Exposição de Melanie Ismail explora a cultura Kaaps Klops para além do carnaval em Cidade do Cabo
Leia mais
10and5
10and5.com

Exposição de Melanie Ismail explora a cultura Kaaps Klops para além do carnaval em Cidade do Cabo

A fotógrafa e cineasta Melanie Ismail apresenta uma nova exposição pública no Company’s Garden, dedicada às pessoas, rituais e momentos cotidianos que sustentam a cultura viva de Kaaps Klops na Cidade do Cabo. Através de suas imagens íntimas, ela levanta uma questão importante sobre quais histórias culturais são reconhecidas e preservadas na África do Sul.

A exposição «Cape Rhythm: Goema, Klopse & Memory» ocorre no Company’s Garden de 5 a 27 de setembro, como parte do Festival de Fotografia da Cidade do Cabo durante o Mês do Patrimônio. Baseada no arquivo de Ismail, a mostra considera Goema e Kaaps Klops como uma cultura viva, e não apenas uma apresentação anual. Ela enfatiza que a cultura dos habitantes coloridos da Cidade do Cabo foi por muito tempo sub-representada nos narrativas culturais oficiais e na documentação visual da África do Sul.

A maioria das pessoas conhece a versão vibrante de Kaaps Klops: um evento espetacular e colorido com trajes de atlas, rostos pintados, penas, instrumentos de latão e milhares de participantes que enchem as ruas da Cidade do Cabo no dia Tweede Nuwe Jaar. No entanto, a exposição foca nos períodos anteriores a este grande evento.

Música e Preparação

Antes das ruas cheias de multidões, existem meses de ensaios gerais realizados em pátios de concreto. Durante esse período, os figurinos são preparados, laços de amizade são fortalecidos e a geração mais velha transmite tradições aos mais jovens. Esses momentos silenciosos de convívio, cansaço, preparação e sentimento de pertencimento raramente chegam à representação pública de Klops.

Ismail documenta exatamente esses momentos, movendo-se entre ensaios, preparativos, ruas e festas para capturar a comunidade que sustenta sua memória cultural através da música, movimento, ritual e experiência coletiva. Para Ismail, este trabalho tem um caráter profundamente pessoal.

Ela afirma ser uma fotógrafa e cineasta documental sul-africana, nascida em Manenberg, Cidade do Cabo. Seu trabalho visa registrar a experiência de vida das comunidades coloridas da Cidade do Cabo através de um olhar honesto e íntimo. Trabalhando dentro de sua comunidade, ela cria imagens que celebram a humanidade, ao mesmo tempo que enriquecem o arquivo visual de uma cultura que foi ignorada por muito tempo na África do Sul e além.

Sua conexão com Kaaps Klops começou através do grupo Playaz Inc., um grupo minstrel de Mitchell's Plain. Inicialmente, Ismail trabalhou com este grupo, filmando um videoclipe para a música «Goema!» de Boskasia. Foi durante sua primeira visita a um de seus locais de ensaio que o projeto começou a tomar forma.

Ismail explica que inicialmente não planejava fotografar esse tema especificamente. O trabalho com o Playaz Inc. para o clipe de «Goema!» a levou a um ensaio em uma escola em Mitchell's Plain. Ao vê-los em seu próprio espaço, ela percebeu algo mais profundo que desejava estudar e transmitir. Ela busca documentar a vida cotidiana das pessoas, e isso lhe pareceu parte dessa história. Ela quis capturar as pessoas fora do palco — seus relacionamentos, senso de comunidade, alegria e tradição.

Geralmente, Klops é fotografado em sua versão mais espetacular. No entanto, um dos painéis da exposição chama os espaços de ensaio de «fundamento de nossa herança», e outro foca nos «momentos mais silenciosos», onde a identidade é vivida, e não exibida, à mesa, nos bairros e dentro das comunidades.

A prática de Ismail deriva desse ponto de vista. Nascida em Manenberg e colaborando intimamente com o Playaz Inc. em Mitchell's Plain vizinha, ela descreve sua fotografia como uma continuação da experiência vivida. Ambas as comunidades têm uma história moldada pelos deslocamentos forçados da era do apartheid, mas também marcada pela criatividade, resiliência e tradições culturais duradouras.

Em vez de apresentar seus heróis como observadores de sua própria cultura, Ismail fotografa de dentro dela. Ela afirma que seu trabalho com o Playaz é baseado no desejo de preservar e honrar a cultura viva de Kaaps Klops. Em vez de se concentrar exclusivamente no espetáculo dos desfiles de carnaval, ela é atraída pelos momentos mais silenciosos de ensaios, preparação e convivência — momentos em que as tradições florescem, a comunidade se fortalece e a cultura é transmitida de geração em geração. Esses momentos revelam o pulsar de seu povo e o enorme papel da música e da memória coletiva na manutenção da identidade cultural.

A ideia de memória permeia toda a exposição. As fotos mostram pessoas descansando juntas na rua após o desfile, artistas se movendo por bairros familiares e multidões onde a fronteira entre artista e espectador se apaga.

Um dos textos de acompanhamento diz: «Nós marchamos para lembrar quem somos», o que é uma declaração muito significativa em um país onde a memória cultural ainda é moldada pelo que é registrado, ensinado e oficialmente reconhecido.

Contexto Histórico e Reconhecimento

A curadora da exposição, Heidi Erdman, insere Goema em uma história de intercâmbio cultural muito mais longa. Este gênero surgiu na Colônia do Cabo devido aos encontros de escravos de diversas origens étnicas, evoluindo para um som distintamente capense, intimamente ligado às celebrações de Ano Novo, que se tornaram o Carnaval dos Minstrels da Cidade do Cabo, ou Klops. Durante o apartheid, também esteve associado à resistência contracultural ao regime.

Segundo Erdman, Goema tem muitas semelhanças com outras tradições musicais crioulas, incluindo o Sega de Maurício e o Maloya de Réunion. Todos eles nasceram de histórias de migração, escravidão, interação cultural e crioulização, e todos são formas pelas quais as comunidades expressam sua identidade, resiliência e senso de pertencimento.

No entanto, existe uma diferença crítica. Sega e Maloya foram reconhecidos como formas de patrimônio cultural imaterial. Goema, embora tão ligada à história e à identidade das minorias culturais no Cabo, não possui tal status na África do Sul.

Isso confere à exposição «Cape Rhythm» um propósito que vai além da simples documentação: é um convite à reflexão sobre como a cultura sobrevive, como carrega a memória e quais histórias são reconhecidas e preservadas, bem como um apelo às autoridades para finalmente reconhecer Goema e Klops como parte do patrimônio cultural imaterial da África do Sul.

Para Ismail, a fotografia é uma das maneiras de contribuir para esse reconhecimento. Ela afirma que, através do cinema e da fotografia, ela cria um arquivo visual vivo que preserva suas histórias e celebra a riqueza da cultura colorida. Sua prática é uma resposta direta à sub-representação de suas comunidades na mídia, tanto na África do Sul quanto no exterior. Cada uma de suas fotos é um ato de preservação para seu povo, sua história, tradições e a dignidade, beleza e resiliência duradoura de sua cultura.

O poder especial reside em ver essas fotos expostas no Company’s Garden — um dos espaços públicos mais historicamente significativos da Cidade do Cabo. Como observa Erdman, a colocação das fotografias em um local público histórico permite que o trabalho alcance um público além da galeria, transformando o público em crítico de arte.

Um dos textos da exposição diz: «A rua pertence a todos nós». Nesse registro, esse sentimento de pertencimento é palpável. As ruas se tornam espaços de memória e celebração, mas também lugares onde a comunidade vê seu reflexo: famílias, amizades, ensaios, rituais e relacionamentos que permitem que a tradição continue.

Para Ismail, o relacionamento com o grupo tornou-se algo que ela não poderia ter planejado quando chegou pela primeira vez para filmar o videoclipe. Ela recorda que o que começou como a gravação de um clipe terminou com ela e Nicole (Boskasia) marchando com eles como parte do grupo durante o Tweede Nuwe Jaar. Até hoje, eles dizem que foi o melhor dia de suas vidas, por razões que ela não consegue descrever em palavras.

Em última análise, «Cape Rhythm: Goema, Klopse & Memory» é uma pequena contribuição para uma história muito maior e contínua, pertencente às comunidades que mantiveram essa cultura viva. E resta a pergunta: o que diz sobre a África do Sul quando uma tradição viva ainda precisa provar seu direito de ser lembrada como parte de seu próprio patrimônio?

Popular