Dificuldade do Brasil em converter plantas medicinais em produtos farmacêuticos apesar da biodiversidade
Leia mais
Super Abril
super.abril.com.br

Dificuldade do Brasil em converter plantas medicinais em produtos farmacêuticos apesar da biodiversidade

O Brasil apresenta um paradoxo notável: é uma potência mundial em biodiversidade, possui uma vasta tradição no uso de plantas medicinais e conta com uma comunidade científica de alto nível. Contudo, essa combinação de fatores ainda não resultou em patentes, medicamentos inovadores ou produtos agregados de valor para a sociedade.

É fundamental que a biodiversidade seja vista não apenas como um patrimônio ambiental, mas também como uma infraestrutura estratégica para a saúde, a ciência e o desenvolvimento da bioeconomia. Isso implica utilizar os ecossistemas de forma sustentável para gerar conhecimento e produtos de alto valor, garantindo, ao mesmo tempo, a inclusão das comunidades detentoras de saberes tradicionais.

Existem poucos casos de sucesso nessa transição no Brasil. O exemplo mais proeminente é o captopril®, utilizado contra a hipertensão arterial, cujo desenvolvimento partiu de estudos iniciais do professor Sérgio Henrique Ferreira, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Ele utilizou o veneno da jararaca Bothrops jararaca, contribuindo para entender os mecanismos da hipertensão e o desenvolvimento de inibidores da enzima conversora de angiotensina.

Outros exemplos incluem fitoterápicos como o anti-inflamatório Acheflan®, feito com folhas de Cordia verbenacea; o xarope para tosse Melagrião®, baseado em Mikania glomerata; e o calmante Sintocalmy®, derivado de Passiflora incarnata. No entanto, entre 20 fitoterápicos registrados na Anvisa analisados entre 2016 e 2026, estes três são os únicos desenvolvidos internamente, enquanto os demais provêm de plantas importadas, majoritariamente da Europa e da Ásia.

Embora o grupo responsável tenha desenvolvido os estudos pré-clínicos desses três medicamentos naturais, demonstrando a viabilidade de transformar conhecimento botânico em produtos comerciais seguros e eficazes, eles continuam sendo exceções frente à imensa biodiversidade e volume de pesquisas brasileiras.

O arcabouço regulatório brasileiro, como a Lei nº 13.123/2015, estabelece normas para o acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado, incluindo mecanismos de repartição de benefícios. O principal obstáculo, segundo um especialista, reside em harmonizar a proteção da biodiversidade, o respeito aos direitos comunitários e a criação de um ambiente propício à pesquisa e à inovação.

Artigos em revistas científicas renomadas, como a Nature Medicine, enfatizam a necessidade de integrar diversas formas de evidência, incluindo ensaios clínicos, estudos comparativos de efetividade e dados reais, além de ferramentas avançadas como inteligência artificial, genômica e proteômica para analisar terapias tradicionais.

Experiências da China e da Índia apontam para a necessidade de uma estratégia integrada e de longo prazo. A China, por exemplo, lançou em março de 2025 uma política de estado abrangente para elevar a qualidade de seus medicamentos tradicionais. Esta política abrange desde a proteção de espécies medicinais e o estabelecimento de bancos de dados, até a modernização industrial e a ligação direta entre ciência, inovação e desenvolvimento.

A estratégia chinesa foca em doenças crônicas e infecciosas, utilizando uma abordagem que integra patentes, marcas e proteção do conhecimento tradicional. Em comparação, o Brasil possui políticas públicas desde 2006, universidades e agências reguladoras, mas carece de uma estratégia coesa de longo prazo que conecte o desenvolvimento de extratos padronizados ao registro na Anvisa e à produção industrial.

Apesar da vasta produção científica brasileira — com 63 mil artigos publicados sobre plantas nos últimos dez anos —, a conversão desse saber em medicamentos é modesta. Um estudo sobre patentes revelou apenas 25 pedidos envolvendo plantas nativas entre 2003 e 2008, muitos originados em instituições nacionais, mas sem se concretizarem em produtos devido à carência de colaboração com a indústria.

O cerne do problema não é a geração de conhecimento, mas sim a dificuldade em convertê-lo em propriedade intelectual, produtos regulamentados e tecnologias acessíveis ao mercado. Dada a riqueza biológica do Brasil, que abriga cerca de 20% das espécies conhecidas no mundo, e sua diversidade cultural, o país tem potencial para liderar, mas necessita urgentemente de uma política de Estado unificada.

Popular