A OpenAI alegou que seus agentes de inteligência artificial (IA) conseguiram solucionar um dos problemas matemáticos mais relevantes e ainda sem resposta: uma questão ligada às equações de Navier-Stokes, que modelam o movimento de fluidos. Esta potencial solução pode garantir um prêmio de US$ 1 milhão (equivalente a cerca de R$ 5,4 milhões), mas matemáticos estão levantando dúvidas sobre a celeridade do progresso e a metodologia empregada pela empresa.
A polêmica intensificou-se após Tristan Buckmaster, matemático da Universidade de Nova York (EUA), declarar que foi questionado por colaboradores da OpenAI sobre seu trabalho referente ao mesmo problema. Em uma reunião ocorrida em 6 de setembro, ele relatou ter recebido a indagação: «Por que você arruinaria sua carreira?».
Buckmaster detalhou este incidente em uma declaração pública, expressando suspeitas de que a OpenAI possa ter se aproveitado de pesquisas desenvolvidas por ele e Levent Alpöge, matemático da Anthropic.
As equações de Navier-Stokes foram concebidas no início do século XIX por Claude-Louis Navier e George Gabriel Stokes. Elas são fundamentais para descrever a dinâmica de fluidos, auxiliando na explicação de fenômenos que variam desde o fluxo de ar gerado por hélices até a circulação sanguínea nas artérias.
O cerne do desafio matemático reside em determinar se estas equações sempre produzirão resultados finitos ou se, sob certas circunstâncias, podem manifestar uma singularidade, conhecida como «blowup». Neste cenário, uma variável física, como a pressão ou a velocidade de um fluido, poderia crescer infinitamente em um ponto específico no espaço e no tempo.
Esta questão faz parte dos Sete Problemas do Milênio estabelecidos pelo Clay Mathematics Institute, onde cada solução correta oferece um prêmio de US$ 1 milhão (aproximadamente R$ 5,4 milhões). Para investigar o tema, a OpenAI aplicou uma técnica denominada forcing, que consiste em introduzir uma perturbação suave e controlada no fluido simulado.
A companhia mobilizou cerca de dez mil agentes de IA para trabalhar simultaneamente na questão, mantendo-os ativos por aproximadamente 88 horas. Inicialmente, cerca de 100 agentes dedicaram-se à análise das equações de Euler, uma variação das equações de Navier-Stokes que ignora a viscosidade.
Após cerca de 50 horas de processamento, os agentes identificaram ocorrências de blowups nas equações de Euler. Essa descoberta motivou a equipe a concentrar seus esforços no problema de Navier-Stokes. A OpenAI alega que seus agentes geraram uma singularidade na qual um vórtice se torna progressivamente mais estreito, alongado e fino, fazendo com que o fluido gire em direção ao infinito, matematicamente falando.
A comprovação foi enviada ao Lean, um sistema usado para validar cada passo dos argumentos matemáticos. De acordo com a OpenAI, os agentes trocaram 2,7 milhões de mensagens e geraram cerca de 130 bilhões de tokens.
Em uma coletiva de imprensa realizada na terça-feira (8), representantes da empresa informaram que uma tarefa similar executada para um cliente teria um custo de US$ 15 milhões (cerca de R$ 81 milhões).
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Sam Altman, CEO da OpenAI, admitiu que a empresa tomou conhecimento do trabalho de Buckmaster e Alpöge antes de divulgar seu próprio achado. Ele comentou: «Estávamos curiosos para saber se o nosso também conseguiria». Altman acrescentou que as metodologias «parecem diferentes», o que é contestado por Buckmaster.
A OpenAI mencionou os dois matemáticos em sua comunicação, reconhecendo a resolução independente do problema de Euler utilizando forcing, e ofereceu a eles a oportunidade de publicar o trabalho conjuntamente.
A controvérsia também abrange o uso do Codex, assistente de programação da OpenAI. Buckmaster afirmou ter utilizado essa ferramenta durante sua pesquisa, inserindo esboços do trabalho feito com Alpöge nela. O matemático declarou ter perguntado à OpenAI se as sessões do Codex poderiam ser acessadas ou usadas para treinar modelos, mas não obteve resposta sobre essa questão.
A OpenAI garantiu que funcionários ou agentes da empresa não tiveram acesso ao trabalho do casal «por nenhum meio» antes de sua divulgação pública. Contudo, a companhia reconheceu que não poderia descartar a possibilidade de que dados anonimizados provenientes do uso de seus produtos tenham contribuído para a melhoria de seus modelos.
Buckmaster também alegou que Sébastien Bubeck, responsável pela pesquisa matemática na OpenAI, teria pressionado duas vezes para remover Alpöge da autoria de um artigo que os dois matemáticos estavam preparando. Alpöge pertence à Anthropic, concorrente da OpenAI.
Bubeck refutou as acusações, classificando as alegações como «falsas e inflamatórias». Ele sustentou que a OpenAI não utilizou os prompts ou as provas dos pesquisadores para guiar seus modelos.
Por sua vez, Buckmaster afirmou não ter visto a prova apresentada pela OpenAI e desconhece como o modelo alcançou o resultado ou se os dados dos pesquisadores foram empregados. Ele solicitou uma investigação independente sobre a origem do trabalho da empresa.
Diego Córdoba expressou surpresa com a rapidez do surgimento do resultado. Outros matemáticos também manifestaram apreensão quanto à forma como a descoberta foi comunicada.
Terence Tao, professor de matemática da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), observou que o episódio demonstra como o simples boato de que alguém está trabalhando em um grande problema pode impulsionar um esforço maciço de IA para resolvê-lo antes que a pesquisa original seja finalizada. Segundo Tao, os incentivos financeiros podem levar os pesquisadores a reterem ideias promissoras da comunidade científica, prejudicando uma tradição secular de ciência aberta.
A prova da OpenAI ainda aguarda a revisão formal por pares. O Clay Mathematics Institute também não confirmou nem rejeitou oficialmente a solução apresentada pela empresa. O artigo foi inicialmente publicado no Olhar Digital.
