A ciclorfina, um novo opioide sintético, já resultou na morte de pelo menos 55 indivíduos nos Estados Unidos desde o ano de 2025. Cientificamente conhecida como N-propionitrila clorfina, esta substância possui uma potência até dez vezes superior à do fentanil, que, por sua vez, é cinquenta vezes mais forte que a heroína e cem vezes mais potente que a morfina. Este aumento de casos tem gerado grande preocupação entre as agências de segurança pública e os órgãos de saúde.
Em abril deste ano, a mídia deu destaque à morte de um adolescente de 16 anos, Dante Paul Lacourte, ocorrida no apartamento de sua mãe na cidade de São Francisco, Califórnia. As autoridades locais confirmaram que este foi o primeiro registro de óbito causado por ciclorfina naquela cidade.
Desde então, a disseminação da droga pelo país tem sido notável. No Condado de Knox, Tennessee, exames toxicológicos preliminares indicaram que 41 mortes estavam ligadas à ciclorfina, superando o número registrado em qualquer outro estado. Além disso, casos foram detectados em localidades como Chicago, Illinois, onde houve apreensões de entorpecentes e registros de overdose.
De acordo com o Center for Forensic Science Research & Education, o crescimento das mortes relacionadas à ciclorfina aponta para uma tendência mais vasta: a inserção de novos opioides sintéticos de altíssima potência, denominados órfinas, nos mercados ilegais. Frequentemente, essas substâncias são misturadas a outras drogas, como cocaína e heroína, sem que os consumidores tenham ciência dessa composição.
Atualmente, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) cataloga a ciclorfina como o análogo de órfina mais comum. Internacionalmente, nove outros países além dos Estados Unidos já reportaram casos de overdose fatal (78) e apreensões de drogas (182) envolvendo esta nova substância, incluindo Canadá, Reino Unido, Alemanha e França.
Desde 2016, os opioides sintéticos representam a principal causa de falecimentos por overdose no país, podendo atingir uma média superior a 107 mil mortes em um único ano, sendo o fentanil o principal responsável. Embora os opioides sejam utilizados em doses controladas na medicina para manejo da dor, frequentemente combinados com anestésicos, o uso abusivo desses compostos pode levar à alteração do sistema de recompensa cerebral, induzindo dependência.
A ciclorfina é classificada como um opioide sintético de extrema potência, e tais drogas tendem a sobrecarregar o sistema respiratório do corpo em um período muito curto. Isso implica que os usuários podem perder a consciência ou cessar a respiração antes da chegada de auxílio médico.
Outro obstáculo significativo reside na ausência de testes diagnósticos específicos para a ciclorfina. A maior parte dos exames toxicológicos empregados por hospitais, equipes de emergência e forças policiais foi desenvolvida para identificar opioides mais conhecidos, como morfina, heroína e fentanil. Como a ciclorfina é um composto relativamente novo, os socorristas precisam recorrer a análises especializadas para detectá-la no sangue. Adicionalmente, ela pode apresentar resistência à naloxona, o antídoto usualmente aplicado em casos de overdose. Equipes de emergência já documentaram situações que exigiram múltiplas aplicações de naloxona para reanimar pacientes.
A origem da ciclorfina remonta à década de 1960, em um laboratório de pesquisa na Bélgica. Inicialmente, o objetivo não era criar produtos recreativos, mas sim desenvolver um analgésico potente capaz de mitigar o sofrimento de pacientes com condições como câncer ósseo. Contudo, a molécula foi descartada por ser considerada excessivamente forte.
Apesar disso, a fórmula para sua produção está acessível na internet, permitindo que indivíduos sintetizem ciclorfina em laboratórios caseiros, dispensando a necessidade de terras agrícolas, diferentemente do cultivo de cocaína, heroína ou maconha. Muitos entorpecentes ilícitos são fabricados em ambientes clandestinos ou em residências adaptadas.
