Na província de Guangdong, no sul da China, um oftalmologista do Centro de Oftalmologia Zhongshan utiliza sinal de vídeo em tempo real através da rede 5G, estando em uma sala de cirurgia em Guangzhou. Ele controla remotamente um braço robótico que realiza uma complexa injeção subretiniana em uma sala de cirurgia em Urumqi, na Região Autônoma de Xinjiang Uyghur, localizada a 4200 quilômetros da equipe de controle.
Lin Haotian, diretor do Centro de Oftalmologia Zhongshan na Universidade de Sichuan, observou que a realização desse procedimento remotamente com auxílio de robótica é um avanço clínico, visto que intervenções robóticas remotas de tal precisão nunca haviam sido documentadas. Lin explicou que a retina é extremamente fina — apenas 100 a 300 micrômetros e dividida em 10 camadas, tornando a introdução precisa de medicamento entre essas duas camadas um procedimento excepcionalmente delicado.
A aplicação da robótica médica remota na China começou em 2019 com a primeira cirurgia ortopédica utilizando 5G. Nos últimos anos, esses procedimentos médicos remotos se expandiram para diversas especialidades em cidades como Pequim, Xangai e Zhejiang.
Da cobertura local às redes nacionais
Esses procedimentos remotos avançados refletem o desenvolvimento mais amplo da infraestrutura de saúde digital em todo o país. De acordo com a Comissão Nacional de Saúde da China, a rede de telemedicina agora abrange todas as cidades e distritos, e está se expandindo para áreas rurais. Dados de monitoramento mostram que 70% dos centros de saúde em vilarejos estabeleceram parcerias de telemedicina com hospitais de nível superior.
Juntamente com a infraestrutura física, aplicativos baseados em inteligência artificial estão sendo cada vez mais integrados aos processos clínicos diários. No Hospital Ruijin, afiliado à Faculdade de Medicina da Universidade de Xangai Jiaotong, uma plataforma de patologia baseada em IA ajuda os médicos a escanear lâminas digitais e identificar potenciais lesões em segundos, o que levaria cerca de 40 minutos manualmente por lâmina.
Além disso, um relatório da KPMG, rede global de firmas de consultoria profissional, indica que a China constitui mais de 70% de todos os modelos de linguagem grandes publicados globalmente na medicina. À medida que essas ferramentas de saúde digital amadurecem dentro do país, elementos de tecnologia, equipamentos e estruturas operacionais estão sendo gradualmente adaptados para parcerias internacionais na área da saúde.
Infraestrutura inteligente e aplicação clínica no exterior
À medida que a infraestrutura de telemedicina da China e os dispositivos médicos domésticos continuam a melhorar, essas soluções tecnológicas estão sendo cada vez mais incorporadas à cooperação internacional em saúde, especialmente entre os países do BRICS.
Em São Paulo, Brasil, está sendo construído o primeiro hospital público "inteligente" como parte do complexo hospitalar da Universidade de São Paulo. Este edifício de 800 leitos, financiado por um empréstimo de longo prazo de US$ 320 milhões do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e fundos locais, está planejado para ser inaugurado em 2029. O projeto, desenvolvido com colaboração técnica de parceiros chineses, incluirá emergências conectadas ao 5G, triagem com IA e gerenciamento cirúrgico automatizado.
Dilma Rousseff, presidente do NDB, observou que o projeto serve de modelo para a transferência de tecnologias em saúde pública, enquanto o ministro da Saúde do Brasil, Alexandre Padilha, enfatizou a importância da cooperação técnica internacional na modernização da infraestrutura de saúde pública.
Além da infraestrutura hospitalar, equipamentos médicos e instrumentos de diagnóstico chineses estão encontrando aplicações clínicas ampliadas no exterior. Em abril de 2024, grupos clínicos do Hospital Cardiovascular de Xiamen, afiliado à Universidade de Xiamen, utilizaram dispositivos médicos chineses para realizar os primeiros procedimentos locais de substituição de válvula aórtica por via transcateter (TAVI) no Brasil e em Salvador. Até agosto de 2024, as equipes concluíram o primeiro procedimento TAVI no sudeste da Indonésia e realizaram o primeiro procedimento de litotripsia endovascular (IVL) naquele país. Em setembro de 2025, foi realizado o primeiro procedimento IVL com assistência chinesa no Vietnã. Esses primeiros procedimentos com equipamento inovador demonstram o crescente papel das tecnologias médicas domésticas na prática clínica internacional.
No setor comercial de biotecnologia, uma empresa de Fujian abriu um laboratório localizado em São Paulo para fornecer rastreamento genético de câncer de mama a um custo mais baixo — um problema de saúde comum no Brasil. De acordo com a empresa, até agosto de 2025, foram estabelecidas parcerias com quase 20 instituições em países do BRICS.
Desenvolvimento de talentos e fortalecimento do diálogo político
Além de equipamentos médicos e infraestrutura, o desenvolvimento de recursos humanos e a formação clínica permanecem elementos centrais da cooperação médica internacional. O Hospital Cardiovascular de Xiamen lançou um programa de estágios oferecendo treinamento clínico para cardiologistas estrangeiros com duração de 6 a 12 meses. Até outubro de 2025, 28 médicos de 13 países, incluindo Brasil, Rússia, Índia, Indonésia e Egito, completaram o treinamento. Após retornarem às suas instituições de origem, alguns participantes assumiram papéis cirúrgicos principais, como realizar procedimentos intervencionistas de emergência em infarto agudo do miocárdio.
As estruturas políticas oficiais continuam a guiar essas iniciativas multilaterais. A China participa de reuniões de ministros de saúde do BRICS desde a primeira cúpula em 2011. Na 15ª reunião em junho de 2025, o vice-ministro da NHC da China, Guo Yanhun, declarou que a China implementou uma estratégia de desenvolvimento orientada para a saúde para promover a iniciativa "China Saudável" e apoiar a gestão coordenada em áreas de serviços médicos, farmacêuticos e seguros de saúde.
Segundo Guo, a China pretende trabalhar em conjunto com os membros do BRICS e países parceiros para fortalecer o diálogo político, alinhar ações na área da saúde e aprofundar as trocas em campos médicos.
