No livro «Hear Me Out: The Audacity to Lead as an African Woman», Lovelyn Bassey compartilha sua experiência e apela às mulheres africanas para não suprimirem seu potencial na área de liderança. Bassey relembra um incidente de sua infância, aos quinze anos, quando ousou contestar um homem mais velho, conhecido culturalmente, mas não parente, sobre o direito de conduzir negócios com os bens de sua mãe. Embora a questão fosse óbvia para ela — o homem estava errado —, para os outros, o problema era que ela havia falado. Sua mãe a repreendeu não por estar errada, mas por ser «rude» e «teimosa».
Essa experiência precoce ensinou-lhe que na África muitas meninas internalizam muito antes de adquirirem o vocabulário necessário: a avaliação das qualidades de liderança raramente se baseia apenas na competência. Em vez disso, depende de quão «aceitável» a mulher se apresenta ao exercer seu poder.
Após várias décadas, essa lição se materializou no livro «Hear Me Out: The Audacity to Lead as an African Woman», lançado em agosto de 2026. O livro serve simultaneamente como reflexo e desafio para as mulheres africanas que tentam encontrar seu lugar nas áreas de liderança, negócios e na luta contra a ideia de que a liderança é acessível apenas a poucos.
A autoridade de Bassey neste tema não é puramente teórica. Ela ocupa o cargo de Diretora de Operações (COO) na Healthgarde International, uma das principais empresas de vendas diretas na África. Ela supervisiona as operações da empresa nos mercados da África do Sul, Nigéria e outros. É considerada a mulher negra mais jovem a liderar uma empresa de vendas diretas na África. Além deste cargo, ela fundou a consultoria Leadership with Lovelyn e possui a Urban Ethnic Market, atendendo diásporas africanas e caribenhas.
Bassey possui formação jurídica pela Universidade de Pretoria, dois mestrados e um MBA. Ela é licenciada para exercer a advocacia na África do Sul e em Nova York, e participou de programas de educação executiva em Cidade do Cabo e Harvard Business School. Seu currículo é ideal para conselhos de administração. No entanto, «Hear Me Out» não é um guia de liderança no sentido tradicional; segundo ela, é uma tentativa de nomear a condicionamento que impede mulheres capazes de ocupar totalmente os lugares que já merecem.
O livro começa com a afirmação: as mulheres não nascem caladas; elas são treinadas assim. Bassey escreve: «Você não nasceu quieta, tímida ou pequena; você foi criada e condicionada dessa maneira, intencionalmente ou não». Ela rastreia esse processo desde a infância, quando as meninas africanas são «vistas e criadas como cuidadoras, e não como líderes», até a vida adulta, onde o mesmo instinto de suavizar e ceder molda carreiras e relacionamentos.
Uma característica da narrativa de Bassey é sua recusa ao conforto. No capítulo intitulado «A Armadilha da Obediência», ela descreve como as próprias mulheres mantêm esse condicionamento — mães, tias, professoras, colegas — e fazem isso não por maldade, mas porque muitas «acreditavam estar protegendo você de um mundo que não foi gentil com mulheres que iam além do permitido». Ela cita o exemplo de recusar em um evento profissional servir comida a homens sentados apenas porque «sempre fizemos assim», e questiona por que uma colega capaz precisa de serviço.
Esses argumentos não são especulações abstratas. Eles são baseados na vida vivida sob tensão, sobre a qual Bassey escreve — entre competência e aceitabilidade — que as mulheres africanas superam diariamente, muitas vezes sem perceber que existe uma escolha.
O lançamento do livro ocorre em meio à crescente conscientização sobre o potencial de liderança e o poder econômico das mulheres africanas. Bassey mesma contribuiu para esse reconhecimento, recebendo prêmios, incluindo os COWAP African Women Awards em 2022, Standard Bank Top Women Awards em 2024 e o prêmio Granfo em 2025 por trabalho comunitário. Para Bassey, este livro não é tanto uma celebração de vitórias, mas um convite aberto. Ela escreve: «Você não precisa mais de permissões. Você não precisa mais de validação. Você não precisa ser escolhida. Você deve decidir».
Este também é o tema principal do livro: o verdadeiro obstáculo para as mulheres africanas não é a falta de capacidade, mas o direito não realizado à própria voz e valor que possuem. Esta tese é reforçada pela escala do trabalho que Bassey realizou fora da escrita do livro: através de coaching e mentoria, ela ajudou milhares de empreendedores a desenvolver seus negócios e habilidades de liderança. Seu podcast The African Businesswoman e canal no YouTube Leadership with Lovelyn expandem essa mentoria, alcançando um público mais amplo de líderes.
O que distingue «Hear Me Out» de livros de liderança padrão é sua exigência insistente de que seja visto como um trabalho pessoal, e não apenas profissional. Bassey declara abertamente: o livro destina-se a desafiar os leitores, não a confortá-los. Ela escreve: «Se você se envolver completamente com este livro, provavelmente não pensará da mesma forma, falará da mesma forma ou aparecerá da mesma forma. E é aí que está o ponto».
Para um continente cujas mulheres são frequentemente descritas por observadores externos e por si mesmas como resilientes, engenhosas e que sustentam silenciosamente economias e lares inteiros, o livro de Bassey levanta uma questão mais aguda: permanecer resiliente liderando de frente ou pedir permissão por trás?
