Ensinar meninos a expressar emoções pode ajudar a prevenir suicídios
Leia mais
IOL
iol.co.za

Ensinar meninos a expressar emoções pode ajudar a prevenir suicídios

Em conexão com a Semana de Prevenção ao Suicídio, que ocorre na África do Sul de 4 a 10 de setembro, o tema da saúde mental no país está novamente em destaque, especialmente entre os homens.

Para muitos meninos sul-africanos, o processo de esconder emoções começa muito antes de eles conseguirem entender a natureza desses sentimentos. Crenças comuns como 'Meninos não choram', 'Seja um homem' ou 'Não seja fraco' podem parecer inofensivas na infância, mas moldam a forma como os jovens lidam com ansiedade, depressão, luto e outros problemas de saúde mental na vida adulta.

De acordo com dados apresentados pela plataforma de saúde mental Panda, dos 13.774 casos de suicídio registrados na África do Sul em 2019, 10.861 foram entre homens, em comparação com 2.913 mulheres. Esses números indicam uma desigualdade significativa, mas por trás das estatísticas estão homens que poderiam ter considerado pedir ajuda como um sinal de fraqueza por anos.

Simangaliso Kubeka, de 17 anos, da vila de Alexandria, testemunha essa realidade entre os jovens de sua comunidade. Ele observa que a maioria dos jovens não consegue discutir seus problemas: ou ficam em silêncio ou mentem. Kubeka enfatiza que é difícil para os homens demonstrarem fraqueza, enquanto a sociedade quase espera emocionalidade das mulheres.

Allan Sweddan, psicólogo clínico, cofundador e co-CEO da Panda, afirma que os homens procuram apoio em saúde mental com menos frequência, mesmo experimentando as mesmas dificuldades emocionais que as mulheres. Ele explica que, embora o aplicativo esteja disponível para todos que precisam de apoio, os homens procuram ajuda com menos frequência.

A pressão para parecer forte impede os homens de admitir suas dificuldades. Em vez de falar sobre medo, tristeza ou vulnerabilidade, alguns podem recorrer a comportamentos destrutivos ou expressar o sofrimento através da raiva. A Panda aponta que o estigma da vulnerabilidade emocional em homens pode contribuir para problemas como abuso de substâncias psicoativas, bullying, raiva ao dirigir e violência de gênero.

Neste contexto, é fundamental mudar a percepção de masculinidade. Em vez de ensinar os meninos a suprimir emoções, as intervenções podem ajudá-los a aprender a entender e expressar seus sentimentos antes que se tornem insuperáveis.

Jacob Tema, assistente social especializado em intervenções de violência de gênero na organização Rays of Hope em Alexandria, acredita que a prevenção deve começar quando os meninos ainda são jovens. Sua organização realiza um programa de controle da raiva para meninos e adolescentes jovens na região. Tema espera que trabalhar com esses jovens desde cedo ajude a criar um ambiente mais acolhedor e aceitador quando se tornarem homens, para que lidem com sua raiva, dor, depressão, ansiedade e luto de maneira menos destrutiva. O objetivo do programa não é apenas ensinar a controlar a raiva, mas dar aos jovens uma linguagem para entender o que está por trás dessa raiva. Um jovem que aprende que tristeza, medo ou luto podem ser verbalizados está melhor preparado para procurar ajuda no futuro.

Além de mudar as atitudes em relação à saúde mental, as pessoas precisam de acesso a apoio quando estão prontas para solicitá-lo. Sweddan acredita que a tecnologia pode remover barreiras que impedem a busca por ajuda profissional. Ele observa que a capacidade de usar um smartphone para buscar apoio para problemas ou organizar confidencialmente uma sessão com um profissional é uma ferramenta valiosa fornecida pelas inovações digitais. A Panda oferece acesso a apoio de saúde mental e bem-estar através de seu aplicativo, criando um espaço privado para buscar ajuda e se conectar com especialistas.

No entanto, embora as plataformas digitais aumentem a acessibilidade ao apoio, o problema cultural permanece mais sério. Os homens devem perceber que discutir problemas não os torna menos masculinos, e os meninos devem crescer com a compreensão de que vulnerabilidade não é o oposto de força. Além disso, as comunidades devem facilitar às pessoas a possibilidade de dizer 'Eu não estou bem' sem temer zombaria ou julgamento. Assim, a Semana de Prevenção ao Suicídio não é apenas uma lembrança dos falecidos, mas também uma oportunidade para refletir sobre o que pode ser feito antes que alguém chegue a esse estado. Às vezes, a prevenção começa com a criação de um espaço seguro onde a pessoa se sente confiante o suficiente para falar, pois ser forte não deve significar sofrer em silêncio.

Popular