Após mais de uma década de ausência, uma das séries mais singulares da Nintendo retornou com Rhythm Heaven Groove, lançado para o Switch em 2 de julho. O jogo mantém a fórmula conhecida da franquia: música envolvente, precisão de tempo impecável e um toque de humor.
Rhythm Heaven Groove constitui a quinta iteração da série de ritmos da Nintendo e é o primeiro título inédito após um hiato superior a dez anos; o lançamento anterior foi em 2011, visto que Megamix de 2015 era essencialmente uma compilação de sucessos para o 3DS.
A premissa central permanece inalterada: o jogador participa de uma sucessão de minijogos distintos, cada um com sua própria estética, personagens e regras. O objetivo é acertar o momento exato de pressionar os botões, sendo guiado pela música e pelos sinais visuais e sonoros apresentados na tela.
É importante notar que o jogo dispensa barras de acerto ou indicadores visuais de comando durante a execução musical, contando apenas com tutoriais prévios para ensinar a mecânica. Isso força o jogador a depender do ritmo, da cadência e do instinto, conferindo à experiência um caráter mais sensorial comparado à maioria dos jogos de ritmo convencionais baseados em setas ou botões coloridos.
Para aqueles que nunca tiveram contato com a franquia, há uma vantagem: como cada minijogo opera de forma autônoma, não é necessário conhecer os títulos anteriores para usufruir do novo jogo, pois não há uma narrativa contínua que prenda o jogador.
A série teve sua origem em 2006 no Japão, no Game Boy Advance, sob o nome Rhythm Tengoku, e só alcançou o público ocidental em 2008, já no Nintendo DS, onde foi renomeada como Rhythm Heaven (ou Rhythm Paradise, dependendo da região). Posteriormente, surgiram Rhythm Heaven Fever no Wii (2011) e Rhythm Heaven Megamix no 3DS (2015), seguido por um período de silêncio superior a dez anos.
Um aspecto notável é a conexão direta da franquia com a equipe responsável por WarioWare, e o compositor japonês Tsunku, figura proeminente no J-pop, retorna à trilha sonora original, mantendo a identidade sonora consistente com todos os lançamentos anteriores.
Cada minijogo possui sua mecânica, cenário e, usualmente, envolve apenas um ou dois botões. A dificuldade reside menos na memorização de sequências complexas e mais na internalização do tempo correto para cada ação.
Exemplos de mecânicas incluem situações onde o jogo intencionalmente obscurece a visão ou utiliza distrações visuais, obrigando o jogador a confiar exclusivamente no áudio. Este é considerado o traço mais marcante da franquia, o que explica a ausência de um concorrente verdadeiramente equivalente, apesar de tentativas de imitação recentes.
Ao jogar, percebe-se que executar o movimento corretamente não equivale a acertar o tempo. Em diversos minijogos, mesmo sabendo exatamente o que fazer, o jogador pode obter uma pontuação inferior se o clique ocorrer alguns milissegundos fora do compasso ideal.
Um alerta prático deve ser dado: ao utilizar fones Bluetooth, o pequeno atraso na transmissão pode ser suficiente para dessincronizar a resposta do jogador em relação ao som, impactando a pontuação. Mesmo sem fones, essa margem de milissegundos é extremamente estreita para diferenciar um bom resultado de um excelente.
Talvez o ponto mais sutil de Rhythm Heaven Groove seja o fato de que, em muitos minijogos, o ritmo a ser seguido não é ditado pela trilha sonora principal, mas sim por outro elemento sonoro presente na fase. Isso é evidente desde a primeira fase, onde o jogador controla um quinto animal em fila e deve pular um anel no momento certo. O compasso nesse caso não é a música ambiente, mas sim o som produzido pelos próprios animais ao saltar, e o desafio é que esses sons são propositalmente desalinhados em relação à música.
Portanto, focar apenas na música pode ser prejudicial; é necessário identificar o elemento sonoro correto em cada minijogo, exigindo um alto grau de escuta ativa, algo incomum em jogos de ritmo.
Groove transcende os minijogos individuais. A campanha principal é estruturada em blocos, onde cada conjunto apresenta minijogos inéditos que culminam em um Remix — uma sequência que combina diversas mecânicas aprendidas em uma única apresentação musical, servindo como o teste definitivo de cada etapa.
Além disso, o jogo introduziu modos complementares que expandem a proposta original da série. A campanha solo é segmentada em estágios (stages), cada um contendo minijogos novos seguidos por um Remix. Há um total de 16 conjuntos de fases: os oito iniciais compõem a campanha básica, e após sua conclusão, desbloqueia-se o Flipside, que adiciona mais oito blocos com versões remixadas e mais desafiadoras de vários minijogames, além de novos desafios.
Considerando minijogos solo, remixes, modo multiplayer e recursos adicionais como Beatspell e Drum Lessons, o conteúdo total ultrapassa 80 minijogos para um jogador e mais de 30 para multiplayer, estabelecendo Groove como a entrada mais substancial da franquia até o momento.
A curva de dificuldade de Rhythm Heaven Groove é simultaneamente elogiada e considerada um grande desafio. Teoricamente, ela é progressiva, com cada bloco de fases apresentando exigências crescentes, e os Remixes finais (do 16º ao 20º) atuando como testes finais que mesclam tudo o que foi assimilado na campanha. Contudo, na prática, a evolução não é perfeitamente linear, pois alguns minijogos iniciais podem ser mais complexos que outros encontrados mais adiante, tornando cada fase uma imprevisibilidade.
O Flipside intensifica significativamente o nível de exigência após a metade do jogo, demandando maior precisão e foco quase exclusivo no áudio. Essa dificuldade reflete-se no sistema de medalhas: cada minijogo recebe uma avaliação de desempenho, e apenas o resultado máximo, «Amazing», concede a medalha. O detalhe de timing mencionado anteriormente é frequentemente o fator que impede um resultado «Amazing» de se tornar «Very Good», mesmo que o movimento tenha sido executado corretamente.
Um aspecto notável é a completa ausência de feedback em tempo real. Ao contrário de jogos como Just Dance, onde o jogador acompanha sua pontuação em tempo real, neste título o resultado só é revelado ao término da fase. Esta escolha de design reforça o conceito de «confie no ouvido, não no visual», mas também retira uma camada de controle do jogador sobre seu desempenho.
As medalhas possuem função além da estética, pois elas liberam conteúdo. Para progredir em uma nova fase do Beatspell, por exemplo, além de completar a fase anterior, é necessário acumular um número mínimo de medalhas, transformando a repetição dos minijogos em uma atividade mais estratégica do que apenas jogar por diversão ou pontuação.
Apesar de todas as exigências, Rhythm Heaven Groove é muito divertido. Jogadores que preferem desafios mais amenos podem se frustrar em algum minijogo, mas a repetição contribui efetivamente para a melhoria. Com a vasta quantidade de conteúdo disponível, especialmente para quem busca completar tudo, é improvável que o tédio se instale.
Por fim, um aviso: quem busca uma experiência mais calma e aconchegante pode se sentir frustrado com os picos de exigência, visto que a precisão solicitada em certas partes não se adequa a todos os humores do dia.
Em relação ao custo, os R$ 219,90 praticados na Nintendo eShop brasileira são considerados elevados para o gênero, mas este valor se justifica pela quantidade de conteúdo oferecido: dezenas de minijogos, modos extras como Beatspell e Drum Lessons, e um valor ainda maior se o jogador optar pelo modo multiplayer, que prolonga consideravelmente a vida útil do título.


