As gêmeas e arquitetas de origem franco-marroquina, Salwa e Selma Mikoü, estabeleceram uma prática profissional que integra arquitetura, engenharia, artesanato e a preservação da memória cultural. Como fundadoras do escritório Mikoü Architecture, localizado em Paris, as irmãs utilizam suas distintas abordagens de projeto, influenciadas por terem crescido tanto no Marrocos quanto na França.
Em uma entrevista concedida ao Louisiana Channel, elas detalham como a arquitetura marroquina impactou seu trabalho, descrevendo seu método colaborativo e o interesse em harmonizar as técnicas construtivas modernas com as tradições manuais.
Para as Mikoü, a compreensão da arquitetura teve início nos ambientes que experimentaram durante a infância no Marrocos. Elas residiam em um riad tradicional, estruturado em torno de um pátio interno, com terraços voltados para as casas vizinhas, o que estabelecia uma ligação direta entre a vida privada e a comunitária. Salwa descreveu o Marrocos como «um país muito sensual, repleto de cores e cheiros», e especificamente Marrakech como uma «cidade imersiva», onde os souks, mercados e áreas comuns facilitam a reunião das pessoas.
Essas experiências iniciais também as apresentaram à arquitetura através dos contrastes. Salwa salientou que «Viver com contrastes é algo muito significativo», referindo-se à passagem entre os espaços externos, que eram iluminados e estreitos, e os interiores, mais reservados e sombreados. A progressão entre esses espaços permanece crucial em sua metodologia, pois variações de escala, iluminação e fechamento geram diversas formas de convívio, desde o aspecto coletivo da cidade até a privacidade do lar.
Selma relembrou como os terraços do riad de sua juventude serviam como locais para observar as famílias vizinhas e interagir com o ambiente circundante, destacando «essa tradição de vizinhança» e ligando isso ao seu foco contínuo em como a arquitetura pode moldar as relações humanas.
As irmãs reconhecem possuírem «olhares muito diferentes sobre a arquitetura» e se consideram «muito complementares». Inicialmente, no desenvolvimento de um projeto, elas costumam trabalhar isoladamente, criando ideias através de esboços e desenhos antes de unificar os conceitos. O diálogo é considerado uma fase vital do processo, visto que «adoramos conversar porque as palavras têm uma ressonância muito profunda para nós». Eventualmente, os desenhos individuais as levam a utilizar a técnica de colagem, mesclando seus imaginários distintos em uma composição final conjunta, afirmando que «nossa riqueza está em sermos diferentes».
Suas carreiras profissionais reforçaram essas distinções. Após cursarem arquitetura na mesma universidade, Salwa atuou no Ateliers Jean Nouvel, enquanto Selma fez parte do Renzo Piano Building Workshop. Ambas descreveram esses ambientes como espelhos de seus interesses particulares: Salwa foi atraída por questões intelectuais, abstração e conceitos, ao passo que Selma se identificou com os aspectos práticos e materiais da construção arquitetônica. Esse contraste de visões passou a permear tanto o desenho quanto a execução dos projetos.
A conexão entre teoria e prática construtiva é notável no interesse mútuo delas pela engenharia. Elas explicam que «nos interessamos pela engenharia porque, para nós, toda essa estrutura interna representa as bases da arquitetura de um edifício». O apreço pela maneira como os edifícios são montados também se relaciona com a transição ecológica e a pré-fabricação. Afirmam gostar da «ideia de industrialização da arquitetura porque, para nós, é um gesto de progresso», defendendo que os métodos industrializados podem tornar a arquitetura «inteligente, sem que seja de forma alguma padronizada».
Contudo, essa inclinação tecnológica não implica um afastamento do trabalho artesanal. Suas raízes marroquinas proporcionaram contato com uma rica herança de artesanato e ornamentação, que elas continuam a reinterpretar dentro do contexto da construção contemporânea. Elas expressam grande satisfação em «unir tecnologia e artesanato», definindo sua prática como uma «Manufatura de Arquitetura». Dessa ótica, a construção serve como um veículo para integrar diversos conhecimentos, tornando visível aquilo que, de outra forma, ficaria oculto.
Esses princípios guiam seus projetos. Em Bordeaux, o Art de Rives funciona como um «caldeirão cultural» urbano, integrando moradias, residências artísticas e acomodações estudantis. Seu design permeável visa expandir a cidade em direção ao Rio Garona, promovendo espaços de encontro para variados grupos. Outras obras concluídas incluem o Aquazena, uma piscina e centro de bem-estar na Grande Paris; o Balsanéo, um complexo aquático e spa em Châteauroux; e o Campus Escolar Simone Veil em Boulogne-Billancourt.
O Louisiana Channel, produtor do Louisiana Museum of Modern Art, é uma plataforma que hospeda entrevistas em vídeo com artistas, arquitetos, designers, escritores e músicos, analisando suas ideias e perspectivas sobre a cultura atual. Recentemente, a série também entrevistou figuras como Pedro Reyes, Liam Young, Tsuyoshi Tane, Xu Tiantian e Zhu Pei, tratando de temas como memória coletiva, cultura material e a evolução da relação entre arquitetura e sociedade.
