Observa-se uma acentuada diminuição no nível de imunização infantil na África do Sul. O Departamento Nacional de Saúde relata que a cobertura rotineira caiu em todos os 52 distritos médicos. A percentagem de bebés com menos de um ano que não receberam nenhuma vacina aumentou de 12,1% em 2017 para 36,3% entre janeiro e abril de 2026. Além disso, a cobertura da primeira dose entre crianças menores de um ano diminuiu de 87% em 2021 para 67% em 2025.
Esta queda coincidiu com surtos de doenças preveníveis por vacinas, como difteria e sarampo. A Dra. Leslie Bamford, especialista do Departamento Nacional de Saúde da África do Sul, observa que as razões para a diminuição são variadas. Ela aponta para a baixa procura, causada pela falta de conhecimento dos pais, cuidadores e famílias sobre os benefícios e o valor das vacinas.
No entanto, Bamford enfatiza que o problema vai além do desejo dos pais de vacinar as crianças. Existem também oportunidades perdidas no sistema de saúde: as crianças que visitam uma unidade médica por qualquer motivo devem ter o estado de vacinação verificado e receber vacinas de rotina ou de recuperação se estiverem atrasadas. Bamford também mencionou que há relatos de indisponibilidade de vacinas em algumas unidades, embora não haja escassez a nível nacional. Os departamentos provinciais de saúde são responsáveis por garantir a disponibilidade das vacinas.
O departamento também está a rever os dados demográficos utilizados para calcular a cobertura vacinal, pois denominadores populacionais imprecisos podem criar a impressão de um nível de cobertura mais baixo do que o real. Apesar disso, Bamford considera a diminuição um problema sério, dado os surtos de sarampo e difteria, que eram anteriormente extremamente raros, e sem resolver esta queda, existe o risco de aumento de casos que ameaçam a vida e o bem-estar das crianças.
O problema estende-se para além da África do Sul. Em toda a África, os programas de vacinação foram recuperados após interrupções causadas pela pandemia de COVID-19, mas os níveis de cobertura permanecem abaixo dos níveis pré-pandémicos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde e o Fundo das Nações Unidas para a Infância, a cobertura da terceira dose da vacina contra difteria, tétano e tosse convulsa na África atingiu cerca de 77% em 2025, superior aos 73% registados em 2021, mas inferior aos 79% registados em 2019. Na África Ocidental e Central, a cobertura foi ainda menor — 71%.
O Dr. Paul Ngwakum, do Fundo das Nações Unidas para a Infância, explica que a lacuna de vacinação no continente é devida a vários fatores: acesso limitado a serviços de saúde, fraqueza dos sistemas de saúde, casos em que as crianças interrompem a vacinação antes de completar o esquema, bem como a crescente desinformação ou perda de confiança em algumas comunidades. Ele observa que alcançar crianças em áreas remotas, afetadas por conflitos e instabilidade, é particularmente difícil, mas os países também devem encontrar crianças que são negligenciadas em áreas urbanas, incluindo assentamentos informais.
Ngwakum insiste na necessidade de fortalecer os sistemas de saúde primários, garantir um número suficiente de profissionais de saúde e usar melhor os dados para identificar crianças que não foram vacinadas ou que começaram, mas não completaram o esquema. O financiamento também é um problema devido à crescente pressão sobre os orçamentos de saúde e ao financiamento internacional.
Além disso, preocupações em algumas comunidades sobre a segurança das vacinas e a desinformação influenciam a decisão dos pais de vacinar ou regressar para receber doses subsequentes. Ngwakum aconselha as autoridades de saúde a interagir com as comunidades e a compreender os seus problemas mais amplos, em vez de apenas pedir vacinação. Ele dá um exemplo: «Não se pode ir e vacinar uma criança contra a poliomielite quando a comunidade diz que o nosso problema é a água. Portanto, deve apresentar isto de forma a ser atraente para a comunidade».
Isto implica combinar a imunização com outros serviços de saúde e serviços públicos, sempre que possível. Ngwakum conclui: «Se você traz suprimentos e não há procura, você não alcança resultados. É preciso ter ambos».
As consequências destas lacunas já estão a manifestar-se em surtos de sarampo em todo o continente. O sarampo é muito contagioso, e um nível de cobertura vacinal muito elevado é necessário para prevenir a transmissão sustentada. A Organização Mundial da Saúde recomenda pelo menos 95% de cobertura. Em 2026, a doença continua a circular em vários países africanos. Na África do Sul, o Instituto Nacional de Doenças Infecciosas registou 4188 casos confirmados de sarampo entre 29 de dezembro de 2025 e 30 de agosto de 2026. Outros países também estão a responder a surtos de sarampo; por exemplo, Serra Leoa trabalha na identificação e vacinação de crianças que nunca receberam vacinas de rotina, e a República Democrática do Congo continua a enfrentar surtos recorrentes de sarampo juntamente com outras emergências de saúde.
Estes surtos ocorrem apesar do progresso geral na luta contra o sarampo na África. A Organização Mundial da Saúde relatou em abril que os casos de sarampo na região diminuíram em 40% e a mortalidade foi reduzida pela metade, sendo que a vacinação preveniu quase 20 milhões de mortes por sarampo na África desde 2000. Cabo Verde, Maurício e Ilhas Seychelles erradicaram o sarampo e a rubéola, demonstrando os sucessos dos programas de vacinação sustentáveis.
Ngwakum afirma que outros países podem alcançar progressos semelhantes se a imunização for considerada uma prioridade. Ele cita o Sudão do Sul, onde as autoridades de saúde e parceiros trabalharam na identificação e cobertura de crianças negligenciadas, apesar do complexo cenário humanitário. Esta abordagem exige compromisso político, investimento em saúde primária, dados fiáveis e interação contínua com as comunidades. As autoridades concordam que fechar a lacuna de vacinação exigirá a resolução de ambas as partes do problema: garantir a acessibilidade e a disponibilidade das vacinas, bem como garantir a compreensão do seu valor e a confiança no sistema de saúde por parte dos pais e das comunidades. Ngwakum conclui: «A imunização é uma das intervenções ou investimentos mais economicamente eficientes que qualquer país pode fazer na saúde e no futuro dos seus filhos».
