Calque Studio luta contra o apagamento arquitetônico de Teerã, documentando o patrimônio modernista iraniano
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Calque Studio luta contra o apagamento arquitetônico de Teerã, documentando o patrimônio modernista iraniano

Teerã, situada aos pés da cordilheira de Alborz, é uma metrópole que cresce sob uma encosta que simultaneamente a protege e a sufoca. Esta paisagem, que impede a passagem dos ventos e concentra a poluição, também guarda séculos de disputas territoriais. A capital foi edificada sobre um terreno geologicamente e politicamente instável, onde falhas sísmicas estão presentes sob as avenidas, e sobre as quais se acumulam os resquícios de múltiplas reconstruções, demolições e reinvenções impostas. Assim, a cidade segue em expansão, servindo como testemunha silenciosa de um país que há mais de dois séculos negocia continuamente entre a manutenção da memória e o esquecimento.

Neste cenário específico, a arquitetura de Teerã reflete um diálogo constante com diversas ideologias e estilos. Desde a alvenaria tradicional persa até influências neoclássicas e barrocas europeias, várias correntes de pensamento se manifestaram nas ruas da cidade. Contudo, a produção modernista se destaca intensamente, tendo moldado a urbe principalmente entre 1930 e 1980.

Este período foi impulsionado pela modernização administrativa e política, resultando na construção de universidades, fábricas, escolas e outros edifícios públicos. Este conjunto de obras não deve ser visto como uma simples cópia do modernismo europeu, abrangendo diferentes fases. O chamado «modernismo tardio», que começou no final da década de 1950, exemplifica um esforço de arquitetos para reintegrar elementos da cultura local e estabelecer uma identidade regional.

Edifícios como a Torre Azadi são exemplos notáveis dessa fase, apresentando uma arquitetura mista onde materiais modernistas, como concreto e vidro, conviviam com técnicas artesanais, referências geométricas e elementos históricos persas e islâmicos, formando um rico acervo modernista de grande valor histórico.

Entretanto, essa arquitetura mais recente começou a ser vista como facilmente substituível. Atualmente, o patrimônio moderno de Teerã enfrenta problemas como deterioração, alterações de uso, pressão do mercado imobiliário e conflitos entre a necessidade de preservação e os direitos de propriedade privada, um problema recorrente em outras partes do globo.

Um paralelo interessante pode ser encontrado em Tashkent, no Uzbequistão. Após o terremoto de 1966, a cidade foi reconstruída seguindo preceitos modernistas, mesclando métodos industrializados com as tradições e condições locais. O reconhecimento deste legado pela UNESCO em 2026, resultado de ações de preservação após a derrubada de edifícios importantes, reforça uma nova visão sobre uma arquitetura antes considerada apenas parte do dia a dia.

Estes exemplos apontam para uma questão global: a arquitetura moderna frequentemente é muito jovem para ser classificada como «patrimônio», mas já antiga o suficiente para ser considerada ultrapassada. Portanto, sua salvaguarda não depende somente do tombamento, mas também da documentação, do reconhecimento cultural, do reuso adaptativo e de modelos econômicos que tornem a conservação mais vantajosa que a demolição. Neste contexto, iniciativas como o Calque Studio ganham destaque.

Com sede em Teerã, o estúdio nasceu como uma iniciativa de pesquisa autônoma com o objetivo de impedir tais perdas antes que elas aconteçam. A equipe trabalha proativamente há anos para identificar edifícios negligenciados, documentá-los com precisão forense, registrá-los junto às autoridades de patrimônio do Irã e acompanhar aqueles que ainda estão em pé. Entre as construções que o Calque identificou e documentou na cidade estão o Cinema Metropol e o Cinema Asia.

O próprio estúdio explica que seu método se baseia mais na investigação do que na medição arquitetônica padrão. Visto que os projetos originais raramente estão acessíveis, o estúdio recria cada edifício de modo análogo a um detetive reconstruindo um caso, analisando todo o material físico disponível e entrevistando moradores antigos e proprietários originais para remontar a história do imóvel e sua trajetória discreta de abandono.

Como complemento ao trabalho do estúdio, existe o Tehran Door Project, que se dedica a registrar as portas de entrada de edifícios do meio do século XX em toda a cidade. Estas portas são tratadas como itens singulares que resumem a identidade de cada residência; centenas de portas mapeadas tiveram suas formas e ornamentos convertidos em desenhos vetoriais e paramétricos, criando um arquivo tipológico de um ofício que quase desapareceu da arquitetura contemporânea.

Cada porta funciona como um pequeno estudo forense. Geralmente é o primeiro elemento notado ao chegar a uma casa, e observamos padrões de ferrugem e reparos nas dobradiças como quem examina provas, pois em poucos anos, a própria porta pode ser o único vestígio restante para ser interpretado. Essa perspectiva é compartilhada por Niloofar Abounoori, ex-cofundadora e pesquisadora de arquitetura do Calque.

Todo o material documentado e desenvolvido pelo estúdio está acessível em um repositório digital público. Adicionalmente, passeios guiados pelos bairros de Teerã convidam o público a observar as estruturas modernistas urbanas. Este processo de reapresentação dos edifícios à comunidade serve como um incentivo à sua preservação, visto que a proteção desse patrimônio só é viável quando há um senso de pertencimento, ou seja, a compreensão de que ele integra a história de cada habitante da cidade.

Na prática, essa visibilidade pública gerou resultados tangíveis. A documentação produzida pelo Calque forneceu suporte direto a solicitações bem-sucedidas enviadas à Organização do Patrimônio Cultural do Irã, auxiliando no tombamento de várias estruturas modernistas ameaçadas, incluindo o Cinema Asia e o Edifício Dowsoto.

Além de proteger edificações, iniciativas como o Calque promovem uma reflexão profunda sobre o que escolhemos manter vivo e o que permitimos que desapareça. Se a arquitetura é um registro das transformações sociais, o que se perde quando seus sinais deixam de poder ser decifrados? Em Teerã, esta questão permanece aberta, estabelecendo a documentação não apenas como um registro do passado, mas como uma forma de resistência contra o esquecimento.

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