Mudanças climáticas na Ásia Central afetam a saúde da população através de ondas de calor, doenças e escassez de água
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Mudanças climáticas na Ásia Central afetam a saúde da população através de ondas de calor, doenças e escassez de água

Pesquisas realizadas em comunidades rurais do Quirguistão identificaram quatro grupos de riscos à saúde potencialmente ligados às mudanças climáticas. Esses riscos incluem estresse térmico, doenças cardiovasculares, respiratórias, zoonóticas, bem como infecções transmitidas pela água e alimentos. Os pesquisadores alertam que a ligação entre esses fenômenos nem sempre é direta, mas as mudanças na temperatura, precipitação, estado dos geleiras e disponibilidade de água já estão transformando o ambiente onde surgem ameaças à saúde.

As mudanças climáticas na Ásia Central deixam de ser uma questão exclusivamente ecológica, energética ou agrícola; elas começam a ter um impacto direto na saúde pública. Isso ocorre devido ao calor extremo, à escassez de água, às mudanças no estado dos pastos, à disseminação de poeira e alérgenos, e à interação entre humanos e animais domésticos e selvagens, afetando a segurança alimentar.

Os resultados preliminares de um grande estudo, abrangendo comunidades rurais e pastoris do Quirguistão, foram apresentados em 15 de setembro em Bishkek, na Segunda Conferência Regional sobre o conceito de 'Saúde Única' (One Health). O projeto CCHALKK investiga como as mudanças climáticas afetam a saúde das pessoas em áreas rurais e como esses processos se relacionam com os recursos naturais, a produção pecuária e o meio ambiente.

Na primeira fase do estudo, foram examinados 13 locais nas regiões de Batken, Issyk-Kul, Jalal-Abad, Naryn, Osh e Talas. Participaram do estudo 453 pessoas, além de terem sido realizados 145 entrevistas e grupos focais. Entre os participantes estavam especialistas médicos e veterinários, proprietários de gado, especialistas em água e pastagens, representantes de comunidades rurais e especialistas em vida selvagem.

Mais quente, mais seco e menos previsível

Participantes de diferentes regiões relataram mudanças climáticas semelhantes: o verão tornou-se mais quente, os dias de calor extremo tornaram-se mais frequentes, as chuvas tornaram-se irregulares, os invernos mais curtos e a cobertura de neve mais incerta.

Os recursos hídricos tornaram-se um problema separado. Os participantes notaram o rápido derretimento das geleiras, cujos sinais, segundo eles, aceleraram particularmente nos últimos cinco anos. Algumas comunidades já enfrentam ameaças ou consequências para a segurança hídrica, especialmente na parte inferior das bacias hidrográficas.

No entanto, os pesquisadores não estavam interessados apenas em como o clima está mudando, mas também nos caminhos pelos quais essas mudanças podem afetar a saúde humana. Quatro amplos grupos de risco foram preliminarmente definidos: estresse térmico e insolação, doenças cardiovasculares, doenças respiratórias e a alteração na distribuição de zoonoses, vetores e infecções hídricas/alimentares.

Os autores enfatizam uma condição importante: nem toda mudança observada na incidência de doenças pode ser atribuída unicamente ao clima. A saúde é simultaneamente influenciada por infraestrutura, condições socioeconômicas, qualidade e acesso aos cuidados de saúde e muitos outros fatores. Portanto, os dados obtidos permanecem preliminares e apontam para ligações potenciais que requerem verificação adicional com dados quantitativos.

Do calor extremo ao coração e aos pulmões

O calor extremo representa um dos caminhos de influência mais óbvios. Os pesquisadores registraram relatos de aumento de casos de estresse térmico e insolação. Em algumas comunidades, os participantes também relataram exacerbações de problemas cardiovasculares, incluindo hipertensão e derrames.

A cadeia de eventos potencial é bastante simples: o aumento no número de dias de calor extremo e o aumento da temperatura média do verão criam uma carga adicional no organismo humano, enquanto a escassez de água pode aumentar ainda mais a vulnerabilidade da população. De acordo com as conclusões preliminares do projeto, os problemas cardiovasculares podem afetar uma faixa etária mais ampla, incluindo trabalhadores ao ar livre, moradores rurais e até estudantes.

A ligação com doenças respiratórias é mais complexa. As mudanças na temperatura e na precipitação podem afetar o solo e os pastos. A degradação do solo, a perda de umidade no solo, a mudança na vegetação e o aumento da quantidade de poeira suspensa criam um conjunto adicional de irritantes. Por isso, os pesquisadores estão estudando a possibilidade de agravamento de alergias, asma e outras doenças respiratórias infecciosas e não infecciosas. Essa cadeia começa muito além do hospital: clima — água e pastos — solo e vegetação — poeira e alérgenos — saúde humana.

Quando a água em declínio se torna um problema de saúde

A interconexão entre clima, água e doenças infecciosas é ainda mais multifacetada. A redução da disponibilidade de água para agricultura e necessidades domésticas pode intensificar a competição por fontes de água entre humanos e animais. Simultaneamente, a degradação dos pastos e a mudança nos padrões de pastoreio aumentam o contato entre o gado doméstico e a vida selvagem.

Condições climáticas extremas criam outro caminho de risco: inundações e tempestades podem contaminar águas subterrâneas, colheitas e produtos alimentícios. Assim, as mudanças climáticas podem potencialmente alterar as condições de propagação de infecções hídricas e alimentares, bem como de infecções transmitidas por animais ou vetores aos seres humanos.

A esquistossomose serve como um exemplo ilustrativo. Em 5 dos 13 locais estudados, ou aproximadamente 38% dos casos, os participantes relataram que a incidência não diminuiu ou até aumentou. No entanto, os autores não interpretam isso como prova de causalidade com o clima; em vez disso, veem isso como um sinal que requer análise adicional. É importante entender que o clima raramente causa doenças por si só; em vez disso, ele altera as condições em que a água, os humanos, os animais, os vetores de doenças e os sistemas de saúde interagem.

O calor também afeta a segurança alimentar

Outra apresentação na conferência, feita pela epidemiologista Jamila Silemonshoeva, abordou outro possível caminho de influência do clima na saúde: a segurança alimentar. Seu estudo é uma revisão analítica de publicações de 2016 a 2026, que examina simultaneamente a saúde humana, animal e ambiental.

De acordo com a revisão, altas temperaturas podem acelerar a proliferação de patógenos alimentares, o estresse térmico enfraquece a imunidade do gado, e o aquecimento da água e a seca criam riscos adicionais ao longo de toda a cadeia alimentar. Os riscos também se estendem aos lares comuns. Durante períodos de calor intenso, a temperatura dentro das geladeiras domésticas pode subir para 7–10°C em vez dos 2–6°C recomendados, e a validade dos alimentos pode diminuir em dois ou três vezes, de acordo com os dados apresentados na revisão.

As medidas de resposta propostas incluem vigilância epidemiológica reforçada nas fazendas e nos sistemas de abastecimento de água, manutenção da cadeia de frio e adaptação das normas sanitárias às condições climáticas da região.

Política climática torna-se política de saúde

O estudo preliminar ainda não permite reduzir as mudanças climáticas e os padrões de doenças a uma fórmula simples de causa e efeito. Ele demonstra algo diferente: a fronteira entre a política climática e a política de saúde está cada vez mais tênue. Temperaturas mais altas podem causar estresse térmico. A redução da disponibilidade de água pode alterar os padrões de pastoreio e concentrar os animais em torno das fontes de água restantes. A degradação do solo pode aumentar a quantidade de poeira e alérgenos. A mudança nos padrões de contato entre humanos, gado e vida selvagem pode alterar os riscos de doenças infecciosas.

Os pesquisadores sugerem analisar dados de saúde pública paralelamente aos indicadores meteorológicos e ambientais, realizar mapeamento de riscos e integrar mais estreitamente o planejamento de saúde com a gestão de recursos hídricos, pastagens e outros recursos naturais. Para a Ásia Central, isso marca uma mudança importante: a adaptação às mudanças climáticas está gradualmente passando de uma questão de água, energia e agricultura para uma questão de saúde.

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