A década de 1940 marcou o auge da Era de Ouro de Hollywood nos Estados Unidos, quando as salas de cinema eram conhecidas como «palácios» devido ao seu tamanho grandioso. Contudo, com a ascensão da televisão na década seguinte, o mercado cinematográfico enfrentou uma crise, pois muitas pessoas passaram a preferir assistir a filmes em casa.
Diante da queda nas bilheterias, Hollywood buscou maneiras de tornar a ida ao cinema uma experiência singular. A principal estratégia envolvia aumentar a área de imagem projetada, utilizando telas mais panorâmicas e imersivas. Naquela época, tanto o cinema quanto a TV operavam no padrão 4:3 (ou 1,33:1).
Inicialmente, os filmes eram analógicos, gravados em película, sendo o padrão mais comum o 4 perf, onde cada quadro possuía 35 mm de largura e quatro perfurações. Essas perfurações serviam para que câmeras e projetores engatassem e fizessem o filme rodar verticalmente.
Com o 4 perf, os cineastas conseguiam capturar a proporção 1,33:1. Para melhorar isso, a película passou por modificações significativas. Em 1954, a Paramount introduziu o VistaVision (1,50:1), alterando a película de 35 mm de orientação vertical para horizontal, ampliando a imagem. No ano subsequente, Mike Todd inovou com o Todd-AO (2,20:1), que utilizava uma película mais larga, de 65 mm.
Como esses novos formatos não podiam ser reproduzidos em televisões, as telas de cinema começaram a se adaptar. As experimentações prosseguiram, como em 1967, quando Graeme Ferguson exibiu um documentário em 11 telas em uma feira no Canadá, e Roman Kroitor apresentou um filme em cinco telas simultâneas em formato de cruz.
No entanto, o conceito de multitelas mostrou-se pouco prático. Ferguson e Kroitor concluíram que a solução ideal para atingir o efeito desejado seria uma única tela gigantesca, o que levou ao surgimento da Multiscreen, hoje conhecida como IMAX (nome dado ao formato e à IMAX Corporation, responsável por ele).
A proposta do IMAX era girar a película de 65 mm na horizontal, resultando em uma proporção de 1,43:1. Essa definição equivale a 18K, dez vezes maior que um filme em 35 mm e três vezes maior que os filmes em 65 mm filmados verticalmente.
Um diferencial importante do IMAX é que, devido às suas dimensões, cenas capturadas em planos abertos se assemelham à percepção visual humana. Segundo o pesquisador e cineasta Pablo Savalla, em seu livro O Poder Esmagador do Cinema, esse aspecto gera imagens mais realistas e imersivas, mesmo que inconscientemente.
Atualmente, o IMAX oferece uma das melhores combinações de som e imagem disponíveis no mercado. Entretanto, seu desempenho está ligado à complexidade de manuseio: o uso de uma película tão grande exige uma câmera mais pesada, maior e mais dispendiosa.
Cada rolo de película IMAX dura apenas três minutos, contrastando com câmeras de 35 mm que podem rodar mais de dez minutos com o mesmo rolo. Além da dificuldade constante de troca de filme, há custos materiais elevados; estima-se que um minuto filmado em película IMAX possa custar US$ 2 mil.
Outro obstáculo histórico das câmeras IMAX é o ruído estridente gerado ao puxar a película enorme. Embora muitas câmeras analógicas sejam ruidosas, a maioria usa blimps, caixas de isolamento acústico. Por um longo período, não existia blimp para o IMAX, tornando inviável gravar imagem e som simultaneamente. Assim, o formato era restrito a produções que não necessitavam dessa captação conjunta, como documentários de natureza.
Durante as décadas de 1970 e 1980, sem apelo comercial em Hollywood, o IMAX encontrou nicho em museus e instituições culturais, com a construção de salas sob medida nos Estados Unidos e no Canadá.
Devido à sua proporção ampliada, exibir filmes IMAX em salas convencionais implica perder grande parte da área extra de imagem. Enquanto uma sala comum possui 20 metros de largura por 12 metros de altura, as salas IMAX têm, no mínimo, 22 metros de largura por 16 metros de altura, podendo ser ainda maiores, ultrapassando 35 metros de largura.
A IMAX Corporation supervisiona rigorosamente todas as salas IMAX, que devem cumprir padrões de qualidade específicos. As telas são ligeiramente curvas para potencializar a imersão, e a empresa possui um sistema de som exclusivo, além de um projetor dedicado para rodar a película de 70 mm (a película de 65 mm recebe 5 mm adicionais na pós-produção para a trilha sonora).
A chegada do cinema digital na década de 1990 alterou a dinâmica do mercado. A nova tecnologia possibilitou câmeras mais leves, de alta qualidade e silenciosas, tornando-se rapidamente mais acessível. Com a indústria prestes a abandonar as películas, o IMAX precisou se adaptar.
Sob a gestão de novos investidores, a empresa convenceu estúdios de Hollywood a filmar blockbusters em IMAX, apesar do alto custo tecnológico e da limitação de salas adequadas. A solução foi investir em adaptações para formatos digitais. Em 2002, surgiu o IMAX DMR (Digital Media Remastering), que permite converter qualquer filme, seja ele digital ou em película 35 mm, para o formato IMAX 70 mm.
Assim como a TV impulsionou novos formatos nas telas de cinema, o DMR permitiu à empresa expandir. A exibição de sucessos como Apollo 13, Star Wars, Matrix e Harry Potter em IMAX incentivou a abertura de novas salas. Em setembro de 2007, já havia 296 salas IMAX operando em 40 países.
Nem todos aceitaram a mudança para o digital. Diretores como Steven Spielberg, Quentin Tarantino, Christopher Nolan e Paul Thomas Anderson mantiveram a preferência pela película. Esse apego tem fundamentos técnicos: a imagem digital é formada por pixels fixos, enquanto a base da película consiste em grãos de prata que registram a imagem quimicamente ao contato com a luz, apresentando milhões de grãos de tamanhos variados distribuídos aleatoriamente.
O grão confere à filmagem uma estética mais orgânica em contraste com a precisão do digital, o que é visto como uma vantagem por muitos artistas. Luiz Gonzaga De Luca, ex-presidente da Cinépolis no Brasil, afirmou que «a película tem uma coloração, uma forma de retratar as coisas totalmente diferente. Há um purismo, uma questão de precisão de movimento e textura. De fato, é uma questão cultural, mas ter uma imagem com grão é uma preciosidade que todo mundo adora».
Contudo, muitos cineastas optam pelo digital devido à facilidade de uso e menor custo. Marcelo Lima, consultor da indústria do cinema e fundador da Expocine, argumenta: «Eu concordo com a superioridade de filmar em películas a partir de 70 mm. Mas, além disso, acho que filmar em película é um pouco de saudosismo, de não se render à tecnologia». Ele ressalta que «um filme feito com um bom fotógrafo e time de produção é o que importa. [...] A realidade é que a gente precisa contar histórias a um custo razoável para que o mercado funcione».
É importante notar que os projetores digitais trouxeram benefícios ambientais (eliminando o transporte de toneladas de filmes) e para os funcionários. Nas décadas de 1970 e 1980, os projetores de película no Brasil causavam acidentes de trabalho por usarem bastões de carvão, que geravam um arco elétrico luminoso; estes foram substituídos por lâmpadas, reduzindo acidentes, mas mantendo a dificuldade operacional.
Christopher Nolan, grande defensor do cinema analógico, adotou o IMAX como favorito. Em 2008, ele gravou 28 minutos de Batman: O Cavaleiro das Trevas em câmeras IMAX para a Warner Bros., sendo um dos primeiros blockbusters filmados no formato, o que aumentou a visibilidade da empresa.
Nolan influenciou outros diretores a usar IMAX, aplicando a tecnologia em grande parte de seus filmes, especialmente em cenas de ação com pouco diálogo. O uso deste grande formato visa atrair o público de volta aos cinemas, replicando o fenômeno dos anos 1950, embora hoje a TV tenha um concorrente ainda mais forte nos streamings. A aposta do IMAX reside no tamanho da tela e na imersão para garantir a escolha do espectador.
Nolan rompeu contrato com a Warner após a empresa decidir lançar estreias simultâneas no cinema e no streaming em 2021, migrando para a Universal e filmando 70% de Oppenheimer (2023) em IMAX.
Para realizar o projeto de filmar A Odisseia integralmente em IMAX, foi necessário resolver a questão do som. A IMAX, em colaboração com Nolan, desenvolveu a câmera Keighley, mais leve e 30% mais silenciosa. Contudo, para gravar cenas com áudio, foi criado um blimp, a caixa de isolamento que eliminou definitivamente o ruído.
A estreia de A Odisseia ocorreu em julho, com quase três horas de duração, e sua bilheteria ultrapassou US$ 1 bilhão em setembro. No entanto, a maioria do público não assistiu ao filme conforme planejado por Nolan.
Em 1967, o IMAX foi criado no Canadá. Atualmente, apenas 41 salas IMAX no mundo possuem projetores analógicos de 70 mm, atingindo a proporção 1,43:1 e 18K de resolução. As outras salas IMAX utilizam projetores digitais, com proporção de 1,90:1, o que corta parte do enquadramento original.
No Brasil, todas as 12 salas IMAX são digitais. Assistir a A Odisseia em Los Angeles custa US$ 30 (cerca de R$ 150), enquanto em uma sala IMAX digital em São Paulo, um sábado custa cerca de R$ 90.
Marcelo Lima comenta que «Fazer um filme em IMAX custa muito caro. Ter salas IMAX, também. Alguém tem que pagar a conta de algum modo e, por isso, o ingresso é mais caro».
Especialistas preveem aumento na demanda por telas maiores após A Odisseia, mas a abertura de novas salas no Brasil não será imediata. O custo de implantar uma sala IMAX é ainda maior no Brasil e em outros países latino-americanos devido ao valor do dólar. Além disso, a operação funciona como uma franquia, exigindo que o exibidor siga regras da IMAX, incluindo a programação e o repasse de receita.
Lima conclui: «O IMAX é um bom atrator de público, mas, do ponto de vista de retorno econômico, é arriscado». Ele acrescenta que «Todas as soluções de IMAX no Brasil tiveram algum subsídio, seja uma parceria com o próprio shop--ping ou algum patrocinador. Abrir uma sala IMAX hoje é uma conta que não se fecha. Lógico, A Odisseia fez a coisa crescer, mas a realidade é que o custo de implantação não cobre o resultado».
