O desenho de uma criança muitas vezes tem um prazo de validade muito curto: pode ficar na parede de casa por apenas alguns dias, ser preso à geladeira ou dobrado cuidadosamente em uma pasta escolar. Os pais admiram o trabalho, a criança recebe elogios e, em seguida, surge um novo desenho que toma seu lugar. Com o tempo, esse desenho frequentemente acaba em uma gaveta, armário ou canto esquecido da pasta.
Mas e se esse mesmo desenho se tornasse parte de um museu? E se ele pudesse ser visto não apenas pelos pais e professores, mas também por outras crianças e pessoas de todos os cantos do mundo?
Essa questão deu origem ao Museu de Arte Infantil da Índia (CAMI). O que torna essa história ainda mais notável é o fato de que este museu digital foi lançado por duas crianças em uma idade em que a maioria das crianças ainda carrega seus desenhos nas mochilas escolares.
Em 2022, Krish Naval, de 12 anos, e Manya Rungta, de 14 anos, uniram forças para lançar o CAMI. Quatro anos depois, esta plataforma digital transformou-se em uma comunidade com mais de 300.000 participantes. Mais de 20.000 pinturas e obras de arte foram carregadas na plataforma, e o site atraiu mais de um milhão de visitantes.
Krish Naval é atualmente um aluno do 11º ano. Desde cedo, ele se interessou por desenho e outras atividades criativas, mas seu interesse nunca se limitou apenas à criação de algo no papel. Ele demonstrou interesse igual por tecnologia, gostando de criar coisas novas, experimentar ideias e aprender o que pode ser criado em torno da própria criatividade.
Com o tempo, ele percebeu que o que mais o atraía não era o processo de criação da arte em si, mas sim a reflexão sobre o que poderia ser construído em torno dela. Ele também ficou intrigado com a forma como diferentes crianças podem olhar para o mesmo objeto e imaginar coisas completamente diferentes. Para uma criança, uma árvore pode ser apenas uma árvore, mas para outra, a mesma árvore pode se tornar um personagem de uma história complexa. Essa ideia acabou sendo um dos pilares do CAMI.
Em uma conversa com a YourStory, o cofundador do CAMI, Krish Naval, declarou: «Meu interesse pela arte nunca se limitou a aprender a desenhar ou escrever. Com o tempo, comecei a me interessar mais pela questão do que pode ser criado em torno da arte. Cada criança vê o mesmo objeto de maneira diferente, e essa ideia se tornou central para o CAMI. Para mim, o CAMI se tornou uma maneira de unir criatividade, tecnologia e empreendedorismo».
Krish começou a pensar seriamente sobre essa ideia durante a pandemia de COVID-19. Na época, ele notou algo interessante: artistas profissionais tinham museus, galerias e várias plataformas digitais onde podiam exibir seus trabalhos. Mas havia muito pouco espaço dedicado especificamente às crianças, onde suas obras de arte pudessem ser compartilhadas e sentidas por outros, e não simplesmente entregues e esquecidas.
Isso levou a uma pergunta simples: o que acontece com o desenho de uma criança depois que ele é feito? Não havia um plano de negócios complexo por trás do CAMI; a ideia nasceu dessa única pergunta. Na maioria dos casos, o desenho passa algum tempo em uma pasta escolar ou na parede de casa, talvez fique um tempo na geladeira, antes de acabar em uma gaveta ou armário. Enquanto isso, as obras de artistas renomados encontram seu lugar em galerias e museus. Krish acreditava que as crianças mereciam algo semelhante. Seus trabalhos também poderiam ser vistos, avaliados e levados a sério.
Krish enfatizou: «Não começamos o CAMI com a ideia de que um dia se tornaria uma grande organização. Nós apenas queríamos que uma criança visse seu próprio desenho em um museu e sentisse que aquele espaço pertencia a ela».
O começo foi modesto: Krish e Manya pediram aos amigos para compartilhar seus desenhos. Mas à medida que a iniciativa crescia, eles descobriram algo mais. Krish observou: «As crianças nem sempre precisam de outro concurso. Elas precisam de um espaço onde sua criatividade possa simplesmente ser vista».
Hoje, o CAMI se define pelo conceito de «De crianças, para crianças, sobre crianças». O objetivo mais amplo é construir uma comunidade criativa com participação de crianças e para elas. O CAMI alcançou mais de 200 cidades e vilarejos em toda a Índia. Sua comunidade cresce graças às escolas, jovens embaixadores, crianças e vários programas criativos.
Dar um lugar para os desenhos das crianças em uma galeria digital não foi a única tarefa do CAMI. Krish e sua equipe também perceberam um problema maior: o acesso à educação artística na Índia não é nada igual. Em muitas escolas, a arte ainda é vista como uma atividade extracurricular, e não como uma parte importante do aprendizado. Programas de arte de qualidade, professores treinados e recursos educacionais criativos não estão disponíveis para todas as crianças.
O CAMI tentou remediar parte dessa lacuna com ferramentas digitais. A plataforma desenvolveu materiais educacionais para crianças, incluindo vídeos sobre formas tradicionais de arte indianas. O objetivo não é apenas ajudar as crianças a desenhar melhor, mas também apresentá-las ao patrimônio cultural da Índia e incentivar a curiosidade pelas tradições artísticas do país.
Krish acredita: «Nós acreditamos que a criatividade não está em fazer um quadro perfeito. Ela está na imaginação, na observação, na experimentação e na busca por formas de autoexpressão». Ele acrescenta: «A educação artística não é a mesma em todas as escolas da Índia. É por isso que trabalhamos em centenas de vídeos e materiais didáticos. Muitos deles se concentram nas formas tradicionais de arte indianas para que as crianças possam conhecer seu patrimônio cultural».
A plataforma digital CAMI permite que as crianças compartilhem seus trabalhos com um público mais amplo. Além do museu e das galerias digitais, a plataforma também realiza ArtFest, concursos criativos, galerias escolares, blogs e boletins informativos. O CAMI colabora com escolas, ajudando a criar galerias de arte digitais especiais para os alunos.
A organização também experimentou com novas tecnologias, como mundos virtuais e metaverso, para criar novas formas de as crianças perceberem a arte. Mas enquanto a tecnologia continua a evoluir, a ideia principal do CAMI permanece inalterada: o foco permanece na criança e em sua criatividade.
Desde sua fundação, o CAMI opera com capital próprio, sem atrair investimentos. Nas fases iniciais, os custos associados à plataforma digital, hospedagem, design e tecnologia foram cobertos por apoio familiar e recursos existentes. Em vez de focar imediatamente na arrecadação de fundos, Krish estava mais interessado em responder a outras perguntas: as crianças realmente gostariam de usar tal plataforma? A ideia seria útil para as escolas? Krish afirma: «Queríamos manter o acesso simples e aberto para o maior número possível de crianças desde o início. Nosso primeiro objetivo era entender se as crianças e as escolas aceitariam essa ideia. Por isso, primeiro nos concentramos na utilidade e na participação».
Mesmo hoje, o sucesso do CAMI é medido não apenas pela receita ou lucratividade. Krish diz: «Para nós, é mais importante quantas crianças podem compartilhar sua criatividade e seus desenhos».
O CAMI recebeu reconhecimento em nível nacional e internacional. A iniciativa ganhou o Global Youth Award for Creative Innovation e o Bower School of Entrepreneurship Top-18 Young Entrepreneurs Award. Krish também participou da conferência MuseumNext Digital Museums e foi reconhecido como laureado do prêmio Shri Innovation Awardee.
No entanto, criar tal iniciativa em uma idade tão jovem acarreta seus próprios desafios. Segundo Krish, o maior desafio nas fases iniciais foi conquistar a confiança. Não foi fácil convencer escolas e instituições de que uma iniciativa lançada por crianças poderia existir a longo prazo. À medida que o CAMI crescia, surgiam novos problemas: manter a qualidade, garantir a segurança das crianças e gerenciar uma comunidade em rápida expansão. E havia a escola. Equilibrar aulas, exames, reuniões e eventos nunca foi fácil.
Krish observa: «Quando começamos, éramos muito jovens, e conquistar a confiança foi nosso maior problema. Mais tarde, tivemos que prestar atenção constante à qualidade e à segurança das crianças».
Gerenciar o CAMI paralelamente aos estudos lhe ensinou uma lição importante. Ele diz: «Gerenciar o CAMI junto com a escola não foi fácil. Mas aprendi que não preciso fazer tudo sozinho. Uma equipe forte, voluntários e embaixadores podem ajudar a avançar».
Para o jovem fundador, este pode ser um dos aprendizados mais importantes: em vez de tentar fazer tudo sozinho, aprender a confiar a responsabilidade às pessoas certas. Nos próximos anos, Krish não quer que o CAMI seja apenas um site onde as crianças carregam seus desenhos. O plano inclui expandir a rede escolar, fortalecer a comunidade internacional e criar uma experiência de museu mais envolvente e interativa. Ele também está interessado em estudar como novas tecnologias, como inteligência artificial (IA) e mundos virtuais, podem transformar a forma como as crianças percebem a arte e os museus. Mas mesmo com a expansão do CAMI, uma coisa permanece importante: seu espírito original não deve mudar. Krish conclui: «Quero garantir que as oportunidades de uma criança não sejam definidas por saber se ela vive em uma cidade grande ou em uma cidade pequena. As plataformas digitais podem ajudar a diminuir essa distância».
Na sua opinião, nem toda criança precisa se tornar artista. Krish afirma: «Nem toda criança é obrigada a se tornar artista. Mas toda criança deve sentir que sua criatividade tem valor. A arte não é apenas uma matéria. É também uma forma de pensar e de entender o mundo».
Nem todo desenho precisa ser preservado, mas toda imaginação merece um lugar. A história do CAMI não é apenas a história de duas crianças que lançaram uma iniciativa. Ela levanta uma questão mais ampla: quão seriamente levamos a criatividade das crianças? Nem todo desenho se tornará uma obra-prima, e nem toda criança se tornará um artista profissional. E, talvez, esse não seja o objetivo. O importante é que nenhuma criança jamais sinta que sua imaginação não importa. Em 2022, Krish e Manya começaram com uma pequena ideia: criar um espaço onde as crianças pudessem fazer mais do que apenas entregar seus desenhos e esquecê-los. Eles queriam que as crianças vissem sua criatividade apresentada ao mundo. Quatro anos depois, o CAMI cresceu para uma comunidade de mais de 300.000 participantes. Mas a questão que o inspirou permanece a mesma: se dermos às crianças o espaço certo para a criatividade, talvez elas aprendam mais do que apenas como desenhar melhor. Talvez elas descubram uma nova maneira de ver o mundo.
