Globalmente, diariamente nascem 361 mil bebês, resultando em 132 milhões de novas mães anualmente. O processo de gestação, parto e amamentação impõe uma transformação radical ao organismo humano. Durante a gravidez, o útero pode aumentar de 10 mililitros para 5 litros, um aumento de 500 vezes, acompanhado por uma intensa alteração hormonal, com cargas hormonais atingindo 200 a 300 vezes maiores.
Além das mudanças internas, ocorrem modificações físicas como a diminuição da densidade óssea e o alongamento dos ligamentos, enquanto a tolerância ao estresse e a capacidade de interpretar expressões faciais se aprimoram. O indivíduo se torna uma criatura quimérica, pois o DNA do feto pode permanecer nos órgãos maternos mesmo após o falecimento da mãe.
Desde os anos 1970, o termo «matrescência» descreve as transformações físicas, psicológicas e sociais da gravidez e do início da maternidade, comparável à adolescência devido à sua durabilidade e significado. Contudo, até meados dos anos 2010, havia pouca compreensão sobre as alterações mentais nesse período, visto que psiquiatria e psicanálise negligenciaram amplamente o impacto da gravidez na mente e no corpo feminino.
Recentemente, a ciência elucidou fenômenos como o «baby brain», um estado de confusão mental ligado à perda de volume de massa cinzenta durante a gestação. Pesquisas do projeto Be Mother, da Universidade Autônoma de Barcelona, indicam que a amnésia e a névoa mental são ajustes neurais, similares às podas adolescentes, visando tornar a mãe mais atenta e responsiva. Um estudo de 2022 sobre neuroplasticidade demonstrou que a memória e a capacidade de aprendizado podem, inclusive, melhorar durante a gestação.
Mudanças cerebrais irreversíveis e consequências físicas do parto, como as no assoalho pélvico, podem persistir por décadas, assim como adaptações psicológicas. Soma-se a isso o sono fragmentado, comprovadamente prejudicial ao bem-estar geral e à cognição. Essa jornada da matrescência apresenta riscos significativos para a saúde mental: 1 em cada 5 mulheres enfrenta problemas durante a gestação ou no primeiro ano pós-parto, e no Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz aponta que 1 em cada 4 sofre com tais questões. Mulheres com histórico de transtornos mentais têm suas chances elevadas em cinco vezes.
Parte do problema reside na idealização da maternidade, construída socialmente desde o final do século XVII. Valeska Zanello, professora da Universidade de Brasília (UnB), argumenta que a noção de «instinto materno» é uma construção social. Ela alerta que quanto mais a mulher romantiza a maternidade veiculada pela publicidade, maior a probabilidade de desenvolver transtornos psíquicos ao confrontar a realidade.
