Este artigo faz parte da série "Tecnologias brasileiras que mudaram o mundo", disponível apenas para assinantes do Clube Olhar Digital. Muitas vezes, buscas na internet sobre a origem da máquina de escrever podem não apontar para o Brasil, ou apenas mencioná-lo em notas de rodapé, pois boas ideias podem surgir no país, mas não prosperar devido ao contexto.
O padre paraibano Francisco João de Azevedo (1814-1880) foi o responsável por inventar inicialmente a máquina taquigráfica. Este dispositivo registrava textos de maneira abreviada, utilizando códigos. Posteriormente, após realizar modificações nesse aparelho, ele desenvolveu a máquina de escrever. Contudo, os créditos finais foram atribuídos ao inventor norte-americano Christopher Latham Sholes.
Por essa razão, Azevedo é frequentemente incluído, juntamente com o padre Landell de Moura (relacionado ao rádio) e Santos Dumont (relacionado ao avião), na lista de inventores brasileiros que não receberam o devido reconhecimento. A questão central é entender o que ocorreu nesse processo.
O padre concebeu o mecanismo na oficina do Arsenal de Guerra de Pernambuco, localizado em Recife. Ele adaptou um teclado de piano para que as teclas pudessem imprimir letras no papel e adicionou um pedal para permitir a mudança de linha.
Assim como qualquer invenção, este aparato surgiu com o objetivo de simplificar aspectos da vida de seu criador. No caso de Azevedo, a máquina taquigráfica — que evoluiria para a máquina de escrever — foi criada para registrar falas com maior celeridade, sendo a primeira a operar de fato.
Em 1861, o padre levou seu equipamento para a Exposição Nacional realizada no Rio de Janeiro, onde atraiu grande interesse. O invento permaneceu em exposição por 44 dias, e Azevedo foi um dos nove participantes a receber uma medalha de ouro pelo seu trabalho, competindo contra 1.136 outros inventores.
O padre desejava levar sua máquina para a Exposição Universal de Londres em 1862, mas o governo brasileiro negou a permissão, alegando insuficiência de espaço no navio. O que conseguiu chegar à Europa vindos do Brasil foram apenas matérias-primas e ferramentas básicas.
Sem recursos financeiros para registrar a patente ou iniciar a produção em larga escala no Brasil, Azevedo entregou o protótipo, ou seus desenhos técnicos (o que não é confirmado), a um comerciante estrangeiro por volta de 1872. Havia a expectativa de que esse negociante conseguisse investidores nos Estados Unidos.
É neste ponto que Christopher Latham Sholes, o americano, entra na narrativa. De modo curioso, o tipógrafo apresentou, em 1873, um modelo que era quase idêntico ao desenvolvido pelo padre paraibano para a fábrica de armas Remington. Esta empresa, diferentemente, possuía as condições necessárias para fabricar e distribuir a máquina de escrever globalmente, o que efetivamente aconteceu.
Francisco João de Azevedo faleceu em 1880 sem que seu invento fosse reconhecido ou patenteado. Em contraste, o americano, Christopher Latham Sholes, é amplamente conhecido como o inventor da máquina de datilografia.


