Um estudo científico realizado por um professor pesquisador da Universidade Fudan na China e da Universidade de Cambridge no Reino Unido foi publicado na revista Nature Communications. Os autores, Emmanuel A. Stamatikas e Xinyu Liang, investigaram como o cérebro reage à arte e à beleza, que é objeto da neuroestética.
As pessoas frequentemente sentem uma forte atração por obras de arte, como a pintura 'Nascer do Sol sobre a Água' (1825-30) de Joseph Mallord William Turner, mesmo que não consigam explicar a razão desse sentimento. Embora a opinião geral diga que 'a beleza está nos olhos de quem vê', os estudos mostram que nós compartilhamos coletivamente a percepção de beleza, apesar de sua aparente individualidade.
Em um estudo recente, os autores tentaram mapear essa experiência estética comum. Eles descobriram que o cérebro não considera a experiência estética como um todo unificado, mas a divide em duas componentes principais. Uma componente lida com o que está representado na imagem — seja paisagem, objeto ou figura. A outra componente analisa qual prazer isso traz, utilizando os mesmos circuitos neurais usados na percepção de comida ou dinheiro.
Esses dois mecanismos neurais distintos se unem para formar cada julgamento de beleza que fazemos ao observar obras visuais. Neurocientistas debatem este tema há muito tempo, propondo diferentes pontos de vista: alguns focam na percepção (como o cérebro absorve composição, contraste e forma), outros na avaliação e recompensa (colocando a beleza nas cadeias de valor do cérebro), e terceiros nos sistemas de imaginação e autorreflexão.
Para conduzir o estudo, 34 voluntários observaram 96 pinturas tradicionais chinesas em aquarela em um aparelho de ressonância magnética 7T, potente o suficiente para detectar as menores alterações no fluxo sanguíneo indicativas de atividade cerebral. Após a sessão, cada participante avaliou como as pinturas o faziam sentir.
Em vez de analisar diretamente essas avaliações brutas, os pesquisadores utilizaram uma ferramenta de uma fonte menos óbvia — os mecanismos de recomendação usados por serviços como Netflix e Spotify. Essas ferramentas, conhecidas como algoritmos de filtragem colaborativa, são excelentes em identificar padrões ocultos nas preferências das pessoas. Sua aplicação às avaliações estéticas revelou duas dimensões profundas nas respostas de todos os participantes.
A primeira dimensão classificou as pinturas pela semelhança com figuras e pelo grau de semelhança com paisagens, refletindo a representação conceitual de cada pintura. A segunda dimensão as classificou do menos amado ao mais amado entre todos os participantes, servindo como medida do valor emocional ou valor hedonista (prazer sensorial da experiência).
Apesar de sua contribuição adicional para a experiência estética geral, o cérebro manteve essas duas dimensões notavelmente separadas. O conteúdo visual foi interpretado através dos caminhos visuais — circuitos familiares que permitem distinguir um rosto de uma cena. O valor hedonista, por outro lado, foi decodificado em outras áreas mais profundas do cérebro, responsáveis pela recompensa e prazer. Em termos simples, o cérebro parece julgar uma obra visual usando praticamente o mesmo mecanismo que usa para avaliar todo o resto no mundo ao seu redor.
Também foi estabelecido que a intensidade da codificação deste quadro estético bidimensional dependia do nível de habilidade da pessoa na área de artes visuais. Especificamente, a diferença manifestou-se na chamada 'rede de modo padrão' (default mode network), um sistema de conexões no cérebro relacionado à imaginação, consciência, autorreflexão e construção de significado — que muitas teorias importantes colocam no centro da experiência estética.
Esses resultados sugerem que, além do simples impacto, o treinamento em artes visuais aparentemente altera a maneira como o cérebro representa a beleza desde o início. Este último ponto é de grande importância. Se a experiência estética possui uma estrutura mensurável no cérebro, e se a criação e a percepção de arte podem transformá-la, então a educação artística deixa de ser apenas um enriquecimento cultural e torna-se uma espécie de treinamento que altera a relação entre percepção, emoções e significado.
As implicações clínicas seguem a mesma linha. As terapias baseadas em arte, para depressão, traumas e demência, são há muito valorizadas com base na intuição e em testemunhos individuais. Uma explicação neural mais clara nos permite testá-las e melhorá-las. Finalmente, como cada vez mais imagens ao nosso redor — em publicidade, design e telas — são geradas por máquinas, o conhecimento de como a beleza se manifesta no cérebro humano torna-se mais importante do que nunca.
Frequentemente, tendemos a ver a beleza como algo puramente pessoal e acreditamos que questões científicas sobre ela são uma perda de foco. Com base em trabalhos inovadores em neuroestética, nossos resultados dizem o contrário. A beleza tem uma estrutura, e essa estrutura diz sobre o tipo de ser que nos tornamos ao longo de incontáveis anos de evolução. Nós não apenas olhamos para o mundo; pelo contrário, parece que não podemos parar de julgá-lo por sua beleza.
