Apesar de as previsões meteorológicas melhoradas poderem ajudar os pastores a preparar-se para secas crescentes, um novo estudo aponta para a eficácia limitada dessas previsões se os agregados familiares vulneráveis não tiverem recursos para responder aos avisos.
Um grupo internacional de investigadores, liderado pela Universidade de Sydney e pelo Imperial College London, afirma que a combinação de informações climáticas com medidas como ração para gado, seguro contra seca, ajuda financeira direcionada e melhor acesso a mercados pode proteger algumas das comunidades pastoris mais pobres do sul da África dos choques climáticos.
Este estudo, publicado na revista Nature Sustainability, surgiu no contexto da preparação da região para o potencial impacto do poderoso fenómeno El Niño.
As previsões por si só são insuficientes
O investigador principal, Dr. Matt Clark, observou que o problema não é apenas a falta de acesso à informação climática, mas sim a capacidade limitada dos agricultores mais pobres de reagir a ela.
Clark afirmou: 'Se as previsões se confirmarem e virmos o desenvolvimento de um El Niño quase recorde, esperamos que isso exacerbe a desigualdade nos pastos do sul da África'. Enquanto os proprietários de gado com mais recursos conseguem vender animais antes do agravamento das condições de seca e depois repovoar os seus rebanhos, os pastores pobres muitas vezes não dispõem de recursos financeiros para reduzir o número de cabeças ou comprar ração adicional.
Isto força-os a manter o gado em pastagens cada vez mais degradadas, aumentando o risco de morte dos animais e a perda subsequente de bem-estar dos agregados familiares. As consequências podem ir além das famílias individuais, afetando a segurança alimentar, os meios de subsistência e a saúde das frágeis pastagens.
Os investigadores sublinham que o apoio prático permite que os agricultores ajam com base nas previsões antes da seca, o que potencialmente reduz tanto as perdas económicas como os danos ambientais.
Combinação de medidas de adaptação
A equipa utilizou modelagem detalhada para estudar como os agregados familiares pastoris em Botswana, Eswatini, Lesoto, Moçambique, Namíbia, África do Sul e Zimbábue podem responder à crescente variabilidade das precipitações.
Os investigadores combinaram dados previstos de precipitação de modelos climáticos europeus com informações sobre gado, vegetação e bem-estar dos agregados familiares. O seu primeiro cenário de simulação, baseado na manutenção do estado atual, mostrou que uma maior variabilidade das precipitações pode levar à diminuição do bem-estar dos agregados familiares, ao aumento das perdas de gado, à degradação dos pastos e à expansão da desigualdade.
No segundo cenário de simulação, foram testadas várias medidas de adaptação. As previsões climáticas por si só ofereceram apenas um benefício modesto, uma vez que muitos agregados familiares pobres não podiam pagar para usar essa informação. As medidas de mitigação de riscos também poderiam causar compromissos ambientais.
No entanto, quando a informação climática foi combinada com apoio prático e financeiro, os investigadores descobriram que os agregados familiares lidam melhor com a preparação para a seca, ao mesmo tempo que reduzem a pressão sobre os pastos. O modelo também sugeriu que a adaptação pode espalhar-se entre comunidades vizinhas, pois os agricultores aprendem uns com os outros e implementam estratégias de sucesso.
Dra. Gina Arena, da iniciativa Herding for Health da organização Conservation International, observou que a crescente incerteza climática aumenta os riscos enfrentados pelas comunidades pastoris. Ela acrescentou que os estudos podem ajudar a identificar soluções eficazes ao mesmo tempo que reduzem os riscos associados à sua implementação.
Os investigadores concluem que esta abordagem não requer necessariamente novas tecnologias; em vez disso, os sistemas de previsão existentes devem ser integrados com programas que fornecem recursos às comunidades vulneráveis para responder. Clark também observou que esta estrutura pode ser aplicada fora do sul da África, incluindo Austrália e outras regiões onde os produtores de gado enfrentam precipitações cada vez mais imprevisíveis. As conclusões sublinham um problema mais amplo de adaptação às alterações climáticas: os alertas antecipados salvam vidas e meios de subsistência apenas quando as pessoas que os recebem têm os recursos para agir.



