Banco BRICS propõe financiamento alternativo para países em desenvolvimento
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Banco BRICS propõe financiamento alternativo para países em desenvolvimento

Ao longo de muitas décadas, as economias em desenvolvimento dependeram de instituições de Bretton Woods, como o FMI e o Banco Mundial, para obter ajuda financeira. No entanto, essa dependência raramente foi tranquila. Os empréstimos concedidos frequentemente vinham acompanhados de condições rigorosas, programas de ajuste estrutural e enfraquecimento da autonomia fiscal.

Defensores da política de austeridade argumentam que tais medidas disciplinam governos extravagantes, e em alguns casos isso foi verdade. No entanto, o quadro geral mostra que essas intervenções muitas vezes apenas estabilizaram crises de curto prazo, deixando para trás uma autonomia política limitada, uma redução significativa dos gastos sociais e apenas um crescimento moderado a longo prazo.

Para muitos países do Sul Global, essa experiência foi percebida mais como uma invasão do que como uma parceria, pois a pobreza e o subdesenvolvimento persistiram, apesar de décadas de cooperação.

Neste cenário, os BRICS — um bloco composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — surgiram como um contrapeso. A divisão financeira do bloco, o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), lançado em 2014, representa uma tentativa deliberada de mudar a abordagem ao financiamento do desenvolvimento. Diferentemente do FMI e do Banco Mundial, o NDB fornece empréstimos a taxas competitivas, excluindo as pesadas condições características das instituições ocidentais.

O modelo de governança também é significativo: cada membro tem peso de voto igual, garantindo que as nações em desenvolvimento sejam vistas como parceiras, e não como beneficiárias de ajuda.

A experiência da África do Sul demonstra claramente essa diferença. Em agosto de 2026, Pretória assinou dois acordos de crédito no valor de 405 milhões de dólares americanos: 200 milhões de dólares para a construção de um novo hospital terciário em Limpopo e 205 milhões de dólares para um esquema de abastecimento de água em Magalies. As condições foram muito favoráveis: o prazo de reembolso era de 10 anos, com um período de carência de quatro anos e taxas de juros mais baixas.

No mesmo ano anterior, o NDB aprovou um empréstimo de 1 bilhão de dólares para modernizar a infraestrutura urbana em oito municípios, incluindo Joanesburgo, Cidade do Cabo e Tshwane. Esses fundos são destinados a sistemas de abastecimento de água, saneamento, eletricidade e gestão de resíduos — áreas onde a África do Sul enfrenta dificuldades na prestação de serviços.

Para um governo enfrentando restrições orçamentárias, as condições do NDB significam não apenas um endividamento mais barato, mas uma intervenção estratégica na estabilização da infraestrutura urbana.

O Egito também serve de exemplo. Embora o Egito não faça parte dos fundadores dos BRICS, em 2021, Cairo recebeu um empréstimo de 500 milhões de dólares para apoiar projetos de transporte sustentável e energia. Este empréstimo teve condições de juros vantajosas, destacando o mandato do NDB de fornecer financiamento acessível para infraestrutura em países em desenvolvimento.

A participação do Egito mostra a expansão das atividades do banco para além dos membros principais, aumentando o acesso a capital em toda a África e oferecendo aos países uma alternativa às instituições ocidentais, que frequentemente impõem condições politicamente sensíveis.

As implicações para a África são bastante significativas. Os empréstimos do NDB são estabelecidos próximos às taxas de referência globais, tornando-os mais baratos que a dívida comercial. Eles se concentram em infraestrutura, e não em estabilização de curto prazo, direcionando fundos para projetos com efeito de desenvolvimento de longo prazo. Além disso, eles diversificam as fontes de financiamento, reduzindo a dependência de instituições dominantes no Ocidente. Através do financiamento de projetos transfronteiriços, o NDB pode aproximar as economias africanas, promovendo a integração regional.

Além dos empréstimos, os BRICS estão construindo uma nova arquitetura financeira. O Mecanismo de Acordo Contingente (Contingent Reserve Arrangement), com um fundo de reservas cambiais de 100 bilhões de dólares, fornece aos membros uma primeira linha de defesa contra pressões de curto prazo na balança de pagamentos. Discussões sobre desdolarização, incluindo a criação de uma nova moeda de reserva internacional, visam expandir a liquidação bilateral de comércio usando moedas nacionais e reduzir a dependência do dólar americano. Essas iniciativas questionam as normas globais sobre quem decide quem receberá ajuda financeira e sob quais condições.

Claro, problemas persistem. Os empréstimos atrelados às taxas globais expõem os tomadores de empréstimos à volatilidade cambial. Uma gestão eficaz é crucial para garantir o uso produtivo dos fundos; instituições fracas podem minar o efeito alcançado. Além disso, o papel do NDB, sendo uma instituição apoiada pelos BRICS, inevitavelmente será moldado pelo cenário geopolítico em mudança.

No entanto, os riscos não diminuem a importância do que está acontecendo. Pela primeira vez em décadas, os países em desenvolvimento obtiveram uma alternativa confiável ao FMI e ao Banco Mundial — uma que fortalece sua voz, respeita sua autonomia e se concentra nas prioridades de seu desenvolvimento.

Os empréstimos recentes da África do Sul ilustram como o banco BRICS fornece financiamento acessível e direcionado para resolver problemas de infraestrutura. A experiência do Egito mostra que os benefícios se estendem além dos fundadores, oferecendo aos estados africanos um novo modelo de financiamento para o desenvolvimento. Para a África, o NDB é mais do que apenas outro credor; é uma alternativa estratégica capaz de redefinir os métodos de financiamento do crescimento das economias em desenvolvimento. Ao fortalecer a voz do Sul Global, os BRICS não apenas desafiam o domínio das instituições ocidentais, mas também democratizam as normas financeiras globais.

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