Absinto: história, mitos e a controvérsia em torno da bebida destilada
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Absinto: história, mitos e a controvérsia em torno da bebida destilada

O absinto, uma bebida altamente controversa, tem uma história complexa marcada por tragédias, lendas e mudanças regulatórias. Um marco dramático ocorreu em 28 de agosto de 1905, quando Jean Lanfray, um camponês francês residente em Commugny, Suíça, agrediu sua esposa e suas filhas, e posteriormente tirou a própria vida. Após ser julgado por homicídio múltiplo, Lanfray cometeu suicídio na prisão três dias depois, em 26 de fevereiro de 1906.

Este evento chamou a atenção da imprensa internacional, não só pelo familicídio, mas também pelo estado mental do assassino. Os promotores sugeriram que o crime foi resultado de um caso clássico de loucura induzida pelo absinto. Uma petição mobilizou a sociedade suíça, resultando na proibição da bebida na região em menos de três meses, e essa proibição se tornou lei nacional em 1910. Incidentes similares de violência doméstica levaram à proibição do absinto em outros países europeus e nos Estados Unidos.

Embora Lanfray tivesse consumido várias bebidas alcoólicas, incluindo sete taças de vinho e seis doses de conhaque, o foco da demonização recaiu sobre as duas doses de absinto. Contudo, a má fama da bebida transcende a tragédia de Commugny, sendo alimentada por lendas e histórias de artistas perturbados.

A origem do elixir remonta a 1797, em Couvet, Val-de-Travers, Suíça. O médico francês Pierre Ordinaire criou a base da bebida, que é feita pela infusão de ervas em álcool, utilizando anis, funcho e Artemisia absinthium. Em 1805, Henri Louis Pernod, outro francês, iniciou a comercialização em grande escala, estabelecendo uma fábrica em Pontarlier, cidade francesa que se tornou um centro produtor de absinto.

Durante o século XIX, o absinto consolidou-se como uma das bebidas anisadas mais famosas. Pernod, através da marca Pernod Fils, construiu um vasto império de destilados. Com um teor alcoólico entre 45% e 75%, ele ganhou adeptos em França, Suíça e em outras nações, tornando-se um ícone cultural. Um aspecto cultural notável é o ritual de consumo tradicional: a dose é servida em uma taça pequena, coberta por uma colher perfurada contendo açúcar, e água gelada é adicionada lentamente, turvando o líquido, conhecido como a “fada verde”.

Essa turbidez é causada pelo “efeito louche”, característico de bebidas anisadas. Os óleos essenciais das ervas não se dissolvem na água, formando gotículas suspensas que dispersam a luz, deixando o líquido esbranquiçado, conferindo-lhe uma aparência sofisticada. No século XIX, o mercado envolvia não apenas produtores, mas também manuais e “professores de absinto”, oportunistas que davam aulas em bares decadentes.

A popularização histórica do absinto foi impulsionada pela invasão da Argélia pela França em 1830. As tropas consumiam a bebida como prevenção contra disenteria e malária, espalhando o hábito ao retornar. Isso levou à moda da “fada verde” nos cafés parisienses, marcando o início da era de ouro do absinto. Inicialmente, o consumo era moderado, concentrado no período da “hora verde”, entre 17h e 19h, considerado aceitável antes do jantar.

A situação mudou drasticamente após 1870, com a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana, que abalou o país. Na década seguinte, a praga da filoxera destruiu vinhedos, forçando os consumidores a procurar outras opções alcoólicas, o que impulsionou a popularidade do absinto entre as classes populares, que antes era mais elitista.

Artistas também se tornaram consumidores assíduos. O absinto passou a simbolizar a Belle Époque, associado a figuras como Oscar Wilde, Ernest Hemingway, Vincent van Gogh, Émile Zola e Arthur Rimbaud, embora também tenha contribuído para o alcoolismo de muitos artistas medíocres. Desde os anos 1850, o alcoolismo começou a ser visto como condição médica, e o consumo de absinto era tratado com maior seriedade.

Em 1903, a Academia Nacional de Medicina da França classificou o absinto como uma das substâncias mais perigosas, ligando seu consumo a alucinações, convulsões e insanidade. Políticos também o associaram à decadência nacional. O consumo era extremamente elevado: em 1874, os franceses consumiam 700 mil litros anuais, saltando para 36 milhões em 1910, superando a produção de todos os países juntos.

O crescimento das ligas antiálcool acelerou a transformação do absinto em inimigo público. Produtores de outras bebidas aproveitaram o discurso, contrastando o absinto como “veneno estrangeiro” com o vinho como produto genuinamente francês. Embora o Congresso tentasse regular o consumo por meio de impostos, nenhuma proibição foi aprovada, pois a tributação do absinto gerava rendas muito superiores às do vinho. Rod Phillips, historiador, aponta que governos não podiam abrir mão desses lucros.

O pretexto final para a proibição veio com a Primeira Guerra Mundial. Em agosto de 1914, a venda foi vetada sob o argumento de defesa nacional, visando proteger o povo francês dos danos do absinto e promover a disciplina. Em 1922, a legislação francesa permitiu bebidas similares, desde que fossem isentas de tujona, o componente químico suspeito de causar efeitos alucinógenos. Assim, o absinto entrou em décadas de ostracismo, sobrevivendo na clandestinidade em Neuchâtel, Suíça.

Na Suíça, os produtores de Val-de-Travers mantiveram a tradição, escondendo garrafas em locais estratégicos conhecidos como “fontes de absinto”, resistindo à proibição. Na fronteira francesa, o banimento foi mais rigorosamente cumprido. Estudos posteriores desmistificaram os perigos da tujona; um laboratório alemão concluiu que as taxas encontradas não eram suficientes para causar euforia. O Museu de Pontarlier esclarece que os estudos de risco se basearam em injeções cerebrais em camundongos, não refletindo o consumo humano. Phillips também afirma que não houve registro de taxas mais altas de insanidade nas regiões de maior consumo.

A conclusão majoritária é que os problemas de saúde estavam ligados ao consumo excessivo de álcool em geral. Em 2005, a Suíça revogou a proibição, e a França legalizou definitivamente em 2011. Atualmente, o absinto está crescendo globalmente, com um mercado projetado em US$ 318 milhões em 2025, e fabricantes já atuam no Brasil. As “fontaines froides” tornaram-se um atrativo turístico na fronteira franco-suíça.

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