Existe um fascínio em apreciar motocicletas em 2026. Embora o autor seja um entusiasta de automóveis e tenha se tornado jornalista automotivo após mais de 15 anos, ele observa que muitas motocicletas novas ainda mantêm características de modelos antigos, como rodas raiadas, acabamento cromado e carburador.
Essa preservação de design é notável em alguns mercados, como exemplificado pela Yamaha TW200, lançada em 1987. Essa moto permanece praticamente inalterada, apresentando um motor monocilíndrico de 197cc e 16 cv com carburador Mikuni e câmbio de cinco marchas. Apesar de pequenas melhorias pontuais em freios, elétrica e amortecedor traseiro, ela mantém seu tanque de sete litros, farol quadrado com lente de vidro e painel de instrumentos simples. Nos Estados Unidos, ela custa US$ 5.000.
A inspiração para a aventura da TW200 veio de uma concorrente: a linha RV da Suzuki, que também persiste até hoje. A linha RV da Suzuki é conhecida por ser extremamente fiel ao seu design original, e é frequentemente chamada de VanVan.
Em 1971, a Suzuki introduziu a RV90, cujo objetivo era fundir trabalho e lazer em um único veículo. Essa moto não foi inicialmente destinada ao mercado japonês, que já era dominado pela Honda; a estratégia foi focar nos Estados Unidos, especificamente nas costas Leste e Oeste, onde havia alta demanda por veículos de lazer.
O apelido oficial, VanVan, pode ser uma onomatopeia do som do motor ou um advérbio de intensidade. A moto era ideal para a praia devido aos seus pneus balão, que utilizavam rodas de 10 polegadas e baixa pressão. Contudo, a Suzuki também a projetou para tarefas agrícolas ou campos de golfe.
Embora lembrasse uma cub pelo motor horizontal e tanque sob o banco, a VanVan possuía um câmbio tradicional de quatro marchas com embreagem manual, diferentemente das cub. Seu motor dois-tempos de 88cc gerava 8 cv a 6.000 rpm e 1 kgfm de torque a 4.000 rpm. O diferencial genial era a bomba de ar embutida no quadro, permitindo encher os pneus após o uso na areia ou lama para rodar no asfalto.
Este conceito de 'pleasure bike' (moto de lazer) foi um sucesso, levando a Suzuki a criar vários modelos. Em 1972, surgiu a VanVan 50, mais acessível e com câmbio semiautomático, e a VanVan 125, mais potente, com câmbio de cinco marchas e rodas assimétricas. Posteriormente, a VanVan 75 preencheu a lacuna intermediária, todos compartilhando a filosofia de motores monocilíndricos dois-tempos e baixo peso.
A linhagem original durou mais de uma década, com os últimos modelos saindo por volta de 1982. Esse nicho de motos de lazer com pneus grandes começou a influenciar a indústria. Em resposta, a Yamaha lançou a linha BW (Big Wheel) em 1985, essencialmente motos de trilha com pneus de quadriciclo, demonstrando a viabilidade de criar produtos novos com peças de prateleira.
A Yamaha expandiu essa ideia com a BW80, BW200 e BW350. No entanto, essas motos não eram homologadas para asfalto e eram destinadas a propriedades privadas. A Honda reagiu em 1986 com a TR200 Fat Cat, utilizando o conjunto mecânico de quatro tempos de seus triciclos ATC, adicionando partida elétrica e embreagem centrífuga automática, tornando-a popular entre iniciantes e fazendeiros americanos.
Ambas as linhas, BW e Fat Cat, tiveram vida curta por serem produtos muito nichados, dependentes do bom momento econômico do Japão. O público demonstrou interesse no conforto e tração dos pneus largos. Assim, a Yamaha focou na ideia, resultando na TW200 de 1987, que combinou pneus balão com um motor quatro tempos, piscas, farol e placa para uso legal.
A TW200 dominou o segmento por quase vinte anos até que a Suzuki retomou a linhagem VanVan em 2002, com a RV200 e, no ano seguinte, a RV125. Essas novas versões abandonaram o estilo cub original, adotando uma aparência mais próxima da TW200, mas mantendo elementos clássicos da VanVan, como o farol redondo.
A RV200 utilizava um monocilíndrico quatro-tempos refrigerado a ar de 199cc, entregando 16 cv a 8.000 rpm. Já a RV125 usava um motor quatro-tempos carburado de 124cc, produzindo 12 cv a 9.500 rpm. Ambas foram concebidas para velocidades baixas em terrenos de pouca aderência. Em 2007, a RV125 passou a usar injeção eletrônica. Apesar da similaridade de desempenho com a TW200, a Yamaha havia estabelecido a referência no segmento, e a Suzuki buscou competir nesse espaço até 2017, quando retirou ambos os modelos do mercado.
