Lito Sousa tornou-se a primeira pessoa no mundo a receber o teste da substância experimental ALN-6457, como uma tentativa de tratamento para a doença de Creutzfeldt-Jakob. De acordo com sua esposa, Mila Seidl, ele permanece na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), apresentando estabilidade e sem manifestar reações após a administração do produto.
Atualmente, o ALN-6457 ainda não foi submetido a ensaios clínicos em seres humanos. A equipe médica planeja monitorar possíveis alterações no quadro clínico através de exames realizados ao longo das próximas seis semanas.
Este composto é desenvolvido pela Regeneron, sediada nos Estados Unidos, em colaboração com a Alnylam Pharmaceuticals. É importante notar que o produto ainda carece de estudos clínicos completos, e os dados existentes são apenas preliminares.
A tecnologia empregada utiliza uma molécula denominada siRNA, cuja função é interferir no RNA mensageiro responsável por fornecer as instruções para a produção da proteína priônica. Na condição de Creutzfeldt-Jakob, essa proteína pode adquirir uma conformação anômala, causando danos cerebrais.
A abordagem terapêutica visa reduzir a quantidade dessa proteína. Teoricamente, uma diminuição da proteína priônica resultaria em menos material disponível para formar as versões desnaturadas da proteína.
O acesso ao medicamento foi concedido por meio do chamado uso compassivo, um mecanismo que possibilita a pacientes com enfermidades graves, incapacitantes ou que representam risco de vida receberem produtos experimentais na ausência de alternativas terapêuticas eficazes.
Desafios na entrega ao cérebro
Um dos obstáculos significativos é a dificuldade de fazer a substância atingir o cérebro, visto que a barreira hematoencefálica restringe a passagem de muitos compostos. Além disso, o siRNA deve manter sua funcionalidade após penetrar nas células. O especialista em pesquisa clínica Daniel Dahis explicou que «não basta chegar ao cérebro e entrar na célula. Uma vez lá dentro, a molécula ainda precisa resistir para se manter funcional. Ela cai dentro de uma espécie de bolha ácida, que a própria célula usa para digerir o que entra ali — e se não resistir a esse ambiente, é destruída antes de fazer efeito».
Para auxiliar o siRNA a transpor a membrana celular, a tecnologia incorpora uma cadeia lipídica conhecida como C16.
Não existe nenhum estudo clínico do ALN-6457 que permita avaliar seus efeitos em pessoas. Em experimentos prévios realizados em camundongos, foi registrada uma redução de aproximadamente 15% no RNA mensageiro ligado à produção da proteína priônica, mesmo na menor dose testada. Este resultado demonstra que a estratégia conseguiu interferir no mecanismo, mas não permite afirmar que a doença será interrompida, nem há provas de benefício clínico ou aumento da sobrevida em humanos.
Até o momento, os achados indicam que se trata de uma terapia que, em tese, diminui a produção da proteína priônica. Daniel Dahis, especialista em pesquisa clínica, considera que isso «é um indicativo de que a estratégia pode valer a pena ser investigada, especialmente diante de uma doença que hoje não tem tratamento capaz de interromper sua progressão. Mas isso, claro, sempre considerando as incertezas de segurança e uma avaliação individual de risco-benefício».
Os dados mais conhecidos incluem que, em testes anteriores em animais, não foram observadas alterações relacionadas à substância em avaliações neurológicas ou de órgãos. Contudo, esses estudos eram preliminares e de curta duração. Lito continua internado na UTI, e os próximos exames deverão auxiliar na avaliação do impacto da aplicação.

