Lucy Jones critica negligência científica e social em relação à experiência da maternidade
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Lucy Jones critica negligência científica e social em relação à experiência da maternidade

Lucy Jones, jornalista científica, autora de 'Matrescência: Sobre a metamorfose da gravidez, do parto e da maternidade' e semifinalista do Women’s Prize for Non-Fiction de 2024, aborda em seu livro relatos pessoais e investigações sobre a continuidade da vida em diversas espécies. Ela analisa as transformações físicas, mentais e sociais que mulheres de diferentes culturas vivenciam durante a gestação, o parto e a maternidade, focando especialmente em cenários de isolamento social e na hiperidealização do papel materno.

O título do livro deriva do termo 'matrescência', cunhado nos anos 1970, que compara as mudanças do período a fases intensas e duradouras da infância e adolescência. Jones, residente na Inglaterra, conversou com a Superinteressante sobre a neurociência da maternidade e os desafios sociais no suporte à saúde mental antes e depois do parto.

Jones expressou surpresa ao descobrir as profundas alterações biológicas e físicas que ocorrem durante a gravidez, o parto e a maternidade inicial. Ela relatou que, antes de ter filhos, desconhecia que o cérebro sofre modificações significativas em várias áreas, permanentes e comparáveis às da adolescência. Além disso, ela ficou sabendo que células do bebê permanecem no corpo da mãe e vice-versa, um processo que os cientistas ainda buscam entender. Ela também notou que o cérebro do pai e de outros cuidadores pode sofrer mudanças profundas dependendo de vários fatores.

A jornalista manifestou choque diante da grande quantidade de desinformação, terminologias incorretas, obscurantismo e tabus que cercam a saúde e a experiência materna. Foi perturbador para ela perceber que se tornar mãe representa uma transformação imensa, muito superior ao que lhe foi apresentado. Frequentemente, a maternidade é retratada como um evento hormonal transitório, um papel 'natural' e simples. Jones lamentou a negligência científica e o apoio social insuficiente oferecido às mães em um período de grande vulnerabilidade.

Isso a levou a questionar o que a sociedade ganha ao ocultar, negar e esconder as realidades da gravidez, do parto e dos cuidados iniciais com o bebê. Essas reflexões a fizeram analisar os fundamentos das filosofias liberais e da economia política de sua cultura, percebendo que o tratamento dado aos cuidadores e mães reflete a maneira como as sociedades industriais tratam o planeta, espécies não humanas e comunidades globais, revelando uma mentalidade extrativista e colonial baseada em ideias iluministas, misoginia, patriarcado e capitalismo racial.

Ao ser questionada sobre outras espécies onde as mães se tornam tão vulneráveis fisicamente e emocionalmente quanto os humanos, Jones mencionou as mães que praticam a matrifagia. Em pelo menos seis tipos de aranhas, após a eclosão dos filhotes, a mãe primeiramente os alimenta com um líquido regurgitado e, subsequentemente, oferece o próprio corpo como alimento. Outras espécies, como a tesourinha-de-orelha-curvada, pseudoescorpiões, certos nematódeos e cecílias, também exibem esse comportamento.

No contexto humano, especialmente em sociedades ocidentais individualistas, a experiência de se tornar mãe pode ser extremamente vulnerável devido à carência de suporte social, ao isolamento ao criar filhos pequenos e à ausência de assistência adequada à maternidade, o que gera consequências graves para uma espécie intrinsecamente social.

Jones refutou a crença disseminada de que o corpo feminino possui um conhecimento inerente sobre gestar, parir e cuidar, ou que o instinto materno é puramente inato. Sua experiência pessoal e a de outras pessoas demonstram que a realidade é muito mais complexa do que as narrativas simplistas e patriarcais. Embora tenha sentido o impulso de proteger e amar sua filha, ela precisou aprender ativamente como cuidar dela e o que era necessário.

A gravidez e o parto reconfiguram o cérebro, possivelmente para preparar o indivíduo para sustentar um bebê, mas todos nascem com os circuitos neurais básicos para o cuidado, e este é aprendido através do afeto e do cuidado direto. Ao naturalizar o cuidado infantil, essa visão ignora o quão desafiador ele é e falha em reconhecer que cuidar é um trabalho árduo e gratificante que deve ser responsabilidade de todos, e não somente das mulheres. A mitologia da felicidade absoluta da maternidade mascarou essa complexidade, embora hoje haja mais representações culturais que abordam o drama e os altos e baixos dessa jornada.

Sobre a situação no Brasil, Jones observou que o aumento da terceirização desde a última reforma trabalhista resultou na diminuição do acesso à licença-maternidade remunerada. Para promover mudanças nos empregadores, ela defende que seja construído um mundo centrado no cuidado, na vida e no florescimento, e não no lucro. Ela argumenta que a sociedade depende dos bebês, e estes necessitam de múltiplos cuidadores para se desenvolver, visto que evoluímos em redes coletivas de cuidado.

É urgente reorganizar as economias para suprir as necessidades de todos, incluindo os bebês, superando a lógica do lucro. É preciso contestar a ideologia sexista para que os homens assumam uma parte mais equitativa do trabalho de cuidado e combater a desvalorização geral desse trabalho. Jones acredita que apenas a legislação pode forçar a mudança nos empregadores, citando a Noruega, onde licenças remuneradas com regra 'use ou perca' diminuem o estigma enfrentado pelos pais que desejam se afastar do trabalho para cuidar da família. Países como Finlândia, Suécia, Noruega e Dinamarca, que valorizam o cuidado, figuram consistentemente entre os mais felizes do mundo.

Para melhorar o apoio às mulheres no período pós-parto, Jones sugere investimentos imediatos em cuidados. Ela cita o programa Kraamzorg da Holanda, que fornece horas de assistência domiciliar pós-parto por uma enfermeira obstétrica, auxiliando em alimentação, limpeza, tarefas leves e suporte físico e emocional. Na Holanda, a taxa de depressão pós-parto é de 8%, contrastando com 10% a 15% na Inglaterra, que carece desse suporte social.

O espaço público também é crucial. Ruth Naughton-Doe, pesquisadora britânica sobre solidão perinatal, propôs soluções como áreas externas projetadas para famílias, bancos para descanso e amamentação, fraldários em banheiros públicos de ambos os gêneros e melhorias no transporte. Além disso, são essenciais licenças parentais melhores para ambos os pais, trabalho flexível e serviços de educação infantil acessíveis e de alta qualidade. Naughton-Doe enfatizou que tornar visíveis os desafios da parentalidade é vital, e a palavra 'matrescência' serve como ferramenta linguística para discutir essa transição negligenciada, permitindo perguntas como: 'Como está sua matrescência?' ou 'Como está sua patrescência?'

Jones respondeu que não deve ser uma questão exclusiva das mães. Todos os pais envolvidos no nascimento de um bebê devem ter acesso a tratamento e apoio. Discutir a depressão pós-parto em mães, pais e parceiros não gestantes é fundamental para reduzir o estigma. Embora a gestação seja uma experiência biológica da mãe, ela também é biológica para o pai ou cuidador. É reconfortante que exista um grupo internacional de neurocientistas estudando a saúde mental perinatal, pois toda a sociedade se beneficia ao tratar essa grande transição com mais seriedade.

Refletindo sobre a natureza extraordinária e dolorosa da maternidade, Jones menciona que muitas mães encontram catarse ao ler seu livro, sentindo que 'não estavam enlouquecendo'. Ela admite que, após se tornar mãe, demorou a compreender as estruturas neoliberais, capitalistas e patriarcais que tornam a matrescência contemporânea desestabilizadora. Levou dois anos para processar psicologicamente sua primeira experiência e considerar ter outro filho. Apesar de abominar a forma como a sociedade ocidental trata as mães recentes e sua incapacidade de valorizar o cuidado, a experiência de ter filhos lhe proporcionou imenso prazer, estímulo intelectual, criatividade e alegria.

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