Casa sobre el Arroyo: a trajetória e o restauro desta obra modernista de Amancio e Delfina Williams
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Casa sobre el Arroyo: a trajetória e o restauro desta obra modernista de Amancio e Delfina Williams

A Casa sobre el Arroyo, uma notável joia do modernismo, passou por profundas transformações ao longo de quase oito décadas, alterando seu uso, propriedade e condição de conservação. Apesar dessas mudanças, a estrutura, a dinâmica interna e a conexão com o terreno permaneceram cruciais para a compreensão da residência e, subsequentemente, para seu processo de restauração.

O projeto foi idealizado por Amancio Williams e Delfina Gálvez Bunge de Williams em 1943 para Alberto Williams, pai de Amancio. A localização em Mar del Plata, Argentina, ditou as características da casa. Em vez de evitar o arroio Las Chacras, os arquitetos o incorporaram ao desenho, utilizando um arco de concreto armado para atravessar a água e elevar os espaços habitáveis, integrando o curso d'água à experiência de viver e circular no local.

A integração estrutural e o programa residencial foram definidos pelo gesto do arco. A curva deste elemento determinou o traçado das escadas, enquanto os cômodos superiores se situavam imersos na copa das árvores. Grandes janelas garantiam que a paisagem estivesse sempre visível no interior, abrangendo quartos, salas de estar, áreas de serviço e o estúdio destinado a Alberto Williams.

A fase de construção exigiu extremo rigor técnico. Durante a obra, constatou-se que o arco de concreto não seguia a curvatura planejada. Williams suspendeu os trabalhos, procedeu à demolição e subsequente reconstrução do arco, o que acarretou custos e atrasos adicionais ao empreendimento.

Após a conclusão, a Casa sobre el Arroyo cumpriu sua função residencial. Alberto Williams residiu ali com sua esposa até seu falecimento em 1952, e sua filha Irma manteve-se na propriedade até a venda em 1968, totalizando cerca de vinte e dois anos de uso como moradia.

Antes mesmo do término deste ciclo residencial, uma das premissas do projeto já havia sido alterada. Em 1957, obras municipais de saneamento interromperam o fluxo do arroio Las Chacras. Embora a casa permanecesse no local, o curso d'água que havia moldado sua concepção e relação com o terreno havia desaparecido.

Posteriormente, o uso do imóvel mudou. Em 1970, a Casa sobre el Arroyo foi transformada em sede da estação de rádio LU9, abrigando escritórios e estúdios de transmissão nos espaços originalmente pensados para a vida familiar. A emissora operou no local até 1977. Depois disso, o edifício passou por manutenções, mas ficou majoritariamente desocupado. Após a morte do proprietário, disputas sucessórias levaram o imóvel ao abandono, sendo agravada sua deterioração pelo vandalismo, intempéries e dois incêndios.

Mesmo enquanto se afastava de sua função primária, a Casa sobre el Arroyo ganhou notoriedade para além de Mar del Plata. Logo após sua finalização, a casa começou a ser apresentada em publicações, desenhos e fotografias internacionalmente, inserindo-se nos debates mais amplos sobre a arquitetura moderna na América Latina e na Argentina.

Essas duas narrativas evoluíram em paralelo. A casa era habitada quando começou a aparecer em periódicos de arquitetura, mas sua consagração perdurou muito tempo após o fim do uso residencial. Desenhos e fotos preservaram a imagem de uma ligação sofisticada entre arquitetura, estrutura e o arroio, mesmo quando o prédio mudou de propósito, perdeu o curso d'água e, finalmente, se deteriorou.

No começo do século XXI, a Casa sobre el Arroyo já era amplamente reconhecida na história da arquitetura, mas o próprio edifício estava em estado precário. Anos sem cuidados regulares, somados a danos ambientais, vandalismo e dois incêndios, afetaram tanto a casa quanto seus arredores. Em 2005, a Prefeitura de Mar del Plata assumiu a custódia do imóvel, e em 2012, ele foi incluído no World Monuments Watch.

Neste ponto, a conservação deixou de ser apenas um reparo em uma casa danificada. Alguns componentes originais resistiram, outros se perderam, e o arroio que definiu o projeto estava ausente há décadas. O restauro exigiu definir o que seria preservado, o que deveria ser reconstruído e como restaurar os laços entre o edifício e seu terreno.

A documentação do Arquivo Williams forneceu a base para muitas dessas decisões. A restauração, conduzida pelos Ministérios da Cultura e de Obras Públicas da Argentina, em colaboração com a Prefeitura de Mar del Plata, salvou o material existente sempre que possível e recriou elementos faltantes com base em registros e desenhos originais.

Essa metodologia se estendeu ao parque adjacente, que foi recuperado e classificado como jardim histórico. Além disso, a água foi reintegrada sob a casa através de um sistema de bombeamento. Trazer o curso d'água de volta ao terreno resgatou uma das condições iniciais do projeto, permitindo que a interação entre o arco, a casa e a água fosse revivida.

A Casa sobre el Arroyo reabriu suas portas como museu em janeiro de 2024. No mês seguinte, os Ministérios da Cultura e de Obras Públicas da Argentina e a Prefeitura de Mar del Plata receberam o prêmio do World Monuments Fund pela restauração, tornando-se o primeiro projeto modernista sul-americano a obter tal honraria.

Seu novo uso público introduz uma nova forma de ocupação do edifício. Os visitantes agora transitam por espaços inicialmente destinados ao convívio, ao trabalho e ao descanso, enquanto a própria casa se torna o foco da experiência. O programa doméstico permanece visível, mas é interpretado em diálogo com os usos e transformações posteriores que compõem sua história.

Dessa forma, a restauração não teve como meta devolver o projeto à condição de década de 1940. Pelo contrário, ela recuperou o edifício e seu entorno o suficiente para que a intenção original do projeto pudesse ser novamente apreendida. O arco continua sustentando a casa sobre a água, as escadas seguem sua curva e os ambientes mantêm a conexão com a vegetação circundante.

Quase oitenta anos após sua construção, a Casa sobre el Arroyo não serve mais à vida doméstica para a qual foi concebida. Contudo, as relações arquitetônicas estabelecidas em sua gênese persistiram apesar das mudanças de uso, paisagismo e conservação, possibilitando que a casa assuma uma nova dimensão pública sem perder os conceitos que a fundamentaram.

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