Dois psiquiatras na Nova Zelândia receberam permissão para aplicar o MDMA, a substância química principal do ecstasy, no tratamento de pacientes com casos graves de Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Após um processo regulatório que ultrapassou um ano, os psiquiatras Gary Wynn e Tom Paterson obtiveram a aprovação da Medsafe, a agência reguladora neozelandesa, para prescrever e administrar a 3,4-metilenodioximetanfetamina. Esta droga sintética psicoativa, conhecida popularmente como “Michael Douglas” ou “bala”, é frequentemente associada a festas e baladas.
Esta deliberação, divulgada nesta sexta-feira (4), posiciona a Nova Zelândia como o segundo país mundial a endossar o uso clínico do MDMA. A Austrália foi pioneira neste campo, permitindo que psiquiatras credenciados utilizassem o MDMA para auxiliar no tratamento do TEPT desde 2023.
David Seymour, vice-primeiro-ministro da Nova Zelândia, afirmou em entrevista ao The Guardian que o MDMA pode ser bastante eficaz no manejo do TEPT através da terapia assistida por psicodélicos. Ele ressaltou que a Nova Zelândia mantém seu compromisso em assegurar o acesso a ‘tratamentos inovadores’.
O TEPT é definido como uma condição de saúde mental desencadeada pela exposição a situações extremamente traumáticas ou estressantes, tais como guerras, desastres naturais, atos de violência ou episódios de abuso.
Uma abordagem terapêutica potencial para essa condição é a terapia assistida por psicodélicos. Este método une a psicoterapia convencional ao uso monitorado de substâncias alucinógenas classificadas como psicodélicas, como a psilocibina encontrada em ‘cogumelos mágicos’ e o LSD. Essas substâncias interagem com os receptores de serotonina cerebrais, podendo funcionar como substitutos da própria serotonina.
O MDMA se enquadra nesta categoria, embora seus efeitos psicodélicos, como as alucinações, não sejam tão proeminentes. Por essa razão, pesquisas recentes investigam o MDMA como um potencial medicamento adjuvante para o tratamento do TEPT. O estudo clínico mais abrangente realizado sobre a substância foi publicado em 2023 na revista Nature Medicine, apresentando resultados promissores. Neste estudo, pacientes com TEPT que usaram MDMA demonstraram uma diminuição significativamente maior dos sintomas quando comparados aos que receberam apenas placebo.
Gary Wynn, psiquiatra, destacou que a vantagem do MDMA reside em sua capacidade de atuar como uma substância empatogênica. Isso significa que ele pode fomentar sentimentos de empatia ou auxiliar o paciente a se abrir durante as sessões de conversa.
Wynn explicou à Radio New Zealand que, na terapia, isso possibilita que indivíduos que sofreram traumas estabeleçam uma conexão com seu terapeuta, sentindo-se seguros e dedicando-se ao difícil trabalho de processar os traumas vividos em um ambiente mais protegido, facilitado pelo uso da droga. Ele acrescentou que este tipo de tratamento consegue acelerar um processo que, normalmente, levaria muitos anos de terapia, para um período muito mais curto devido ao efeito da substância.
O tratamento com MDMA deve ocorrer estritamente em clínicas devidamente autorizadas. Segundo Wynn, a dose administrada por sessão varia entre 120 e 160 miligramas, uma quantidade próxima à utilizada em contextos recreativos. Contudo, é importante notar que o MDMA empregado em ambientes médicos difere substancialmente da versão consumida em festas, que frequentemente é misturada com outras anfetaminas.
Adicionalmente ao MDMA, outros psicodélicos têm chamado atenção devido aos seus potenciais benefícios medicinais. No ano passado, a Nova Zelândia também concedeu autorização para o uso da psilocibina, o componente ativo dos cogumelos mágicos, visando o tratamento da depressão resistente a medicamentos.
