Enquanto a África do Sul enfrenta a dura realidade da violência contra as mulheres, a trágica história da perda sublinha a necessidade urgente de medidas. Oito famílias procuram justiça enquanto o país reflete sobre seu relacionamento com a violência patriarcal. É hora de mudar.
Em eKhuruleni, as mulheres sentem medo ao se deslocarem em locais públicos — elas temem andar, correr, viajar ou simplesmente estar em espaços públicos. Em todo o país, mães ligam mais frequentemente para suas filhas, parceiros verificam se os entes queridos chegaram bem, e grupos de corrida são forçados a mudar de rota. As redes sociais estão repletas de luto, raiva, medo, avisos e especulações.
É necessário focar nas próprias mulheres, e não no barulho em torno de suas mortes. Devemos nomear as vítimas conhecidas e honrar a memória de cada vida, incluindo aquelas cujos nomes permanecem desconhecidos. Por exemplo, Elizabeth 'Ntso' Moselakgomo, que saiu para correr e não voltou para casa; ela era mãe, profissional, membro da igreja, corredora e uma pessoa com seus sonhos, deveres e entes queridos.
Ao mesmo tempo, é importante manter a objetividade. A polícia está investigando as oito mortes em eKhuruleni, mas ainda não foi estabelecido se uma única pessoa cometeu todos os crimes ou se todos os casos estão interligados. A justiça exige urgência, mas também precisa de fatos, pois boatos não podem substituir provas, e as redes sociais não são um tribunal.
A raiva é compreensível, pois testemunha a violação de algo sagrado e lembra que a vida não deve ser reduzida a estatísticas. No entanto, a raiva deve ganhar direção, transformando-se em defesa, justiça e mudança. Se permanecer apenas como fúria, acusação e ódio, esgota a energia sem mudar as condições que geraram a violência.
O medo também é uma experiência real, e as mulheres não devem ser envergonhadas por isso. No entanto, o medo não deve se tornar um estado permanente. O país não pode exigir que metade de sua população desapareça das ruas, desista de praticar esportes, mude de roupa, reduza viagens e organize sua vida em torno da violência masculina.
As mulheres devem estar seguras, mas isso não é suficiente; elas precisam de liberdade. Liberdade para correr ao amanhecer, liberdade para voltar do trabalho após escurecer, liberdade para dizer 'não', liberdade para deixar relacionamentos, liberdade para denunciar abusos e ser ouvidas, liberdade para ocupar ruas, parques, táxis, locais de trabalho, campi e casas, sem calcular constantemente a probabilidade de sofrer dano.
Este não é um problema apenas das mulheres; é um exame nacional do nosso caráter, nossas instituições e nossa humanidade. O patriarcado sobrevive transferindo às mulheres a responsabilidade de gerenciar a violência masculina. Ele faz perguntas: o que ela vestia, por que estava sozinha, por que confiou nele, por que ficou ou por que foi embora, ou por que falou. É preciso mudar o foco da pergunta para: por que ele a machucou? Quem ignorou os sinais de alerta? Que instituição falhou? O que os homens deveriam fazer de diferente?
Os pais devem ensinar aos meninos que amor não é propriedade. Os irmãos devem desafiar amigos que humilham mulheres. Os colegas devem parar de rir do assédio disfarçado de humor. Os líderes religiosos devem combater a violência em lares e instituições, em vez de proteger reputações. Os líderes políticos devem parar de transformar o sofrimento das mulheres em discursos antes de retornar aos assuntos normais.
Os homens não podem definir a virtude apenas com a frase 'Eu não agredo mulheres'; o verdadeiro teste é se eles intervêm na violência, contestam a misoginia, apoiam os sobreviventes, denunciam perigos e mudam as condições que promovem o crescimento da violência.
O grupo policial designado deve investigar cuidadosamente cada caso, informar a comunidade de forma responsável e manter as famílias informadas. As evidências devem ser protegidas e as pistas devem ser seguidas. Os culpados devem ser presos, responsabilizados e condenados dentro do devido processo legal. Mulheres que denunciam ameaças, perseguições, agressões ou desaparecimentos de parentes nunca devem ser ignoradas em um posto policial.
Os municípios devem realizar auditorias de segurança imediatas em conjunto com as mulheres: percorrer rotas que elas usam, verificar iluminação, áreas crescidas, edifícios abandonados, nós de transporte, câmeras e acesso para serviços de emergência. Eles são obrigados a eliminar fontes de perigo e publicar relatórios sobre o trabalho realizado, funcionários responsáveis e prazos de conclusão.
Cada distrito deve criar um pacto prático de segurança para mulheres com a participação de organizações da sociedade civil, polícia, autoridades municipais, escolas, clínicas, transportadoras, comunidades religiosas, corredores e empresas. Este pacto deve definir zonas problemáticas, organizar comunicação rápida, oferecer apoio aos sobreviventes e acompanhar a resolução dos problemas declarados. Deve ser um mecanismo ativo, e não mais uma reunião.
Grupos de corrida, acompanhantes e sistemas de verificação de chegada podem ajudar neste momento, mas são apenas medidas de emergência que não devem se tornar o preço permanente que as mulheres pagam pela participação na vida pública.
A agência das mulheres deve ser central. Expressar uma opinião é poder. Dizer 'não' é poder. Denunciar um incidente é poder. Organizar-se é poder. Apoiar outra mulher é poder. No entanto, não se deve confundir agência com responsabilidade pela prevenção da violência contra as mulheres. A responsabilidade recai sobre o infrator, e o dever de criar segurança é de todos nós.
Também é necessário preservar nosso diálogo nacional: compartilhar informações verificadas, e não imagens horríveis. Não se deve nomear suspeitos sem provas, transformar mulheres mortas em conteúdo ou atacar aqueles que fazem perguntas difíceis. As redes sociais podem mobilizar ajuda, mas também podem multiplicar medo, ódio e desinformação.
Existem mulheres corajosas na sociedade que organizam comunidades, confortam famílias, lideram instituições e se recusam a ficar em silêncio. Há homens dispostos a mudar e desafiar outros homens. Há vizinhos que buscam juntos, investigadores que seguem as provas, ativistas que exigem responsabilização e famílias que nos lembram constantemente de nossa humanidade.
Cura coletiva não significa esquecimento. Perdão não pode ser exigido das famílias enlutadas. Paz não é silêncio. Amor não é fraqueza diante de transgressões. Sem verdade não há cura, sem segurança não há paz e sem justiça não há reconciliação.
No entanto, apenas a justiça não será suficiente para erradicar as crenças que geram a violência. São necessárias mudanças mais profundas na forma como criamos meninos, entendemos o poder, resolvemos conflitos e valorizamos a vida. Força não é poder, controle não é amor. A violência não gera respeito; ela gera trauma, e o trauma não tratado é transmitido de geração em geração.
Que a amargura aprofunde nossa humanidade, que a raiva agudize nossa coragem, que a coragem organize as ações e que as ações criem ruas mais seguras, instituições responsivas, homens responsáveis e mulheres livres. Honramos essas mulheres quando recusamos a paralisia, o ódio e a inação. Honramos quando cada instituição cumpre seu dever e cada comunidade protege a vida. As mulheres não devem herdar nosso medo; elas devem herdar nossa liberdade.

