Muitas pessoas possuem memórias de infância que geram questionamentos sobre sua veracidade. Um exemplo disso são os comerciais da SEAT, que estiveram presentes no Brasil por um período breve, desde meados dos anos 1990 até o início da década seguinte. Naquela época, a televisão dominava os meios de comunicação, e os anúncios exibidos durante a programação eram o principal meio de exposição de marcas e produtos ao público.
Existe um fenômeno conhecido como efeito Mandela, onde há convicção de que algo era de uma certa maneira, mas a realidade é outra. O autor recorda ter acreditado que os anúncios diziam "SIAT" (pronunciado como Fiat, mas com S em vez de F), mas pesquisas posteriores confirmaram que o nome correto era "SEAT".
A análise infantil de dez anos, que já demonstrava interesse por automóveis, levantou a hipótese de que a intenção poderia ser confundir a marca com a Fiat, já estabelecida no Brasil há mais de vinte anos. O autor percebeu que a SEAT era uma marca recém-chegada, coincidindo com o boom de importações que ocorreu após a abertura dos portos brasileiros em 1990.
A SEAT, na verdade, começou como fabricante de modelos da Fiat sob licença na Espanha. Este acordo foi concebido em 1948 e culminou na inauguração da SEAT em 1950. Diversos modelos icônicos da Fiat foram renomeados como SEAT, mantendo visual e nome similares. O primeiro foi o SEAT 1400, baseado no Fiat 1400, um carro familiar projetado por Dante Giacosa, disponível como sedã ou perua, equipado com motor quatro-cilindros de 1,4 litro e câmbio manual de quatro marchas.
Posteriormente, em 1957, surgiu o SEAT 600, que era uma versão licenciada do Fiat 600. Este modelo replicou o sucesso italiano e tornou-se um dos carros de maior volume produzidos pela SEAT nos primeiros anos, simbolizando o chamado Milagre Espanhol, período de intenso crescimento econômico entre 1959 e 1974, que terminou com a Crise do Petróleo de 1973.
Outro modelo relevante foi o SEAT 1430, vendido entre 1969 e 1975, que era um Fiat rebatizado, especificamente o Fiat 124. Em 1977, dois anos após o carro sair de linha, a SEAT participou pela primeira vez do Campeonato Mundial de Rali (WRC) utilizando um motor de 1,8 litro no Rali de Monte Carlo, alcançando o terceiro lugar geral.
Mesmo com a desaceleração econômica, a SEAT continuou seu desenvolvimento. Na década de 1980, a marca lançou seu primeiro modelo original, o SEAT Ronda. Isso gerou um conflito com a Fiat, que alegava cópia direta do Fiat Ritmo, visto que os veículos eram muito parecidos. O caso foi levado à Câmara de Arbitragem de Paris, onde a SEAT apresentou um exemplar do Ronda com as diferenças pintadas de amarelo, levando a comissão a concluir que os modelos eram suficientemente distintos.
Este desentendimento, somado ao impacto da Crise do Petróleo, levou as empresas a trilharem caminhos separados. Em 1982, a parceria terminou quando a SEAT e o governo espanhol solicitaram um grande investimento da Fiat para manter o negócio.
A Volkswagen aproveitou a situação, vendo a SEAT como uma entidade vulnerável após o rompimento com a Fiat. Em 1982, Carl Hahn, então líder da Volkswagen, identificou uma oportunidade: a SEAT necessitava de um suporte financeiro robusto, e a Volks buscava expandir sua atuação além das fronteiras alemãs.
Inicialmente, a colaboração foi prática, com a SEAT montando veículos alemães, como o Passat/Santana e o Polo, na Espanha. Rapidamente, a relação se aprofundou: em 1986, a Volkswagen adquiriu a maior parte das ações da marca espanhola, completando a aquisição no final de 1990. A SEAT tornou-se, assim, a primeira subsidiária 100% estrangeira pertencente ao Grupo Volkswagen, e o casamento resultou em lucros, com a SEAT produzindo mais de 15% dos carros do grupo global em apenas dois anos após a compra majoritária.
Um marco dessa nova fase ocorreu no início dos anos 90 com a inauguração da moderna fábrica de Martorell, perto de Barcelona. Com acesso total às plataformas e peças da Volkswagen, a SEAT começou a produzir carros com identidade espanhola, mas engenharia alemã.
O primeiro projeto totalmente desenvolvido sob a égide da Volks foi o sedã Toledo, lançado em 1991. Contudo, os pontos de virada vieram em 1993, com a segunda geração do hatchback Ibiza e sua versão sedã, a Córdoba, que combinavam design atraente com a confiabilidade da engenharia Volkswagen.
Com uma linha de produtos renovada, engenharia alemã e solidez financeira, a SEAT buscou expansão global. Ao planejar sua entrada no Brasil, a marca focou em um perfil adequado ao mercado local, liderado pelo Ibiza e Córdoba. Esteticamente, os carros apresentavam linhas ousadas, criadas pelo estúdio Italdesign de Giorgetto Giugiaro, conferindo um aspecto de veículo importado. No entanto, internamente, eles utilizavam a mesma plataforma do Polo Classic da Volkswagen, e as versões GLX e SXE de Ibiza e Córdoba eram equipadas com o motor 1.8 AP da Volkswagen.
Vale notar que o Polo Classic, sedã da Volks, chegou ao Brasil em dezembro de 1996, visando substituir o Voyage e os modelos da Autolatina. A Volks tentou posicioná-lo como um carro superior, oferecendo teto solar manual, freios ABS e duplo airbag, embora o brasileiro o visse primariamente como um Voyage aprimorado.
Uma ironia notável era a rota do motor 1.8 AP com injeção Mi: estes motores eram fabricados no Brasil, na planta de São Carlos (SP), recebiam um selo para serem enviados à Argentina, onde os carros eram montados, e retornavam ao Brasil já instalados.
A linha espanhola também se diversificou, adicionando a perua Córdoba Vario, um station wagon compacto, e o furgão Inca, que era um modelo superior à VW Caddy. Mecanicamente, o Ibiza recebeu uma versão de entrada com motor 1.0 16V (igual ao Gol), mas o avanço significativo veio com o motor 1.6 SR, parte da família EA113, que equipava também o Golf Mk4 e o Audi A3 vendidos no Brasil, proporcionando um desempenho mais moderno e suave.
O capítulo final desses carros no Brasil envolveu uma reestilização ocorrida na virada do milênio, pouco lembrada. Entre 1999 e 2000, a SEAT introduziu no mercado europeu o facelift do Ibiza e Córdoba (projeto GP01), visando modernizar o design para os anos 2000. Os faróis ficaram mais esportivos, substituindo a lente de vidro separada por uma peça única de acrílico, e a peça que unia as lanternas traseiras foi removida.
O interior sofreu uma transformação mais drástica, abandonando a arquitetura quadrangular dos anos noventa por um painel mais fluido e sofisticado. As versões mais caras incluíam uma tela digital central iluminada em vermelho, integrando rádio (com toca-fitas) e controles de ar-condicionado.
No entanto, esses modelos reformulados não conseguiram atingir o potencial esperado. A forte desvalorização do Real em 1999 transformou os carros importados em itens de luxo repentinos, fazendo com que os preços da SEAT disparassem e as vendas caíssem drasticamente. Sem alternativas, a marca encerrou suas operações no mercado brasileiro no início dos anos 2000.
Essa saída não impactou a trajetória da SEAT na Europa. Pelo contrário, após deixar o Brasil, a Volkswagen consolidou a visão de transformar a SEAT em sua marca "jovem e esportiva", funcionando como um equivalente espanhol da Alfa Romeo, promovendo o slogan "auto emoción" e o sucesso do hatch médio Leon.
