Surgiu uma séria questão não sobre se as empresas estatais podem ser salvas, mas sim sobre quem finalmente terá coragem de confrontar aqueles que são os criadores dos fracassos recorrentes. É preocupante observar políticos aprovando relatórios anuais enquanto o autor do artigo permanece no escuro, observando através de um smartphone.
Os habitantes da África do Sul estão acostumados a duas versões da realidade. Uma é apresentada em relatórios anuais brilhantes, repletos de fotos de executivos sorridentes, gráficos coloridos e termos cuidadosamente selecionados como sustentabilidade, valor para as partes interessadas e transformação. A outra realidade se manifesta quando um aposentado espera três semanas para restaurar a eletricidade; quando passageiros esperam horas devido à paralisação de locomotivas; quando municípios não conseguem fornecer água e portos ficam parados, enquanto economias vizinhas progridem.
Uma realidade está impressa, e a outra é vivida. A questão preocupante não é por que as empresas estatais falham, mas por que tantas pessoas continuam a lucrar com esses fracassos. As empresas estatais não foram concebidas inicialmente como instrumentos de investimento para redes políticas; elas foram construídas como motores econômicos. Por exemplo, a Eskom foi criada para eletrificar o país, a Transnet para impulsionar a economia, a Denel para fortalecer capacidades estratégicas, a PRASA para transportar trabalhadores comuns e o South African Post Office para conectar comunidades. A SAA deveria representar o país no exterior. Cada uma delas existia com um único propósito: servir à sociedade. Hoje, muitas delas parecem ter ficado presas em outra missão — proteger aqueles que gerenciam o declínio.
Os números pintam um quadro doloroso. A dívida da Eskom ultrapassou 400 bilhões de rand, e bilhões de fundos foram transferidos dos contribuintes para manter as usinas elétricas funcionando. As falhas operacionais da Transnet custaram à economia sul-africana centenas de bilhões devido a atrasos na exportação, congestionamento portuário e transporte de carga paralisado. O South African Post Office teve que declarar recuperação judicial após anos de prejuízos crescentes, resultando na perda de meios de subsistência de milhares de funcionários. A South African Airways só conseguiu sobreviver após vários pacotes de resgate governamentais de dezenas de bilhões de rand, transformando-se em uma companhia aérea muito menor.
Cada pacote de resgate começa com a mesma promessa: 'Desta vez será diferente'. O contribuinte tornou-se o acionista mais leal da África do Sul — o único acionista que nunca recebe dividendos, exigindo apenas mais capital. Enquanto isso, outro cenário se repete silenciosamente: a produtividade cai, auditores expressam preocupações, o Parlamento faz perguntas difíceis e a mídia relata um novo escândalo.
No entanto, a recompensa da liderança permanece notavelmente estável. Surgem bônus, incentivos de retenção e presentes generosos. Surge a suspeita de que o fracasso se tornou a trajetória de carreira mais segura na administração pública sul-africana. Imagine um negócio privado que recompensa os executivos após a perda de clientes, participação de mercado e bilhões em receita. Os investidores se revoltariam, os conselhos de administração renunciariam e os CEOs seriam substituídos. Mas em algumas partes do setor público, as explicações frequentemente substituem a responsabilização. O fracasso torna-se um exercício de comunicação, e não uma consequência da liderança.