A Microsoft estabeleceu a meta de expandir sua capacidade de data centers em mais de três vezes até o ano de 2032. Este plano visa solucionar uma das barreiras mais significativas enfrentadas pela corporação: a carência de poder computacional necessário para atender à demanda crescente por serviços de computação em nuvem e inteligência artificial (IA).
De acordo com fontes informadas à Bloomberg, a rede global de centros de dados da Microsoft deve exceder 38 gigawatts de capacidade em 2032, comparado aos atuais cerca de 12 gigawatts. Essa capacidade projetada representa um consumo elétrico superior ao registrado pelo Estado de Nova York (EUA) durante seus picos de demanda.
O planejamento engloba tanto instalações de propriedade da Microsoft quanto aquelas alugadas. Contudo, ele não contabiliza a capacidade computacional contratada de empresas especializadas em nuvem, como a CoreWeave. Os analistas alertam que essas estimativas estão sujeitas a alterações, visto que a construção de grandes data centers demanda vários anos, e mudanças no mercado ou no surgimento de novas tecnologias podem modificar as projeções.
Essa expansão surge após um período de escassez de poder computacional que se tornou um obstáculo primário para a Microsoft. A situação foi intensificada por uma decisão tomada por volta do início de 2025, quando a diretora financeira Amy Hood suspendeu parte do desenvolvimento de data centers, temendo que a empresa estivesse investindo em infraestrutura em excesso. Essa atitude gerou arrependimento entre vários executivos.
Devido à insuficiência de servidores, a Microsoft chegou a impor restrições em novas inscrições de serviços de nuvem em regiões cruciais nos Estados Unidos e na Europa. Em certas ocasiões, clientes optaram por migrar seus negócios para concorrentes. Um exemplo notável é a varejista chinesa Temu, que firmou um acordo importante com a Oracle no ano anterior, após não conseguir obter a capacidade adicional desejada junto à Microsoft em determinadas áreas.
A falta de capacidade também prejudicou os vendedores da Microsoft, que buscavam aumentar as vendas de serviços de nuvem e IA, e gerou apreensão entre investidores sobre o momento em que os vastos investimentos em IA começariam a gerar retornos.
Novo complexo em Atlanta sinaliza a mudança estratégica
Um indicador chave dessa alteração estratégica é um novo conjunto de data centers em construção na região de Atlanta (EUA), denominado East US 3. Alistair Speirs, executivo responsável pela infraestrutura de nuvem da Microsoft, declarou que este complexo auxiliará a mitigar a falta de capacidade na Virgínia (EUA), que concentra o maior polo de data centers da companhia. Speirs ressaltou que «essencialmente, isso torna mais capacidade disponível em todos os lugares quando abrimos um novo data center».
A região deve receber aproximadamente 300 megawatts de capacidade ainda neste ano, com previsão de aumento para mais de um gigawatt nos próximos anos. Fontes próximas ao projeto indicam que o desenvolvimento deste complexo terá um custo na casa das dezenas de bilhões de dólares.
Apesar do avanço da IA, o East US 3 será focado majoritariamente em computação baseada em CPUs, utilizando servidores de empresas como a Intel, em contraste com os chips de IA tipicamente fornecidos pela Nvidia. Além disso, a Microsoft está realocando parte do desenvolvimento de seus próprios produtos e outras operações internas para data centers com menor saturação, liberando assim espaço nos locais mais disputados para os clientes.
Mesmo mais de três anos após o início do atual crescimento da IA, os data centers da Microsoft permanecem predominantemente voltados para a computação de uso geral. A maior parte das instalações emprega unidades centrais de processamento (CPUs) para suportar aplicações de nuvem e bancos de dados, e não para o treinamento de modelos de IA. Dos atuais 12 gigawatts de capacidade, apenas cerca de dois gigawatts são destinados a chips específicos para IA, com a expectativa de que essa fatia cresça para aproximadamente um terço dos 38 gigawatts previstos para 2032.
A própria evolução dos sistemas de IA contribui para a necessidade de ampliar diversos tipos de computação. Conforme afirmou Speirs, ferramentas mais recentes exigem volumes crescentes de servidores equipados com CPUs, além das GPUs, pois «GPUs, por si só, não constituem uma grande infraestrutura de IA».
Reações externas e impacto no negócio
A expansão da Microsoft e de outras grandes empresas de tecnologia ocorre em um contexto de crescente resistência à instalação de data centers nos Estados Unidos. Pesquisas apontam que a maioria dos cidadãos americanos se opõe à implementação dessas estruturas em suas localidades. Governadores de estados, como Texas e Nova York, já determinaram interrupções em novos projetos de data centers.
Simultaneamente, as quatro maiores companhias envolvidas na disputa por capacidade computacional — Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta — se comprometeram coletivamente com gastos próximos a US$ 2,4 trilhões (aproximadamente R$ 12,6 trilhões) nos próximos anos, focados principalmente em equipamentos e contratos de data centers.
A escassez de capacidade também afetou outras áreas de negócio da Microsoft. Em agosto, o GitHub ficou inoperante por quase oito horas, em grande parte devido à limitação de capacidade dos data centers. Com o uso exponencial da plataforma para geração de código via IA, o GitHub passou a depender de outros provedores de data centers, incluindo a Amazon Web Services (AWS).
Em algumas circunstâncias, produtos utilizados nos EUA tiveram que ser operados a partir de regiões de data centers internacionais, pois as instalações mais próximas não possuíam capacidade suficiente, o que pode resultar em lentidão nos softwares. Kyle Daigle, diretor de operações do GitHub, informou que a empresa está aumentando sua capacidade e reestruturando seus sistemas para otimizar a eficiência.
Sinais de pressão também atingiram o setor de jogos. O Xbox, que antes oferecia um serviço de streaming de jogos em nuvem ilimitado, comunicou aos assinantes na semana passada que passaria a limitar o tempo de jogo e cobrará usuários que excederem esses novos limites.

