O portal Olhar Digital relatou recentemente a descoberta de uma pequena lua orbitando um asteroide que foi nomeado em homenagem a Ayrton Senna. Este tricampeão mundial de Fórmula 1 não é o único brasileiro a receber tal honraria, visto que um renomado compositor e uma jovem astrônoma também têm seus nomes registrados em corpos celestes.
O processo de nomeação oficial de um asteroide é estritamente regulamentado pela União Astronômica Internacional (IAU) e pelo Minor Planet Center (MPC), que é o órgão encarregado de catalogar e monitorar os menores corpos do Sistema Solar.
A nomeação inicia-se com a confirmação da descoberta, momento em que o objeto recebe um código provisório alfanumérico indicando o ano e a quinzena da localização. Para padronizar esse registro, a IAU divide o ano em 24 quinzenas, atribuindo uma letra de A a Y a cada período de quinze dias.
Antes de obter um nome definitivo, o corpo celeste deve ter sua órbita calculada com precisão matemática, o que demanda anos de observações contínuas em diversos pontos de sua trajetória solar. Somente após a consolidação completa da órbita e a atribuição de um número sequencial fixo, o descobridor adquire o direito de propor uma denominação oficial.
As propostas devem seguir diretrizes da IAU, exigindo que os nomes sejam pronunciáveis, tenham entre quatro e dezesseis caracteres, não sejam ofensivos nem muito parecidos com outros objetos astronômicos. Há uma regra de cem anos após o falecimento para homenagens a figuras políticas ou militares, e nomes de cunho comercial são vetados.
Não existe um prazo fixo para a oficialização, pois depende das observações necessárias para definir a órbita. Historicamente, a IAU estipulou um período de cerca de dez anos para que o descobridor submeta sua sugestão após a numeração do asteroide. Após a avaliação pelo grupo de nomenclatura, a proposta é publicada oficialmente.
Personalidades brasileiras homenageadas em asteroides
Foram selecionadas dez personalidades brasileiras cujos nomes foram eternizados em asteroides espalhados pelo Sistema Solar.
Um exemplo é o asteroide avistado em 11 de outubro de 1985 por Carolyn e Eugene Shoemaker no Observatório do Monte Palomar, nos Estados Unidos. Inicialmente identificado como 1985 TP3, ele recebeu o nome de (6543) Senna em 1995. Esta homenagem foi uma iniciativa da Sociedade Astronômica do Sul da Austrália em conjunto com o Fã-Clube de Ayrton Senna, sendo simbólica, dado que o Grande Prêmio da Austrália de 1993, realizado em Adelaide, marcou a última vitória do piloto antes de seu falecimento em um acidente na Itália em 1994.
Heitor Villa-Lobos, considerado o maior compositor das Américas no século XX, revolucionou a música clássica ao incorporar elementos do folclore brasileiro, do choro e do modernismo às formas eruditas tradicionais. Suas composições, como as Bachianas Brasileiras e os Choros, promoveram a cultura nacional no cenário artístico global, consolidando-o como uma figura essencial da arte universal.
O asteroide dedicado ao maestro foi descoberto em 5 de agosto de 1991 pelo astrônomo Eric Walter Elst, no Observatório Europeu do Sul (ESO), em La Silla, no Chile. Registrado inicialmente como 1991 PQ1, o corpo celeste recebeu o nome oficial 7244 Villa-Lobos pela União Astronômica Internacional (IAU) em reconhecimento ao legado do compositor.
Nicole Semião, conhecida mundialmente como Nicolinha, a «astrônoma amadora mais jovem do mundo», é natural de Alagoas. Aos 13 anos, ela ganhou notoriedade ao participar do programa de ciência cidadã da NASA, a Colaboração Internacional de Pesquisa Astronômica (IASC), onde já havia identificado dezenas de asteroides. Ela atua como embaixadora mirim do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), além de ser palestrante e idealizadora de projetos educacionais, sendo um exemplo no incentivo à ciência infantil.
A homenagem a Nicolinha partiu do astrônomo Robert Holmes Jr., do Instituto de Pesquisa Astronômica (ARI), nos Estados Unidos, que localizou o corpo celeste em 26 de setembro de 2006 e sugeriu a denominação oficial 292352 Nicolinha, em reconhecimento ao trabalho da jovem na divulgação científica.
Daniela Lazzaro, pesquisadora titular do Observatório Nacional, é uma das maiores especialistas do país no estudo físico e dinâmico de corpos menores do Sistema Solar. Sua carreira inclui a liderança de projetos pioneiros no mapeamento espectroscópico de asteroides e um papel crucial na consolidação da ciência planetária e da astronomia observacional no Brasil.
O corpo celeste que carrega seu nome foi descoberto em 28 de fevereiro de 1981 pelo astrônomo Schelte J. Bus no Observatório de Siding Spring, na Austrália. Catalogado inicialmente como 1981 DQ2, o objeto foi nomeado 3602 Lazzaro pela União Astronômica Internacional (IAU) em tributo às suas importantes contribuições para o estudo da composição e evolução dos asteroides.
Luiz Eduardo da Silva Machado, pioneiro da astronomia moderna no Brasil, atuou como professor e diretor do Observatório do Valongo, da UFRJ. Ele dedicou décadas ao ensino, à formação de novos cientistas e ao cálculo preciso de trajetórias de cometas e asteroides, sendo fundamental para elevar a astrometria brasileira ao patamar internacional. O astrônomo faleceu em 1992, aos 64 anos.
Descoberto em 1º de junho de 1980 pelo astrônomo Henri Debehogne no Observatório de La Silla, no Chile, o asteroide recebeu inicialmente o código 1980 MG. A homenagem oficial ocorreu com a atribuição da designação 2543 Machado, perpetuando a trajetória do professor e astrometrista brasileiro no catálogo astronômico global.
Mais informações
Silvia Giuliatti Winter, professora titular do Câmpus de Guaratinguetá da Unesp, é reconhecida internacionalmente por seus estudos sobre a dinâmica de anéis planetários, satélites naturais e pequenos corpos do Sistema Solar. Além de sua pesquisa acadêmica, ela se empenha ativamente na formação de cientistas e no fomento à participação feminina nas ciências exatas.
O asteroide foi detectado em 2 de março de 1981 pelo astrônomo Schelte J. Bus durante o levantamento UK Schmidt-Caltech Asteroid Survey, no Observatório de Siding Spring, na Austrália. Originalmente registrado como 1981 EO24, o corpo recebeu o nome oficial 10696 Giuliattiwinter em reconhecimento às suas contribuições na mecânica celeste.
Othon Cabo Winter, professor e pesquisador titular da Unesp em Guaratinguetá, é uma das principais referências científicas em mecânica celeste e astrodinâmica no Brasil. Suas investigações abrangem a formação planetária, a estabilidade de órbitas de asteroides triplos e o estudo de regiões como o Cinturão de Kuiper e os asteroides troianos.
Assim como sua colega da mesma instituição, este asteroide foi descoberto em 2 de março de 1981 por Schelte J. Bus no Observatório de Siding Spring, na Austrália. O corpo celeste foi inicialmente codificado como 1981 EO40, até que a União Astronômica Internacional (IAU) formalizou a denominação 10697 Othonwinter para celebrar sua contribuição aos estudos da dinâmica orbital espacial.
Silvana Copceski Stoinski, formada em Matemática e especialista em Física e Ensino, dedica-se à popularização da ciência e à educação cidadã desde 2011. Como coordenadora nacional do Programa Caça Asteroides do MCTI, realizado em colaboração com a NASA, ela promove o engajamento de alunos e professores na análise de imagens astronômicas reais para a descoberta de corpos celestes, além de liderar iniciativas como a Missão X no Brasil.
O asteroide que leva seu nome foi encontrado em 7 de julho de 2007 pelo astrônomo amador Robert Holmes no Observatório de Charleston, nos Estados Unidos. Catalogado inicialmente como 2012 TZ235, o objeto foi oficialmente batizado pela União Astronômica Internacional (IAU) como 550832 Silvanacopceski em 2023, em reconhecimento à sua dedicação ao ensino e à ciência cidadã.
Salvador Nogueira, referência no jornalismo científico e na cobertura de exploração espacial no Brasil, é autor de vários livros sobre astronomia e astrobiologia, e também colunista de grandes jornais. Seu trabalho facilita a compreensão de temas complexos da ciência planetária, das missões do Programa Artemis e da busca por vida extraterrestre pelo público leigo.
O asteroide foi descoberto em 20 de agosto de 2008 pelo projeto de varredura Sloan Digital Sky Survey, no Observatório de Apache Point, no Novo México (EUA). Inicialmente listado como 2008 VZ87, o objeto foi oficialmente renomeado como 588905 Salvadornogueira pela União Astronômica Internacional (IAU) em homenagem à sua trajetória na comunicação científica.
Valerio Carruba, professor de astronomia na Unesp (Câmpus de Guaratinguetá), é uma das maiores autoridades globais no estudo da dinâmica e evolução das famílias de asteroides do Sistema Solar. Suas pesquisas empregam simulações computacionais e inteligência artificial para mapear a origem e a dispersão dos fragmentos resultantes de colisões antigas no Cinturão Principal.
O corpo celeste foi descoberto em 16 de setembro de 1988 pelo astrônomo Schelte J. Bus no Observatório do Monte Palomar, nos Estados Unidos. Inicialmente registrado com o código provisório 1988 SF3, o objeto recebeu a denominação oficial 10741 Valeriocarruba pela União Astronômica Internacional (IAU) em reconhecimento às suas contribuições para a compreensão dos menores corpos do Sistema Solar.
Nicolinha e Silvana Copceski participaram do programa Olhar Espacial, onde discutiram esse reconhecimento. Silvana comentou que foi uma grande surpresa, mencionando que começou a trabalhar com o programa Caça Asteroides em 2017 e nunca imaginou receber uma homenagem. Ela também foi uma das pessoas que sugeriu o nome de Nicolinha para um asteroide do cinturão principal, em 2020, quando ingressou no Ministério da Ciência e Tecnologia, e o Dr. Patrick endossou a ideia.
Para a jovem apaixonada por estrelas, ter seu nome eternizado no espaço representou a concretização de um sonho, e a surpresa organizada pela equipe tornou o momento ainda mais especial. Nicolinha declarou que foi muito inesperado, mas extremamente feliz, especialmente porque toda a equipe do Caça Asteroides havia mencionado que seria uma reunião sobre asteroides, e só então lhe deram a notícia.
Conforme demonstrado, alcançar o espaço não se restringe à carreira de astronauta. Para alguns, o caminho passa pelas pistas de corrida; para outros, pela música, pesquisa ou divulgação científica. O que une todos esses indivíduos é que suas jornadas deixaram marcas no cosmos, batizando asteroides que agora viajam eternamente pela vasta extensão do Sistema Solar.
