Uma pesquisa recentemente divulgada na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society trouxe novas informações sobre a formação e a origem do cometa interestelar 3I/ATLAS. Este corpo celeste, que foi o terceiro visitante externo do Sistema Solar detectado pela ciência, revelou segredos acerca de sua origem remota.
Ao se aproximar do Sol e iniciar sua jornada de afastamento da vizinhança planetária, o cometa passou por um intenso processo de liberação de material. Esse evento possibilitou aos cientistas examinar minuciosamente a composição química interna deste astro, desvendando segredos preservados desde seu nascimento em um local distante do Universo.
Para analisar o material expelido, pesquisadores da Universidade de Northumbria, localizada no Reino Unido, empregaram um espectrógrafo moderno instalado no Telescópio William Herschel, situado na Espanha. Este instrumento de alta precisão capturou a luz emitida pelos gases na cauda do cometa, permitindo a identificação de cinco substâncias químicas liberadas simultaneamente durante as erupções do visitante espacial.
Entre os componentes identificados pelos equipamentos estavam moléculas de nitrogênio, monóxido de carbono, dióxido de carbono, água e hidrocarbonetos. Mediando com exatidão a proporção entre nitrogênio e monóxido de carbono, a equipe científica conseguiu estimar a temperatura aproximada em que o objeto foi sintetizado originalmente em seu sistema de origem.
Os achados indicaram que o 3I/ATLAS surgiu em condições de frio extremo, com temperaturas abaixo de 240 graus Celsius negativos. Este dado sugere que o cometa se desenvolveu nas áreas mais frias e periféricas de seu sistema estelar nativo, em uma região análoga à Nuvem de Oort ou ao Cinturão de Kuiper ao redor do nosso Sol.
A grande quantidade de nitrogênio gasoso corrobora essa hipótese, visto que este elemento só pode se manter estável em ambientes onde o calor da estrela central é quase inexistente. Os cientistas ressaltam que estudar esses fragmentos interestelares oferece uma chance singular de entender a matéria-prima de outros mundos sem a necessidade de enviar sondas a distâncias inatingíveis.
A investigação também progrediu tecnicamente ao mapear as alterações químicas ao longo da cauda cometária enquanto ela interagia com os ventos solares. A precisão alcançada demonstra como os novos instrumentos ópticos estão expandindo a capacidade de estudar pequenos corpos celestes que atravessam o espaço em alta velocidade, de maneira rápida e inesperada.
Contudo, apesar dos avanços no estudo do 3I/ATLAS, a ciência enfrenta uma restrição estatística devido à pouca quantidade de dados comparativos. Conforme explicado pelo astrônomo amador Cristóvão Jacques, fundador do Observatório SONEAR, em entrevista ao Olhar Digital News há alguns meses: «Observamos esse tipo de objeto apenas três vezes. É muito pouco para tirar conclusões mais amplas.»
Esta amostra limitada dificulta a determinação precisa da trajetória e da procedência do visitante espacial. Embora a química do 3I/ATLAS forneça um perfil do ambiente de sua formação, ela não aponta seu local exato na galáxia. Para Jacques, identificar a estrela natal «permitiria entender melhor o ambiente em que ele se formou e comparar com o que observamos hoje, a partir das análises feitas na Terra.» Ele, porém, crê que essa informação provavelmente jamais será determinada com exatidão, afirmando: «Saber qual estrela específica deu origem a esse objeto é algo extremamente difícil, talvez impossível.»
Este cenário de escassez de dados deve mudar drasticamente com a entrada em funcionamento do Observatório Vera C. Rubin, no Chile, prevista para o final de junho. Há uma expectativa entre os astrônomos de que, impulsionada pelo poder de varredura deste novo complexo astronômico, a taxa de detecção aumentará consideravelmente, tornando possível descobrir pelo menos um novo visitante interestelar anualmente e ampliando significativamente o catálogo de objetos disponíveis para estudo.
Equipado com um espelho de 8,4 metros de diâmetro e a maior câmera digital já criada para astronomia, com impressionantes 3,2 gigapixels, o observatório conduzirá o levantamento Legacy Survey of Space and Time (LSST). A cada poucas noites, o sistema mapeará todo o céu visível do hemisfério sul com grande sensibilidade, sendo capaz de identificar corpos celestes tênues e de rápido movimento que antes passavam despercebidos.
Para Bruno Quint, doutor em astronomia pela Universidade de São Paulo (USP) e cientista de operações no observatório, o novo complexo será «uma máquina de descobertas» e revolucionará a maneira como a ciência estuda o Cosmos. Em sua participação no programa Olhar Digital News, durante o lançamento das primeiras imagens de teste do Vera Rubin, o astrônomo salientou que, mesmo na fase de comissionamento, o telescópio registrou 1.000 asteroides em uma única noite, o que ilustra o impacto da iniciativa ao longo dos seus 10 anos previstos de operação.
Essa capacidade maciça de detecção trará também um novo modelo metodológico. Segundo Quint, anteriormente os cientistas examinavam apenas pequenas partes do céu procurando alvos específicos, comparável a procurar uma agulha em um palheiro. Ele compara: «O que o Rubin vai fazer é pegar esse palheiro, sacudir, jogar um monte de agulhas no chão, e nós teremos que pensar no que fazer com elas».
Na prática, este volume inédito de dados funcionará integrado a um sistema automatizado de alertas em tempo real. Um comunicado informa que, ao detectar qualquer objeto com trajetória hiperbólica típica de um visitante externo ao Sistema Solar, o observatório emitirá avisos imediatos para a comunidade astronômica mundial. Essa agilidade permitirá que instrumentos focados em análise espectroscópica, como o Telescópio William Herschel, sejam direcionados instantaneamente ao alvo, assegurando a investigação detalhada de sua química interna antes que o objeto se afaste do Sol e desapareça no espaço profundo.
