Donald era um bebê com características atípicas; ele não reagia a estímulos e raramente olhava para seus pais, a professora Mary e o advogado Beamon Triplett. Quando começou a falar, sua comunicação era peculiar, limitando-se a respostas monossilábicas como "sim" ou "não", ao mesmo tempo em que demonstrava grande fascínio por certas palavras, como "crisântemo", que repetia incessantemente.
Embora apresentasse dificuldades claras no desenvolvimento, Donald possuía capacidades intelectuais notáveis. Com apenas um ano, ele já conseguia cantar diversas canções, e aos dois anos, memorizou um salmo bíblico composto por 22 versículos e 354 palavras, além de responder a 25 perguntas e respostas do catecismo presbiteriano. Ele tinha hábitos alimentares irregulares, não interagia com outras crianças e exibia comportamentos repetitivos, como uma fixação em girar objetos circulares, parecendo viver em um mundo particular onde preferia a solidão.
A família buscou auxílio, e o menino permaneceu um ano internado em uma clínica. Contudo, os pais decidiram retornar Don para casa. Cinco anos depois, eles consultaram o psiquiatra infantil austríaco Leo Kanner. Ao acompanhar Don, Kanner percebeu que outras crianças apresentavam traços semelhantes. Em 1943, ele publicou um artigo científico descrevendo 11 crianças — três meninas e oito meninos —, e deu origem ao termo "autismo infantil precoce".
No referido artigo, Don foi classificado como "Caso 1", tornando-se a primeira criança a receber este diagnóstico. Até então, o termo possuía outro significado, pois a palavra, derivada do grego autós, que significa "si mesmo", foi introduzida em 1911 pelo suíço Eugen Bleuler para descrever a tendência de adultos esquizofrenos de se isolarem.
Donald concluiu o ensino fundamental e ingressou na universidade, estudando francês e matemática. Gradualmente, ele conseguiu se integrar à comunidade da pequena Forest, no Mississippi (EUA), onde viveu e trabalhou como bancário por 65 anos. Ele praticava direção e golfe diariamente e gostava de viajar, tendo visitado impressionantes 40 países. Apesar de nunca ter namorado ou casado, ele cultivou amizades, afirmando que "ele não é de papo furado" em 2022. Donald faleceu em junho de 2023, aos 89 anos, provando que o autismo não impediu uma vida longa, produtiva e feliz.
Este é o cenário esperado por famílias e indivíduos que recebem este diagnóstico, visto que sua ocorrência aumentou drasticamente nos últimos anos. Na década de 1970, a taxa era de 1 em cada 2.500 indivíduos autistas. Nos anos 2000, esse número subiu para 1 em cada 150, e em 2010, atingiu 1 a cada 68. Atualmente, dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos indicam que 1 em cada 31 crianças é autista.
No Brasil, a situação é análoga: o Censo 2022 do IBGE registrou 1 em cada 38 crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Considerando também os adultos, que representam um terço dos casos, estima-se que o país tenha 2,4 milhões de pessoas autistas. A incidência do autismo quintuplicou em vinte anos e cresceu 8.000% em cinco décadas. A ciência está intensificando esforços para encontrar explicações para esse fenômeno.
O banco de dados do National Institutes of Health, dos EUA, mostra um aumento significativo nos estudos: em 2005 foram publicados 938 artigos sobre autismo globalmente, enquanto no ano anterior foram 9.045. A seguir, serão abordados alguns dos temas mais complexos relacionados aos diagnósticos de TEA.
As alegações incorretas sobre as causas
Em 24 de maio de 2010, a carreira do médico inglês Andrew Wakefield foi encerrada após o Conselho julgá-lo culpado de má conduta profissional e determinar a exclusão de seu nome do registro médico. Ele era o autor de um estudo publicado em 1998 no periódico científico Lancet, que levantava a alegação controversa de que a vacina tríplice viral (protege contra sarampo, caxumba e rubéola) provocava autismo.
Este trabalho relatava casos de 12 crianças com TEA e sugeria que, em oito delas, o transtorno teria sido desencadeado pela vacina, pois os sintomas surgiram após a imunização e as crianças apresentavam inflamações intestinais. No entanto, tal relato não comprova nada. Posteriormente, descobriu-se que o estudo de Wakefield havia sido fraudado: alguns pais contestaram as informações fornecidas.
O médico inglês fabricou respostas e manipulou dados, sendo ainda remunerado por Richard Barr, um advogado que preparava um processo milionário contra fabricantes de vacinas. Era, portanto, uma trama. Existem inúmeros estudos, conduzidos com mais de 1,2 milhão de crianças, que demonstram que as vacinas não causam autismo.
O paracetamol, ou acetaminofeno, também não está ligado ao autismo. No ano passado, o presidente dos EUA, Donald Trump, acusou este analgésico (comercializado como Tylenol) de causar autismo. Embora a origem dessa afirmação seja incerta, ela pode derivar de um estudo de 2024 que analisou registros médicos de 2,5 milhões de crianças na Suécia, apontando "riscos marginalmente aumentados de autismo e TDAH associados ao uso de acetaminofeno na gravidez".
Contudo, conforme o próprio estudo aponta, após remover os chamados "fatores confundidores", não houve aumento de risco para autismo. Um exemplo ilustrativo é o clima quente no verão, que aumenta tanto o consumo de sorvete quanto os afogamentos; o sorvete não causa afogamento, mas o calor é o fator comum. Brian Lee, epidemiologista e coautor do estudo, explicou que, no caso do paracetamol, o fator confundidor reside no fato de que muitas gestantes utilizam o medicamento para tratar outras condições que podem estar relacionadas ao autismo, como febre ou infecções. Além disso, existem a predisposição genética dos pais e o uso de outros fármacos durante a gestação.
Os fatores ambientais
O autismo é uma condição neurológica associada a modificações no desenvolvimento cerebral. Sua base é genética, podendo se manifestar sozinha (se for muito forte) ou ser desencadeada por elementos ambientais. José Salomão Schwartzman, neuropediatra especialista em TEA, esclarece que "nas famílias em que o aspecto genético é muito forte, não é necessário o gatilho. Vemos isso em famílias com três, quatro ou até seis crianças autistas".
Os fatores ambientais referem-se às influências no ambiente intrauterino durante o desenvolvimento fetal. O uso de determinados medicamentos na gravidez, por exemplo, pode elevar o risco de autismo nos filhos. O ácido valproico (ou valproato), um anticonvulsivante também usado para enxaquecas, é o agente com maior certeza. Um estudo realizado com 655 mil crianças na Dinamarca concluiu que "o uso de ácido valproico na gravidez foi associado a um risco significativamente maior de TEA". Schwartzman relata que essa substância é utilizada em laboratório para induzir o "quadro autístico" em ratos, causando problemas de interação social.
Existem indícios, embora menos definitivos, envolvendo outros medicamentos, como os "medicamentos inibidores da biossíntese de esteróis" (IBEs), incluindo sertralina e atorvastatina. Apesar de terem estruturas e indicações distintas (um antidepressivo e outro medicamento cardíaco), ambos interferem na produção de colesterol, molécula essencial para o desenvolvimento cerebral. Cientistas da Universidade de Nebraska, EUA, investigaram a ligação entre 15 IBEs e autismo em 6 milhões de gestações. Mulheres que utilizaram pelo menos um IBE durante a gestação apresentaram 47% mais risco de ter um filho autista, e cada IBE adicional prescrito elevou esse risco em 33%. Esses dados são preocupantes devido ao aumento do uso desses medicamentos (nos EUA, saltou de 4,6% das gestações em 2014 para 16,8% em 2023).
Algumas pesquisas apontaram correlação entre autismo e antidepressivos na gestação, especialmente os "inibidores seletivos da recaptação de serotonina" (SSRIs), o tipo mais comum. Lisa Croen, diretora do Kaiser Permanente Autism Research Program, EUA, analisou dados de 298 crianças com TEA (e suas mães) e um grupo controle de 1.507 crianças sem TEA. O resultado mostrou que a incidência de autismo foi 2,2 vezes maior entre gestantes que usaram SSRIs no ano anterior ao parto.
Pesquisadores ingleses e chineses, ao revisarem estudos observacionais de 1946 a 2014, também concluíram um risco elevado de TEA em crianças expostas a antidepressivos na gestação. Entretanto, duas grandes revisões — uma de 2017 pelo psiquiatra indiano Chittaranjan Andrade e outra deste ano por cientistas da Universidade de Hong Kong — chegaram a conclusões opostas. Elas identificaram uma pequena relação, mas esta desapareceu após a exclusão de "fatores confundidores", como a saúde mental materna e a predisposição genética.
Viver próximo a lavouras com agrotóxicos parece ser um fator de risco, conforme demonstrado por um estudo da Universidade da Califórnia. Dos 970 gestantes examinadas, um terço morava a menos de 1,5 km de onde pesticidas eram aplicados, e seus filhos apresentaram, em média, 60% mais casos de TEA. Um estudo da Nanjing Medical University, China, corroborou esses achados: mães expostas a agrotóxicos durante a gestação tiveram filhos com 19% mais probabilidade de desenvolver autismo. É importante notar que se trata de uma associação, e não de uma prova de causalidade direta, visto que estudos observacionais não conseguem isolar variáveis como a genética.
Quanto à idade dos pais, as evidências são mais sólidas. Uma análise de diversos estudos publicados por cientistas chineses indicou que cada aumento de dez anos na idade da mãe e do pai eleva o risco de TEA em 18% e 21%, respectivamente. Uma possível razão para isso é o aumento do risco de mutações genéticas nas células reprodutivas com o avanço da idade.
A maior pesquisa realizada na área incluiu 5,7 milhões de crianças (30.902 com TEA) em cinco países (Austrália, Dinamarca, Israel, Noruega e Suécia), juntamente com seus pais. Homens com 50 anos ou mais apresentaram 66% mais risco de ter um filho autista em comparação com pais entre 20 e 29 anos. Para mães de 40 a 49 anos, o risco foi 15% superior ao de gestantes na faixa dos 20. Os autores concluíram que o risco era maior quando ambos os pais eram mais velhos, mas também aumentava quando havia grande disparidade de idade entre eles. Isso pode explicar uma descoberta interessante: mães adolescentes tiveram 18% mais risco quando comparadas a mães na faixa dos 20, devido à maior diferença de idade em relação ao pai.
Pesquisas também correlacionam o excesso de peso materno com maior risco de TEA nos filhos. Cientistas da Universidade do Sul da Austrália analisaram dados de 42 estudos envolvendo 3,7 milhões de gestantes. Filhos de mães obesas tiveram 42% mais chance de autismo, o que seria atribuído à inflamação e alterações metabólicas geradas pela adiposidade materna no ambiente uterino, afetando o desenvolvimento fetal. O nascimento prematuro também eleva o risco de autismo, como constatado por uma metanálise de 52 estudos realizada por psicólogos da Universidade de Birmingham, Inglaterra, que verificou que diagnósticos de autismo eram 3,3 vezes mais frequentes em neonatos prematuros.
