Novo modelo computacional do Inpe visa aprimorar a precisão das previsões meteorológicas no Brasil
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Novo modelo computacional do Inpe visa aprimorar a precisão das previsões meteorológicas no Brasil

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) implementou um modelo computacional de previsão do tempo denominado Modelo para Previsões de Oceano, Terra e Atmosfera (Monan). Este sistema começou a operar neste mês, utilizando o supercomputador Jaci, localizado no data center do órgão em Cachoeira Paulista, São Paulo.

O Monan será introduzido gradualmente para substituir o sistema anterior de previsões do Inpe, conhecido como Brazilian Global Atmospheric Model (BAM). Segundo informações fornecidas pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o novo modelo elevará a exatidão das previsões brasileiras ao nível de agências internacionais como o Serviço Nacional de Meteorologia do Reino Unido (UK Met Office), a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) e o Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA (NWS).

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Saulo Ribeiro Freitas, físico e pesquisador que chefia a Divisão de Modelagem Numérica do Sistema Terrestre (DIMNT) no Inpe, foi entrevistado sobre o Monan. Freitas liderou o desenvolvimento deste modelo, que já está operacional. Uma equipe de operações do Inpe assegura a emissão das previsões duas vezes diariamente, às meia-noite e ao meio-dia, com capacidade de projeção de até dez dias.

Este projeto representa um esforço iniciado há quatro anos e incorpora várias inovações. Entre elas, destaca-se o caráter comunitário do Monan, que inclui a colaboração de universidades e institutos de ciência e tecnologia brasileiros. Além disso, ele funciona como um modelo unificado, capaz de suprir diferentes escalas de tempo e espaço relevantes para a informação meteorológica, atraindo também o interesse de entidades fora do Brasil, incluindo América Latina, América Central e Caribe.

Vantagens de possuir um modelo nacional

O Inpe baseou seu desenvolvimento em modelos estrangeiros, notadamente os do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), que foram aprimorados ao longo dos anos. Atualmente, o Inpe utiliza um modelo próprio que capitaliza mais de trinta anos de experiência para criar um sistema mais moderno e integrado. Este único modelo pode gerar diversos produtos climáticos e meteorológicos: previsão de tempo severo, previsões de curto prazo (próximas horas), médio prazo (cinco a dez dias), previsão sub sazonal (trinta dias) e previsão sazonal (próxima estação).

Cada um desses produtos atende a públicos específicos. Por exemplo, a previsão sazonal é crucial para a agricultura e para a gestão de recursos hídricos e energéticos. Já a previsão de médio prazo beneficia a população em geral e a Defesa Civil, auxiliando na prevenção e mitigação de desastres naturais causados por fenômenos atmosféricos.

Desafios no desenvolvimento do modelo

Sobre o tempo de desenvolvimento de quatro anos, Freitas explicou que o processo foi relativamente rápido, considerando a complexidade da modelagem atmosférica. A previsão do tempo é classificada como um dos desafios tecnocientíficos mais difíceis da humanidade devido ao comportamento caótico da atmosfera, tornando a representação detalhada de seus movimentos e evolução extremamente complexa. Construir um modelo preciso e fisicamente realista exige um grande envolvimento da divisão de modelagem, contando com mais de 35 profissionais com doutorado.

Este período de três a quatro anos é considerado padrão para centros meteorológicos globais desenvolverem versões aprimoradas de modelagem. Os modelos são escritos em linguagem computacional para rodar em supercomputadores e fornecer previsões em tempo hábil; o código de tais modelos pode atingir um milhão de linhas, demonstrando sua alta complexidade, comparável ao desenvolvimento de um satélite.

A complexidade da previsão do tempo é equiparada à simulação do cérebro humano. Do ponto de vista matemático, trata-se do problema de condição inicial: embora as regras matemáticas de evolução atmosférica sejam conhecidas, é necessário saber o estado atual da atmosfera para projetar o futuro. Isso implica conhecer temperatura, umidade e velocidade do vento em todos os pontos do planeta.

Este levantamento de dados é realizado por uma vasta constelação de satélites lançados pelos países mais avançados, que monitoram propriedades termodinâmicas e enviam medições para centrais de processamento. Adicionalmente, uma extensa rede de estações de superfície coleta dados de temperatura, pressão, umidade e vento globalmente. Toda essa imensa quantidade de dados é processada para criar uma 'fotografia' da atmosfera atual, que é então inserida no modelo matemático rodando no supercomputador, gerando sucessivas imagens futuras.

Após a geração da previsão, que é um volume massivo de dados, os meteorologistas interpretam e divulgam os boletins, sendo os veículos de comunicação responsáveis pela distribuição final. Freitas ressaltou que essa rotina diária depende de uma infraestrutura colossal, englobando satélites, supercomputadores, tráfego de dados internacional e cinquenta anos de pesquisa científica.

O novo modelo promete maior precisão e confiabilidade. O avanço principal é uma resolução quatro vezes superior ao modelo anterior do CPTEC, que operava em grades de 20x20 quilômetros, passando para 10x10 quilômetros. Essa melhoria aumenta a acurácia espacial na localização de eventos e na estimativa de precipitação, além de permitir previsões de maior qualidade em horizontes temporais mais longos.

Freitas esclareceu que os modelos são inerentemente imperfeitos, pois a simulação perfeita da atmosfera é impossível, e a qualidade da previsão decai com o aumento do horizonte de tempo. Contudo, o Marco alcançado após quatro anos resulta em um produto mais preciso do que o disponível atualmente em dispositivos móveis.

Próximos passos do Monan

O desenvolvimento da previsão do tempo é uma trajetória de evolução contínua de quase cem anos, marcada por ganhos de desempenho constantes. Freitas enfatizou que este é um processo contínuo ('work in progress'), pois, apesar dos aprimoramentos em observação, modelo e computação, imperfeições persistirão.

Atualmente, o Monan entrega previsões de médio prazo, cobrindo até dez a quinze dias. No entanto, há planos para disponibilizar novos produtos em diferentes escalas temporais. As previsões sub sazonais (30 dias) e sazonais (três meses) ainda estão em fase de desenvolvimento e devem ser entregues à sociedade no prazo de dois anos, conforme cronograma. O projeto Monan, iniciado em 2022, tem uma duração total de dez anos, estendendo-se até 2031, quando se espera ter um modelo completo capaz de fornecer desde previsões de chuvas torrenciais para as próximas seis horas.

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As projeções mais recentes do CPC/NOAA indicam que o fenômeno El Niño possui mais de 90% de probabilidade de atingir uma intensidade muito forte entre setembro e novembro de 2026. Este evento climático deve influenciar o padrão de chuvas e manter as temperaturas acima da média em grande parte do território brasileiro.

Um boletim emitido pelo Inmet aponta que a primavera deve apresentar chuvas mais intensas na região Sul, enquanto o Norte e o Nordeste devem experimentar um tempo mais seco. Em locais com estiagem, há um aumento potencial no risco de ocorrência de queimadas.

Distribuição das chuvas e calor

A variação na distribuição das precipitações será significativa pelo país. O Rio Grande do Sul, partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul estão entre as áreas com maior probabilidade de receber volumes de chuva superiores à média histórica.

Em contrapartida, as regiões Norte e Nordeste devem registrar menor volume de chuva. Essa condição de menor precipitação também é esperada em trechos do Brasil Central e do Sudeste, abrangendo Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo.

O calor deve ser predominante na maior parte do país, embora setembro ainda possa trazer quedas abruptas de temperatura devido à chegada de massas de ar frio.

A maior apreensão reside nas regiões Norte e Centro, pois a combinação de altas temperaturas e períodos prolongados de seca pode favorecer a disseminação de focos de incêndio. Esse risco se acentua caso o início da estação chuvosa seja postergado.

Na Amazônia Legal e no Pantanal, o período de setembro a novembro é tradicionalmente quando as chuvas começam a retornar após a estação seca. Contudo, a intensidade e a duração do El Niño neste ano podem adiar essa mudança climática.

As previsões sinalizam pouca chuva em Amapá, Roraima, Pará, Maranhão, Amazonas, Acre, norte de Mato Grosso, além de áreas de Tocantins e Rondônia. Simultaneamente, o calor deverá permanecer acima da média em toda a região.

Caso a chuva atrase sua chegada, a seca pode progredir durante a primavera. Com o solo mais seco e a vegetação desidratada, as condições tornam-se mais propícias à propagação do fogo.

Pesquisadores da NOAA alertam que a intensidade do El Niño, por si só, não define a magnitude dos impactos no país; todavia, quanto mais forte ele for, maior será a probabilidade de eventos extremos.

Perspectivas climáticas futuras

Para os meses vindouros, o comportamento climático exige atenção contínua. Alterações nas condições previstas podem exacerbar a seca e o calor em certas localidades ou, inversamente, elevar o perigo de inundações e tempestades no Sul.

Este monitoramento é fundamental para antecipar as regiões mais vulneráveis a eventos climáticos extremos durante a primavera.

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O fenômeno El Niño está progredindo com uma velocidade inédita neste ano. O aquecimento acelerado e atípico das águas do Oceano Pacífico levanta um alerta global sobre o potencial de se tornar um “Super El Niño”, o que pode modificar drasticamente o clima no Brasil, gerando secas severas em certas regiões e tempestades intensas e ondas de calor em outras.

Para detalhar os impactos e a ciência por trás deste cenário, o programa Olhar Espacial, na última sexta-feira (21), recebeu a meteorologista Ana Cristina Palmeira. Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a pesquisadora é especializada em meteorologia marítima e na interação entre oceanos e atmosfera.

Durante a entrevista, ela esclareceu que o Oceano Pacífico funciona como o principal motor do clima mundial. Normalmente, os ventos alísios direcionam a água quente para o lado oeste do oceano. Contudo, quando esses ventos enfraquecem, o calor acumulado se move em direção à costa da América do Sul, alterando os padrões de temperatura e chuva globalmente. A especialista enfatizou que esta mudança ocorre em uma camada profunda, comparável a uma piscina, representando um vasto reservatório de energia, e que a migração para leste reverte completamente o mecanismo de ascensão e descida do ar.

Ana Cristina destacou que qualquer alteração no imenso Oceano Pacífico gera repercussões planetárias. Os dados que comprovam a intensidade do evento são obtidos por meio de medições realizadas com boias e sensores submersos. Ela alertou que, embora variações atmosféricas sutis passem despercebidas, uma modificação no oceano é algo extremamente energético e preocupante. As observações atuais indicam uma “onda de febre” no mar, mostrando que a taxa de aquecimento é consideravelmente mais rápida que em eventos anteriores.

Esta grande transformação na circulação atmosférica divide o território brasileiro em dois extremos climáticos violentos. Nas áreas Norte e Nordeste, o movimento descendente do ar impede a formação de nuvens e bloqueia o regime normal de precipitação. O efeito direto dessa estiagem prolongada é o agravamento das secas, a carência hídrica, o aumento rápido dos focos de queimadas e a ocorrência de ondas de calor mais frequentes e intensas.

A situação preocupa profundamente a bacia amazônica, visto que o nível dos rios pode cair criticamente. A meteorologista relembrou ocasiões passadas em que o fenômeno secou rios inteiros na região. A diminuição da água afeta o transporte fluvial, isola populações ribeirinhas e prejudica seriamente o suprimento local, evidenciando o grande impacto socioeconômico do Brasil devido às suas dimensões continentais.

Clima oposto no Sul do país

No Sul do país, o comportamento climático é diametralmente oposto. A retenção de frentes frias e o bloqueio da umidade resultam em tempestades volumosas, contínuas e intensas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Além das intempéries terrestres, o litoral sulista fica exposto a ciclones extratropicais e fortes ressacas marinhas, o que eleva a altura das ondas e causa sérios problemas nas zonas costeiras e na navegação.

Essa agitação atmosférica se estende ao continente gelado por meio de conexões globais de ar. Ana Cristina explicou que o fenômeno modifica a circulação até na Antártica. Ela mencionou que, em eventos anteriores, essa mudança nos ventos causou o represamento e o aumento da camada de gelo no Estreito de Drake, o que impossibilitou a navegação de navios brasileiros sem capacidade de quebra-gelo, afetando o planejamento de pesquisas científicas e a rotina das expedições polares no continente.

O contraste térmico entre diferentes massas de ar introduz um risco adicional no interior brasileiro: a formação de tornados. O encontro do ar frio que vem atrás das frentes frias com a massa quente e úmida favorece o surgimento de supercélulas de tempestade. Este cenário cria condições ideais para vendavais destrutivos no Sul e em partes do Sudeste, atingindo locais como o oeste de São Paulo.

A especialista alertou que o tornado é o fenômeno mais destrutivo da atmosfera, podendo apresentar ventos que chegam ao dobro da velocidade de um furacão. Segundo ela, o El Niño potencializa este quadro ao situar uma área de tempestades próxima a uma zona de calor extremo; é nessa fronteira entre os dois blocos de ar que surgem as nuvens violentas capazes de gerar tornados.

Diante dessas previsões graves, a pesquisadora reforçou a importância de valorizar o conhecimento científico e acatar os avisos de prevenção. O monitoramento constante permite antecipar desastres e preservar vidas humanas frente a eventos extremos. Ela concluiu pedindo que a população preste atenção aos alertas, instruindo a obedecer a qualquer aviso emitido pela Defesa Civil ou sinalizado por sirenes, pois a vida está em risco.

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