Em uma série de materiais intitulada 'Tecnologias Brasileiras que Mudaram o Mundo', conta-se a história da caixa de câmbio automática, cuja invenção foi possível graças a dois engenheiros brasileiros: José Brazo Araripe e Fernando Lemos.
Assim como no caso da máquina de escrever, existiam dispositivos iniciais, mas foram os brasileiros quem desenvolveram o primeiro modelo verdadeiramente funcional. Em 1902, os irmãos Thomas J. e Thomas L. Stertewant criaram uma caixa de câmbio automática embrionária; o protótipo, patenteado em 1904, era mecânico e funcionava apenas em altas rotações.
Posteriormente, em 1921, o canadense Munro Alfred Horner, especialista em vapor, desenvolveu um mecanismo pneumático que utilizava ar comprimido. Embora este dispositivo não tivesse potência suficiente para uso comercial, Horner o patenteou em 1923.
Dois anos depois, o alemão Hermann Rißeler patenteou sua versão, contribuindo significativamente ao combinar um conversor de torque hidráulico com um redutor planetário. No entanto, nem mesmo seu projeto foi lançado na produção comercial.
A principal diferença entre esses três projetos residia na força utilizada para a troca de marchas. Na década de 1930, existiram protótipos, mas nenhum deles funcionava adequadamente para entrar no mercado. Entre eles, o projeto de Rißeler era considerado o mais promissor, servindo de base para a criação do dispositivo pelos engenheiros brasileiros Araripe e Lemos.
Em 1932, este par de engenheiros alcançou um avanço decisivo ao aprender a controlar com precisão a pressão do óleo. Enquanto Rißeler usava fluido hidráulico para transmitir a potência do motor, os brasileiros desenvolveram um sistema onde o próprio óleo sob pressão controlava e realizava a troca de marchas sem trancos.
Embora o sistema pudesse parecer semelhante à inteligência artificial, isso era impossível, considerando que o desenvolvimento ocorria na década de 1930. Este sistema baseava-se exclusivamente na física e na mecânica dos fluidos.
Imagine um labirinto de canais com pequenas comportas (válvulas) pressionadas por molas. O 'cérebro' deste sistema era a velocidade do veículo. Assim, o par de engenheiros criou o primeiro protótipo de caixa de câmbio automática que era suficientemente funcional para ser lançado no mercado. É importante notar que, sendo brasileiros, eles desenvolveram este sistema nos Estados Unidos, pois se mudaram para lá na década de 1920 para trabalhar em oficinas de reparo naval, dedicando mais de dez anos a este projeto secreto.
Em 1932, eles patentearam sua invenção e a apresentaram à General Motors em Detroit. A GM demonstrou interesse e fez duas propostas: dez mil dólares à vista ou um dólar por cada carro vendido com essa tecnologia. O par escolheu a primeira proposta. De acordo com o índice oficial de inflação do governo americano (U.S. Bureau of Labor Statistics), esse valor equivale a aproximadamente 244,5 mil dólares hoje (o que corresponde a cerca de 1,25 milhão de reais brasileiros pela taxa atual), o que é uma quantia considerável. No entanto, se tivessem escolhido a segunda opção, teriam ganhado muito mais.
Após o aperfeiçoamento do projeto brasileiro, a GM lançou a caixa de câmbio Hydra-Matic no final de 1939. Esta tecnologia estreou nos modelos Oldsmobile em 1940.
Hoje, a tecnologia inventada por este par de engenheiros é chamada de Caixa de Câmbio Automática Padrão (também pode-se encontrar o termo 'Conversor de Torque'). Desde a década de 1930, esta tecnologia sofreu mudanças significativas, mas sua base hidráulica permanece a mesma. Com o tempo, o sistema passou a ter controle por computadores e aumentou de quatro para seis, oito, nove ou até dez marchas.
Em conclusão, vale mencionar que o engenheiro mecânico José Brazo Araripe era tio-avô do escritor Paulo Coelho. Parte da história da invenção da caixa de câmbio automática está contida no livro 'O Alquimista', biografia do autor escrita pelo jornalista Fernando Moraes.



