O convite para Kevin Pietersen retornar ao time da Inglaterra gera discussões: é um movimento brilhante ou pode se tornar uma fonte de sérios problemas. O treinador da seleção inglesa em jogos de teste, Joe Root, e o ex-capitão Kevin Pietersen foram apresentados juntos.
Brandon McCullum saudou o novo membro, destacando que o desejo de alguém com tanta experiência, conhecimento e status de participar do trabalho da equipe é um 'resultado fantástico'. No entanto, essa conquista parece surpreendente, considerando a experiência anterior.
Kevin Pietersen, que a England and Wales Cricket Board (ECB) tentou excluir por uma década, retornou à Inglaterra como especialista mentor para bolas brancas. Sua tarefa é preparar a equipe para a Copa do Mundo de 2027, que será realizada na África do Sul, Zimbábue e Namíbia.
Pietersen, em sua declaração sobre o cargo, evitou a aspereza usual que o caracterizava após o fim de sua carreira. Ele chamou a oportunidade de vestir novamente a camisa da Inglaterra, pela primeira vez desde 2014, de 'uma honra profunda e um momento muito especial'. Esta declaração é particularmente valiosa, dado que ele passou uma década anteriormente expressando opiniões ativamente nas redes sociais sobre a liderança do críquete inglês.
Para entender toda a ironia da situação, é preciso lembrar o quanto os relacionamentos pioraram. Foi a ECB, e não franquias ou equipes da África do Sul ou Hampshire, que tirou a capitania de Pietersen na Inglaterra em janeiro de 2009, apenas alguns meses depois de tê-la recebido. Isso ocorreu depois que sua tentativa de destituir o técnico Peter Moore falhou.
Três anos depois, ocorreu o escândalo 'Textgate': Pietersen trocava mensagens criticando o então capitão Andrew Strauss com jogadores do Proteas durante uma série de testes. Este incidente foi grave o suficiente para levar à sua suspensão e, posteriormente, a um retorno cauteloso após ambos os homens terem se 'reconciliado' publicamente. Na época, Pietersen explicou isso como 'piadas entre amigos' e admitiu que às vezes precisava 'se conter'.
No entanto, essa reconciliação não se sustentou. Em fevereiro de 2014, após uma derrota humilhante da Inglaterra por 0-5 nos Ashes na Austrália — uma série na qual Pietersen foi o principal pontuador — a ECB o excluiu definitivamente, citando a necessidade de restaurar o 'espírito e a filosofia da equipe'. Sua autobiografia subsequente foi direcionada contra Matt Prior, Andy Flower e Alastair Cook, nomeando-os. Quando ele tentou retornar em 2015, marcando muitos pontos pelo Surrey, Andrew Strauss, então diretor de críquete da ECB, fechou a porta para ele permanentemente, citando um 'grave problema de confiança'.
Muitos, incluindo Michael Vaughan, afirmaram que Pietersen se tornou o 'bode expiatório' do conselho de administração, enquanto outros, como Graham Gooch, alertaram que seu retorno seria um erro. Pietersen não amoleceu após se aposentar. Como especialista da Sky Sports e uma das vozes mais populares nas redes sociais, ele construiu uma segunda carreira, principalmente expressando opiniões que os jogadores e treinadores ativos não podiam verbalizar. Ele criticou a estrutura interna da Inglaterra, a gestão da ECB, a seleção e a programação do torneio The Hundred.
No ano passado, ele criticou publicamente os métodos de treinamento da Inglaterra sob o comando de McCullum durante a turnê na Índia. Pietersen declarou no X: 'Sinto muito, mas estou completamente chocado que a Inglaterra não tivesse nenhum treino de equipe após perder o primeiro ODI e a série T20'. Ele acrescentou: 'Perder é normal se você está fazendo tudo o que pode para melhorar todos os dias, mas se a Inglaterra não treinou durante esta série, significa que eles não estavam se esforçando. É devastador para qualquer fã da Inglaterra!'
Este homem não é propenso ao silêncio diplomático; ele apenas mudou de plataforma para criticar o conselho. Isso torna a disposição de McCullum em aceitá-lo ainda mais interessante. A reação de Jofra Archer, que disse: 'ele é uma lenda do jogo, seria ótimo tê-lo no grupo', reflete bem o lado positivo: poucos jogadores de sua geração combinam habilidade técnica com aquela incrível determinação que Pietersen demonstrou ao rebater, e o papel de mentor, focado no desenvolvimento de rebatidas, corresponde diretamente a essa qualidade forte.
McCullum também respondeu publicamente aos comentários de Pietersen do ano passado. O neozelandês disse à BBC Sport: 'Isso [os comentários de Pietersen] foi uma das primeiras coisas que discutimos. Ele disse: 'hm, eu estava apenas criticando vocês recentemente'. Eu respondi: 'não me importo. Parte disso é justo, e parte requer explicações, mas eu não tenho problemas com isso'. Eu disse: 'é bom quando você cria um ambiente onde você pode contestar'. Eu quero que ele faça isso. Não se trata apenas de se enterrar no jogo, mas de olhar para todo o ambiente, para como gerenciamos as coisas, e se você notar algo, venha e me desafie sobre isso.'
Há também uma razão tática óbvia para este nomeação: como a próxima Copa do Mundo será realizada na África do Sul, ter na equipe uma voz nascida na África do Sul e familiarizada com as franquias, que conhece as condições, o campo e muitos jogadores da série SA20, é importante.
Apesar de tudo isso, as instituições lembram do passado, e a história da ECB com Pietersen não é uma série de mal-entendidos, mas sim um padrão. Cada tentativa anterior de reconciliação, começando pela conferência de imprensa de 'reconciliação' em 2012, acabou desmoronando sob o peso da mesma tensão oculta: a convicção de Pietersen de que ele geralmente é a pessoa mais inteligente no vestiário, e a cultura corporativa do conselho, que raramente conseguiu sustentar essa confiança por muito tempo.
McCullum, deve-se a ele, criou um ambiente para bolas brancas suficientemente livre para suportar a crítica externa de Pietersen; o verdadeiro teste é se ele resistirá internamente, quando as citações românticas diminuírem e a pressão da Copa do Mundo aumentar. Por enquanto, a Inglaterra recebeu de volta seu filho perdido. Se parecerá uma reconciliação ou apenas mais um capítulo de uma disputa muito longa depende inteiramente de 'KP'.

