Durante um círculo de negócios entre representantes da África do Sul e da Índia, realizado em Nova Deli no âmbito da 18ª cimeira dos líderes do BRICS, o presidente Cyril Ramaphosa declarou que o diálogo político deve transformar-se em projetos comercialmente viáveis e parcerias de longo prazo do setor privado.
Ramaphosa apelou veementemente à Índia e à África do Sul para iniciarem uma 'nova era' nas relações económicas, afirmando que ambos os países têm uma rara oportunidade de aprofundar investimentos, comércio, desenvolvimento industrial e crescimento sustentável num momento em que o BRICS está a rever as regras da economia mundial.
Na reunião realizada na capital indiana, os líderes do BRICS reuniram-se num contexto internacional tenso, incluindo o conflito prolongado entre EUA e Irão, bem como a guerra contínua na Ucrânia. Após o término do mandato da Índia, a presidência do BRICS passará para a China.
Ramaphosa viu este período como uma mudança estrutural, e não como diplomacia rotineira, sublinhando que o BRICS deixou de apenas reagir às regras económicas mundiais existentes e começou a criá-las. Ele observou que os mercados emergentes desempenham agora um papel fundamental no crescimento global, e, portanto, a África do Sul e a Índia devem ver os seus pontos fortes complementares como um ativo comum, e não como histórias separadas e desvinculadas.
Esta tese foi reforçada pela experiência pessoal de Ramaphosa. Durante a sua visita a Nova Deli, como convidado do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia, ele observou pagamentos de compras comuns em rupias sem necessidade de usar uma terceira moeda. Ramaphosa informou mais tarde ao primeiro-ministro Narendra Modi que, ao comprar livros em Delhi e pagar em rupias, a transação foi concluída com sucesso em randes e 'não houve problemas'.
As discussões no âmbito do BRICS abordaram o comércio em moedas locais, experimentações com pagamentos transfronteiriços e consultas entre bancos centrais, garantindo que as atividades comerciais entre os parceiros não dependam de permissões de terceiros países. É aqui que a reescrita das regras se concretiza: manifesta-se na possibilidade de realizar transações sem autorização de terceiros países.
Ramaphosa destacou seis áreas de cooperação. A primeira é a transição para a energia e a industrialização verde. Ambos os países procuram abandonar sistemas baseados em carbono, focando-se em energias renováveis, hidrogénio verde, minerais críticos, cadeias de valor de baterias e produção sustentável. Ele mencionou que grupos indianos, como a Vedanta, já operam na África do Sul.
A segunda área é a mineração, minerais críticos e processamento. Argumenta-se que as reservas minerais da África do Sul e as capacidades de produção da Índia combinam-se perfeitamente em novas cadeias de energia. A política de Pretória é aumentar o processamento de minerais no local da extração, em vez de exportar minério bruto.
O terceiro pilar é infraestrutura e conectividade. Para dinamizar o comércio africano, são necessários investimentos em transporte, logística, portos, redes digitais, cidades inteligentes e corredores industriais. A África do Sul identificou 195 projetos estratégicos integrados no valor superior a 100 mil milhões de dólares, incluindo estradas, corredores ferroviários, centrais de energia renovável e hospitais. Ramaphosa apelou às empresas indianas para considerarem parcerias nestes projetos.
A quarta área foi a agricultura, que permanece a base do emprego e da segurança alimentar em ambos os países. Foi discutido o potencial de cooperação em agroprocessamento, agrotecnologias e práticas sustentáveis.
O quinto ponto foi a economia digital e a inovação, abrangendo fintech, comércio digital, inteligência artificial e cibersegurança. É dado o exemplo da Atain, uma empresa indiana que abriu uma nova filial em Cidade do Cabo.
O sexto aspeto referiu-se às pessoas e instituições. Ramaphosa salientou que o sucesso da parceria é medido pelo impacto alcançado, e não pelos acordos assinados. Ele também observou que a África do Sul está a realizar reformas internas, abrindo energia, telecomunicações e logística para maior concorrência.
Atualmente, as relações comerciais são significativas: a Índia é um dos maiores parceiros comerciais da África do Sul, e mais de 150 empresas indianas investiram mais de 10 mil milhões de dólares na África do Sul.
A concretização da 'nova era' dependerá das ações subsequentes: se os projetos serão colocados a concurso, se o processamento permanecerá em território sul-africano e quão comum será a liquidação em rupias e randes.
