Não basta ao Uzbequistão apenas atrair investimentos estrangeiros, adquirir equipamentos modernos e abrir novas capacidades de produção para alcançar o status de país de alta renda. Analistas do Banco de Desenvolvimento da Eurásia (BEI) afirmam que, para um desenvolvimento sustentável, é fundamental que, juntamente com a produção interna, sejam mantidas as tecnologias, desenvolvidos fornecedores locais, engenheiros, padrões e desenvolvimentos próprios.
O BEI apresentou um novo conceito de transformação industrial para economias em desenvolvimento. Atualmente, 108 economias de renda média, com cerca de 6 bilhões de habitantes, pertencem a este grupo, mas apenas 34 delas conseguiram passar para a categoria de países ricos desde 1990. Além disso, entre 2021 e 2023, 95 das 143 economias em desenvolvimento permaneceram dependentes de matérias-primas, que representavam mais de 60% de suas exportações de bens. Embora os altos preços dos recursos naturais possam garantir um crescimento rápido, eles não garantem a transição para uma economia estávelmente rica.
O Banco enfatiza que o aumento dos investimentos e a compra de equipamentos modernos por si só não resolvem o problema. As tecnologias externas devem ser transformadas em capacidade produtiva interna, incluindo o desenvolvimento de engenheiros, tecnólogos, redes de fornecedores, padronização, serviços, reparos, projeto e melhoria da eficiência dos processos. Ao mesmo tempo, a abertura da economia e a atração de investidores estrangeiros continuam sendo necessárias, mas o sucesso deve ser medido não pela quantidade de máquinas importadas, mas pelo grau de aumento do valor agregado local e da transferência de conhecimento através da importação e participação nas cadeias globais de suprimentos.
A importância da indústria reside no fato de que, de acordo com dados do novo relatório, o setor de manufatura esteve ligado a 64% dos casos de crescimento econômico nas últimas cinco décadas. Além disso, um emprego na indústria sustenta, em média, 2,2 empregos em áreas correlatas, como logística, construção, educação e serviços.
Transformação do Uzbequistão dentro do modelo regional
No âmbito do modelo regional, o BEI classifica Uzbequistão e Cazaquistão como 'transformadores de recursos em escala'. São países que possuem tanto uma base de recursos e energia quanto potencial agrícola e demanda interna significativa. Sua tarefa é passar de matérias-primas e processamento primário para a criação de produtos mais complexos, como produtos químicos, metais de alta qualidade, eletrônicos, máquinas e componentes.
No mapa setorial, o Uzbequistão obteve as maiores pontuações nos setores de química e polímeros, bem como em maquinaria industrial (com 4,71 pontos). Seguem-se a indústria alimentícia e processamento agrícola profundo (4,62), componentes de transporte (4,61), equipamentos agrícolas e de irrigação (4,58), fertilizantes e agroquímicos, bem como a indústria leve e têxtil técnico (4,55). A eletrônica e a farmacêutica receberam 4,50 pontos cada.
É importante notar que essas avaliações não definem uma fase de desenvolvimento única para todo o país. Química e maquinário são classificados na segunda fase, onde os fornecedores, competências de engenharia, padrões e financiamento de projetos se tornam cruciais. O setor alimentar, a agrotecnologia, fertilizantes e têxteis estão entre a primeira e a segunda fases. A farmacêutica está posicionada entre a segunda e a terceira fase, que implica a adição de pesquisas próprias e comercialização de soluções à base de produção. Assim, uma mesma economia pode abrigar produção básica, plataformas industriais maduras e nichos inovadores.
O BEI recomenda escolher direções de desenvolvimento com base não no prestígio, mas na combinação de fatores: demanda, disponibilidade de recursos, competências atuais, proximidade tecnológica, infraestrutura e possibilidade de financiamento do projeto. Por exemplo, uma fábrica complexa que não possui engenheiros, fornecedores e base de testes no país pode apresentar boas estatísticas de investimento, mas terá um impacto fraco na economia geral.
Diferenças nas tarefas dos países vizinhos
O relatório do BEI não compara os países vizinhos sob o critério de 'quem é melhor'; cada país desempenha seu papel no sistema industrial regional geral. Rússia e Bielorrússia são definidas como o núcleo industrial, pois possuem competências iniciais mais elevadas em maquinário complexo, componentes, engenharia e várias áreas tecnológicas. Cazaquistão, assim como Uzbequistão, deve aprofundar o processamento de sua própria base de matérias-primas. Armênia, Quirguistão e Tajiquistão são vistos como nós de nicho e cooperação, capazes de se especializar em segmentos, serviços e componentes específicos.
Os números demonstram essas diferenças: na Rússia, lideram a maquinaria industrial (4,97 pontos), componentes de transporte (4,94 pontos) e química e polímeros (4,91 pontos). Na Bielorrússia, lidera a maquinaria (4,93 pontos), seguida por equipamentos agrícolas e de irrigação (4,84 pontos) e componentes de transporte (4,83 pontos). O Cazaquistão tem a maior pontuação em química e polímeros (4,87), bem como em metalurgia de alto refino (4,84 pontos) e materiais críticos (4,83 pontos).
Os perfis das economias menores diferem. Na Armênia, a farmacêutica e os dispositivos médicos são mais bem avaliados (4,49 pontos), assim como a eletrônica e os componentes (4,47 pontos). Quirguistão lidera em indústria leve e têxtil técnico (4,40 pontos), bem como em processamento alimentar e agrícola (4,29 pontos). Em Tajiquistão, a metalurgia e usinagem de metais recebeu a maior pontuação (4,27 pontos), seguida pela indústria leve (4,21 pontos) e materiais críticos (4,15 pontos).
Modelo de três etapas em vez de salto rápido
O modelo proposto pelo BEI baseia-se em três fases sequenciais. A primeira fase é a criação de uma base de produção básica, para a qual o país necessita de fornecimento de energia confiável, transporte, recursos hídricos, áreas industriais, infraestrutura de armazenamento, padrões básicos e habilidades profissionais em massa. O objetivo principal desta fase é garantir a produção estável e formar as primeiras redes de fornecedores.
A segunda fase representa a plataforma industrial. Neste nível, a produção simples não é suficiente; surgem o processamento mais profundo, a manufatura, a metalurgia, a presença de fornecedores certificados, centros de engenharia, financiamento de longo prazo e a capacidade de adaptar tecnologias importadas às condições locais. Para muitas indústrias prioritárias do Uzbequistão, esta segunda fase é crucial no momento.
A terceira fase é a economia do conhecimento, que inclui pesquisa aplicada, linhas piloto, propriedade intelectual, desenvolvimento e comercialização de novos produtos. No entanto, os analistas alertam: tentar pular para esta fase sem criar uma plataforma de produção é extremamente difícil. Embora algumas empresas de tecnologia possam surgir mais cedo, a complexificação massiva da economia exige pessoal, fornecedores, padrões e financiamento.
A aplicação prática deste modelo para o Uzbequistão dita que uma nova fábrica não deve operar isoladamente. Em torno dela, devem se desenvolver simultaneamente programas de treinamento de pessoal, fornecedores locais, suporte de engenharia, laboratórios de teste, certificação, serviço e acesso a financiamento de longo prazo e mercados de vendas. O BEI considera um projeto completo de transição industrial apenas aquele que inclui quatro elementos obrigatórios: pessoal, domínio de tecnologia, infraestrutura de qualidade e financiamento de trabalhos piloto com posterior escalonamento.
Isso muda a compreensão de localização. Montar um produto acabado a partir de peças importadas é apenas um passo inicial. Uma fase mais valiosa começa quando as empresas locais começam a produzir componentes, realizar reparos e modernizações de equipamentos, redesenhar processos de produção, atender a padrões internacionais e comercializar produtos fora do mercado interno.
Princípios semelhantes aplicam-se aos investimentos estrangeiros. No período de 2016 até o primeiro semestre de 2025, o volume total de investimentos diretos mútuos na região da Eurásia atingiu US$ 48,4 bilhões, dos quais US$ 9 bilhões, ou 18,4%, foram destinados à indústria de transformação. O BEI aconselha atrair investidores não apenas através de incentivos fiscais, mas através de uma oferta abrangente que inclua local, infraestrutura, parceiros locais, pessoal, futuros fornecedores, financiamento e mercado de exportação.
Outro princípio importante é a verificação pelo mercado. Grandes programas e subsídios não devem ser lançados apenas com base na aparente promessa de um setor. É necessário primeiro realizar um projeto piloto com cofinanciamento privado, confirmar a demanda e a competitividade. Se o projeto não for aprovado pelo mercado, sua expansão corre o risco de criar instalações caras sustentadas por ajuda financeira contínua.
Para algumas produções complexas, o mercado do Uzbequistão pode ser muito pequeno. O mercado combinado da UEAEC e da Ásia Central é estimado em aproximadamente 180–220 milhões de pessoas, e atualmente cerca de 59% das vendas de produtos de segundo nível de processamento são destinadas a esta região. É aqui que se torna evidente a divisão de especialidades: Uzbequistão e Cazaquistão podem focar em química, metalurgia, eletrônica e fabricação de equipamentos; Rússia e Bielorrússia — no fornecimento de componentes mais complexos, tecnologias, engenharia e padrões; e as economias menores — em nichos altamente especializados.
A fórmula do BEI resume-se à ideia de 'um sistema industrial unificado baseado em competências diversas', o que permite que as empresas nacionais tenham acesso a um mercado mais amplo. O Banco avalia muito positivamente o potencial desse modelo: em um estudo anterior, o desenvolvimento cenarizado de quatro clusters interconectados — química, manufatura, metalurgia de alto refino e indústria alimentícia — previa uma produção adicional anual superior a US$ 510 bilhões aos preços de 2019.
Conclusão principal
A base industrial da república é reconhecida como a base para o crescimento, mas a introdução de capacidade de produção é apenas o começo do processo, e não o seu fim. Se uma empresa permanece um 'oásis tecnológico', dependente de peças importadas, serviço externo e engenheiros estrangeiros após o lançamento, sua contribuição para o desenvolvimento de longo prazo será limitada. Um trabalho muito mais complexo e menos visível começa após a abertura da oficina: treinamento de especialistas locais para manutenção e aprimoramento de tecnologias, desenvolvimento de dezenas de fornecedores em torno de uma grande empresa, levar seus produtos aos padrões exigidos, etc.

