Problemas de moderação e privacidade do Discord geram insatisfação na comunidade gamer em 2026
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Problemas de moderação e privacidade do Discord geram insatisfação na comunidade gamer em 2026

Em maio de 2026, um usuário relatou ter tido sua conta banida no Discord após alegada submissão de material de abuso infantil. Contudo, o usuário afirmou que o conteúdo enviado eram meras texturas de jogos, apresentadas como imagens quadriculadas de várias cores. Ele expressou no X (anteriormente Twitter) que o banimento foi injusto, causado por um erro no sistema de automod baseado em inteligência artificial que identificou suas texturas de jogo como CSAM.

Este incidente não foi isolado; entre maio e julho, mais de 8 mil contas sofreram banimentos imediatos sem qualquer análise humana. O sistema do Discord opera comparando imagens com um repositório de material nocivo conhecido, e foi essa comparação que levou aos problemas. Padrões quadriculados, presentes em itens como tabuleiros de xadrez, planilhas do Excel, texturas de jogos e fundos transparentes, confundiram a IA. Em apenas um fim de semana de julho, mais 200 pessoas foram banidas antes que a empresa percebesse o equívoco e paralisasse o sistema.

O Discord reconheceu publicamente a falha, declarando que seus sistemas sinalizam conteúdo através de comparações com material nocivo conhecido, e que tal correspondência por similaridade pode resultar em falsos positivos. A plataforma prometeu implementar «salvaguardas melhores pra isso não acontecer de novo». O caso do usuário mencionado é particularmente relevante, pois ele utilizava o Discord como canal oficial de comunicação de sua equipe enquanto dirigia um jogo, ficando sem acesso ao seu trabalho por dias devido ao bug que não distinguia arte de jogo de conteúdo criminoso. Embora todas as contas afetadas tenham sido restauradas, a questão da confiança na plataforma permaneceu.

A controvérsia sobre a moderação por IA

Em fevereiro, o Discord anunciou a implementação de uma verificação de idade global a partir de março, exigindo selfie com reconhecimento facial ou envio de documento. A reação das comunidades foi amplamente negativa, com usuários manifestando desconfiança em empresas de tecnologia que lidam com dados pessoais. Outro comentário foi mais incisivo, criticando a medida como uma forma de prejudicar a própria comunidade.

Essa desconfiança ganhou fundamento após um incidente em outubro de 2025, quando hackers invadiram a 5CA, fornecedora terceirizada de suporte do Discord, resultando no roubo de pelo menos 70 mil documentos de identidade de usuários, incluindo passaportes e carteiras de motorista. A empresa recusou-se a pagar o resgate de US$ 3,5 milhões solicitado pelo grupo responsável. Para agravar a situação, a nova verificação exigiria justamente esse tipo de documento novamente.

Diante da crescente pressão nas redes sociais, o Discord reverteu sua decisão, adiando o lançamento global para o segundo semestre de 2026. O CTO Stanislav Vishnevskiy admitiu o erro em uma publicação, afirmando: «Erramos, não vou fingir que não erramos, e sei que ser uma empresa maior agora significa que erros têm consequências maiores e a confiança se desgasta mais rápido.» A Electronic Frontier Foundation criticou a postura, lembrando que o Discord já havia recebido o prêmio irônico de pior vazamento do ano em 2025, e argumentou que exigir reconhecimento facial ou documento de identidade voluntariamente, sem obrigatoriedade legal, equivale a optar pela vigilância em detrimento da reconstrução da confiança.

A desconfiança se estendeu além do Discord. Em fevereiro, a plataforma encerrou a parceria com a Persona, empresa utilizada para a verificação de idade, após pesquisadores indicarem possíveis laços da companhia com programas de inteligência dos Estados Unidos. De acordo com o Malwarebytes, o código exposto da Persona revelava 269 verificações distintas, incluindo reconhecimento facial operado contra listas de vigilância, indo muito além do necessário para uma simples checagem de idade. Em contraste, a Twitch adotou uma postura diferente, exigindo documento e selfie pela mesma Persona de novos afiliados antes do primeiro pagamento. Quando a streamer TawnyCodeCat questionou o suporte sobre alternativas, recebeu uma resposta negativa. Posteriormente, a Twitch suavizou a exigência, alegando que ela afetava apenas uma «porcentagem muito pequena» dos afiliados, mas isso não convenceu muitos usuários.

Quando o assunto se tornou policial

Em 22 de julho de 2026, uma adolescente de 13 anos faleceu em Naviraí (MS). Segundo a CartaCapital, ela teria sido coagida por um grupo virtual a realizar desafios de automutilação e crueldade animal. Em 4 de agosto, a Polícia Federal iniciou a Operação Lívia para investigar se o Discord e o Telegram foram utilizados para aliciar vítimas, predominantemente meninas, e disseminar conteúdo neonazista e misógino em cinco estados.

Três dias depois, em 7 de agosto, a ANPD instaurou um processo de fiscalização contra o Discord, apontando possíveis falhas em quatro aspectos do ECA Digital: prevenção contra conteúdo de automutilação, mecanismos de verificação de idade, remoção de conteúdo irregular e notificação de violações às autoridades. A empresa teve cinco dias úteis para apresentar defesa, sob pena de multa de até R$ 50 milhões por infração. Em 12 de agosto, a agência avançou, determinando a suspensão da função «Go Live» no Brasil. O diretor da ANPD, Iagê Miola, justificou essa determinação específica à CNN Brasil, afirmando que «há uma funcionalidade específica dentro da plataforma Discord que representa um altíssimo risco para crianças e adolescentes», e reiterando que «a investigação continua nos próximos meses».

Conforme reportado pela Migalhas, a SaferNet Brasil registrou um aumento de 54% nas denúncias relacionadas ao Discord, saltando de 264 para 406, ao comparar o período de janeiro a julho de 2025 com o mesmo período de 2026. Este caso marcou o primeiro teste significativo do ECA Digital e a primeira vez que a ANPD agiu sem aguardar ordem judicial.

Para quem serve essa comunidade? O Discord transcende a função de mero aplicativo de jogos; é o local onde a comunidade gamer se reúne para interagir e criar laços com pessoas de todo o mundo. No Brasil, em particular, é um dos poucos espaços dedicados a esse público, especialmente para conteúdo voltado para nichos gamers, que foge dos grandes lançamentos. Foi justamente esse público que foi decepcionado durante todo o ano: com banimentos equivocados sem justificativa, anúncios de verificação de idade mal explicados, e um recuo que manteve um rastro de desconfiança, levando muitos a buscar alternativas que, segundo eles, não se comparam ao que o Discord oferece.

Ao ocorrerem tragédias reais no Brasil, a resposta institucional levantou uma questão crucial que deveria ter sido abordada antes: como uma plataforma classificada como +18, que permite a criação de conta a partir dos 13 anos e não foi concebida para crianças, se tornou o principal ponto de encontro de adolescentes no país? Nenhuma dessas decisões isoladamente justifica abandonar a plataforma, mas, no final, quem arca com o custo são aqueles que apenas desejavam um lugar para jogar com amigos.

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Em janeiro, os servidores do jogo Anthem foram desativados, resultando na perda de acesso para jogadores que haviam adquirido o título, visto que ele não dispõe de modo offline. Este incidente se soma a uma série de casos recentes onde diversos outros jogos se tornaram injogáveis, muitas vezes sem aviso prévio além de comunicados no Discord ou notas na página da Steam.

O levantamento recente aponta para a descontinuação de vários títulos notórios. Entre eles, destacam-se Anthem, que causou surpresa, e Highguard, que havia sido uma grande expectativa no The Game Awards 2025, mas teve sua vida útil limitada a apenas 45 dias. Adicionalmente, uma parcela significativa de jogos para PlayStation 3 e 4, Xbox 360 e One teve seus servidores encerrados, seja por ausência de suporte ao hardware ou devido a cortes orçamentários.

Até o momento, cerca de 50 jogos foram descontinuados, incluindo aqueles que possuíam funcionalidades offline, e foram removidos de plataformas como Steam, PS Store e Microsoft Store. Outros títulos, como Granblue Fantasy: Versus, WWE 2K24 e NBA Live 19, perderam o suporte aos seus modos online, enquanto Project CARS 3 e outros foram retirados das lojas digitais, embora seus modos offline e multiplayer local continuem operacionais.

Mais descontinuações estão previstas até o final do ano, abrangendo títulos de grandes desenvolvedoras. Por exemplo, Destiny 2, anunciado em 21 de maio, não receberá mais atualizações, pois o estúdio Bungie está concentrando esforços em um futuro lançamento ainda não revelado, que não é Destiny 3. Embora a Bungie assegure que não há planos para um fechamento definitivo dos servidores, a quantidade de títulos descontinuados sugere que o encerramento de Destiny 2 é uma questão de tempo.

O projeto de lei conhecido como Protect Our Games Act (AB 1921) está em tramitação no estado da Califórnia, nos EUA. Esta legislação propõe obrigar as empresas de videogames a garantir que os jogos comprados permaneçam jogáveis mesmo após o término dos serviços online. As empresas teriam duas opções: fornecer uma atualização que permita o uso contínuo do jogo sem dependência dos servidores originais, ou reembolsar integralmente os compradores.

Esta iniciativa é um reflexo direto do movimento global Stop Killing Games, que advoga pela preservação dos jogos após seu desligamento. O projeto já passou por votação na Assembleia da Califórnia e seguiu para deliberação no Senado estadual. Contudo, o caminho para a aprovação final ainda é longo.

Um revés ocorreu no Senado estadual, pois, apesar de ter sido aprovado pela Assembleia da Califórnia em maio, o projeto falhou em uma votação crucial de comitê em 29 de junho, obtendo apenas 4 votos a favor, 3 contra e 4 abstenções. Assim, o texto não alcançou a maioria necessária, impedindo nova votação antes de 2027. Além disso, a lei proposta só se aplicaria a jogos lançados a partir de 2027, o que deixa muitos títulos atuais vulneráveis à extinção.

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