
O caso de Roma apresentava características singulares. Os autores da pesquisa utilizaram uma analogia anatômica para descrever a situação da capital: a Península Itálica funcionava como um 'apêndice' da malha viária imperial, e Roma estava posicionada no meio desse apêndice, distante do fluxo principal das estradas, ficando nas margens das rotas mais centrais.
Apesar disso, a importância da cidade não foi diminuída. Durante grande parte da antiguidade, Roma manteve seu papel como centro político, econômico e cultural da civilização ocidental. No seu auge, em 117 d.C., o Império Romano abrangia quase 5,5 milhões de quilômetros quadrados ao redor do Mar Mediterrâneo, cobrindo vastas áreas da Europa, Oriente Médio e Norte da África.
O ditado popular surgiu muito tempo depois, durante a Idade Média, quando um poeta francês chamado Alain de Lille proferiu a frase: 'mille viae ducunt hominem per saecula Romam', que significa 'mil caminhos conduzem o homem para sempre a Roma'. Se considerarmos Roma em um sentido mais amplo, como um polo cultural do mundo antigo, o ditado pode ser considerado válido.
Para chegar às suas conclusões, os pesquisadores calcularam o nível de conectividade das cidades romanas com a rede viária. Utilizando o atlas digital denominado 'Itiner-e', eles mapearam aproximadamente 300.000 quilômetros de estradas romanas.
É relevante notar que o transporte terrestre não era o único modo de deslocamento no Império Romano. O estudo aponta que Roma poderia ter tido um papel mais relevante no transporte marítimo e fluvial do que no rodoviário, embora o foco da investigação não tenha sido nas vias marítimas, sugerindo que futuras pesquisas devem aprofundar essas rotas na Roma antiga.
